
Jovens numa manifestação de apoio à Ucrânia. Foto © Ehimetalor Akhere Unuabona | Unsplash
Perante a guerra, os apelos à paz podem não ser suficientes. Mas não é por isso que se devem descartar. A Avaaz, uma das mais poderosas redes de campanhas cívicas globais, endereçou um aos governos de todo o mundo, tendo até às 18h04 de ontem sido subscrito por 1.280.800 pessoas de todo o mundo: “Nós estamos ao lado dos povos da Ucrânia e da Rússia que não querem esta guerra. A invasão levada a cabo por Putin não é apenas um ataque à Ucrânia. É um ataque à liberdade, um ataque à democracia, um ataque à verdade. Pedimos-vos que protagonizem uma frente comum, responsabilizando o regime de Moscovo e os seus aliados, os seus porta-vozes e os seus apoiantes. Para isso, devem impor severas sanções contra a Rússia, fazendo tudo para acabar esta guerra. Diante do medo, escolham a coragem. Diante da divisão, escolham a união. E, diante da agressão, escolham a paz”.
A Avaaz declara que “o povo russo não apoia esta guerra. Ela é obra de um regime criminoso, atormentado pelo medo da democracia porque teme o julgamento da sua própria população”. Essa é a razão por que Putin “reprime violentamente os corajosos russos que saem às ruas para se manifestarem contra a guerra. É por isso que ele se encarniça a espalhar as suas mentiras por todo o mundo. E é por isso que ele não hesita em matar ucranianos, que derrubaram um regime pró-russo corrupto em 2014: ele não quer uma democracia florescente nas suas fronteiras.
Não podemos aceitar isso. Chegou a hora de apoiar o povo ucraniano, de defender a verdade, a liberdade e o direito à autodeterminação dos povos de todo o mundo.”
O impulso repressor não é, aliás, novo. “Os russos decidiram que discutir em liberdade era uma coisa inadmissível numa província sua e mandaram o seu exército ocupar no espaço de uma noite o país”, escrevia há quase quatro décadas Milan Kundera no romance A insustentável leveza do ser, a propósito da invasão da Checoslováquia em 1968 (Lisboa: D. Quixote, 1986).
Anne Applebaum, historiadora e jornalista americana, autora de O crepúsculo da democracia (2020) e de Gulag – Uma História (2022), explicou que “Putin invadiu a Ucrânia porque a determinação do país em converter-se numa democracia é um claro desafio ao projecto nostálgico de política imperial que ele propõe, ou seja, a criação de uma cleptocracia autocrática, na qual ele exerce plenos poderes, algo semelhante ao velho império soviético”. Respondendo a questões do diário espanhol El País, Anne Applebaum esclarece que “a Ucrânia mina este projecto pela sua mera existência como um estado independente e por lutar por algo melhor, pela liberdade e pela prosperidade”. A “revolução pela dignidade” que, em 2014, obrigou um presidente ucraniano corrupto a fugir do país “é exactamente o tipo de revolução que Putin teme”. Observa a historiadora que “ele sabe que, se a Ucrânia tivesse sucesso no seu impulso democrático e na sua integração na União Europeia, os russos poderiam perguntar-se: e por que não também nós?”
Do povo russo veio, aliás, o mais destemido apoio aos ucranianos. O director do diário francês Libération, Dov Alfon, escreveu, na sexta-feira, em editorial, que “o apoio inesperado, que se pode revelar eficaz, veio contra todas as expectativas da própria Rússia: milhares de russos manifestaram-se contra a guerra na noite de quinta-feira. As imagens de prisões violentas em São Petersburgo, seguidas de não menos corajosas declarações de solidariedade para com o povo ucraniano, vindas de artistas, estudantes e mesmo estrelas de televisão russas, sugeriam a possibilidade de um sobressalto europeu tão inesperado quanto ‘encorajador’”.
Agora, defende Anne Applebaum, é o momento em que a Europa e os Estados Unidos da América devem repensar totalmente a estratégia em relação à Rússia. “Precisamos de tirar o dinheiro e a influência russa dos nossos sistemas políticos, sancionar todos os oligarcas que rodeiam Putin, confiscar as suas propriedades no Ocidente e impedir que voltem a fazer negócios nos nossos países”. Ou seja, é preciso travar “a lavagem de dinheiro russa no Ocidente e a influência política e financeira da Rússia nos nossos territórios”, uma interferência traduzida, por exemplo, como se sabe, na subsidiação de movimentos e partidos políticos de extrema-direita que hostilizam a democracia. A historiadora considera que não pode haver um retorno à “normalidade” comercial com a Rússia enquanto durar a ocupação da Ucrânia. A última sugestão é que a Europa fale a uma só voz e que se apresente mais unida e mais fortalecida.
Uma voz pela paz.









