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| 25/08/2021

Cansado dos vinte anos de atoleiro militar no Afeganistão, Trump fechou um acordo de rendição com os talibãs, em 2020, para a retirada das tropas ocidentais, mas fê-lo nas costas dos aliados da NATO. Os ingleses já se vieram queixar.

atentados afeganistao foto Vatican News sem creditos

  “O estado afegão reduziu-se a pó, ficando o país entregue aos terroristas que em nome da religião querem voltar a um regime medieval em pleno século XXI.”  Foto: Atentados no Afeganistão,  Vaticano News, sem creditos

 

Há um buraco negro entre montanhas chamado Afeganistão, um estado falhado que os ingleses tiveram de abandonar, de onde os soviéticos saíram derrotados e os Estados Unidos depois, ao fim de vinte longos anos. O estado afegão reduziu-se a pó, ficando o país entregue aos terroristas que em nome da religião querem voltar a um regime medieval em pleno século XXI.

A rapidez com que os terroristas tomaram todas as capitais das províncias e chegaram a Cabul revela a fragilidade das forças governamentais, que em muitos casos se limitaram a fugir abandonando armamento e equipamentos. Muitos destes soldados tinham sido colocados em áreas sem ligações tribais ou familiares, o que facilitou a deserção ou o aliciamento, num país tribal com extrema corrupção e divisões no governo.

Ninguém se iluda com as promessas de que desta vez será diferente dos anos 90, quando estes criminosos destruíram os Budas de Bamiyan, património da humanidade com 1500 anos, obrigaram as mulheres a ficar fechadas em casa, de onde só podiam sair acompanhadas por um homem da família e obrigadas à indignidade da burka. Desta vez nada leva a crer que será diferente. Quem fez fracassar o exército russo e mais tarde as forças americanas e da NATO não conseguirá fugir à tentação da vingança e do ajuste de contas, mesmo que diga o contrário. De resto, os talibãs têm-se dedicado a cometer abusos e assassinar funcionários, activistas dos direitos humanos e jornalistas em áreas por eles capturadas.

A população está apavorada, dezenas de milhares de afegãos tiveram de fugir de casa e centenas foram mortos ou feridos nas últimas semanas. Esperam-se agora punições brutais impostas pela interpretação extremada da Sharia. Fazendo tábua rasa dos direitos e da dignidade humana defendem as penalidades mais duras: “Na nossa sharia é claro, para quem faz sexo e não é casado, seja menina ou menino, a punição é de 100 chicotadas em público. Mas quem é casado será apedrejado até a morte. Para quem rouba, se estiver comprovado, deve ter a mão cortada.”

As forças ocidentais gastaram os últimos 20 anos a treinar e equipar os afegãos, tendo declarado que a defesa nacional de 300 mil efectivos (exército, força aérea e polícia) era agora poderosa e qualificada. Pura falácia. Não só muitos militares se passaram para as hostes dos insurgentes como grassava a corrupção entre os comandantes, que se apoderaram dos salários de tropas que nem sequer existiam a não ser no papel, tirando partido dos mais de mais de 88 biliões de dólares gastos com segurança no Afeganistão. O incompetente governo de Cabul desprezou os pachtuns, grupo etnolinguístico da maior parte dos talibãs, localizado principalmente no Leste e no Sul e agora nem tiveram tempo de torcer a orelha.

Mas esta não é uma guerra religiosa, se é que isso existe. Os próprios muçulmanos o dizem: “Ninguém está a lutar em nome do islão”. Trata-se de uma luta pelo poder em que o pretexto é mais uma vez a religião, essa desculpa sempre à mão para justificar os maiores crimes contra a humanidade, normalmente contra pessoas e bens. Apesar disso muitos cristãos estão a fugir da perseguição, tortura, violação e morte, e algumas igrejas no Tajiquistão estão a acolher os que conseguem fugir. Mas sobre as restrições dos talibãs às mulheres, David Munir, o imã da Mesquita Central de Lisboa, diz nada terem que ver com o islão mas sim com a cultura e tradição dos pachtuns.

Obama quis sair daquele atoleiro mas percebeu que não podia. No dia 29 de Fevereiro de 2020 a administração Trump assinou em Doha, no Qatar, um acordo de rendição directamente com os talibãs, o qual incluía um cronograma para a retirada apressada e definitiva dos Estados Unidos e aliados, assim como o nome do líder talibã que assumiria a presidência do país, tudo nas costas dos aliados. A contrapartida foi o compromisso de que o território afegão não viria a ser utilizado como campo de treino para terroristas nem usado para planear ou executar acções contra a segurança dos Estados Unidos.

Apesar do descaramento de Trump, que agora veio condenar o Presidente por uma decisão que ele próprio tomou sem medir as consequências, Biden está a cumprir o referido acordo, mas é ele que vai pagar os custos políticos da retirada e do falhanço de vinte anos de intervenção militar nesta guerra longínqua onde inúmeros americanos perderam a saúde física, mental e a própria vida. Em nome de quê? O sangue desses 3500 soldados e 40 mil civis mortos clama desde o chão daquela terra martirizada.

Provavelmente Biden não teria margem de manobra interna e externa para renegociar o desgraçado acordo de Trump e fez o que tinha de ser feito, mais cedo ou mais tarde: “Sou o quarto Presidente dos EUA a ocupar a Casa Branca desde o início da guerra no Afeganistão. Dois democratas e dois republicanos. Não passarei essa responsabilidade para um quinto presidente.” Os serviços secretos ocidentais falharam e o Presidente falou a verdade aos americanos quando disse que os militares dos EUA não podem nem devem morrer numa guerra em que os afegãos não lutam por si. Mas há gente que prefere a mentira piedosa à verdade nua e crua.

Entretanto as coisas não mudaram assim tanto nestes vinte anos de ocupação, pois 80% das mulheres afegãs continuam analfabetas e algumas meninas com menos de 16 anos são forçadas a casar.

O optimista diria que talvez o caso afegão tenha servido de vacina a um país que se armou em polícia do mundo, visto que nenhum exército consegue derrotar uma população tribal naquelas montanhas. Já o pessimista dirá que enquanto houver uma poderosa indústria das armas há que encontrar sempre novas guerras para escoar o material. Daí que um alto comando militar dos EUA já tenha vindo a público dizer que o país precisa de escolher melhor as suas guerras…

E afinal terminei este texto sem falar do abono de família dos talibãs, o cultivo e negócio da droga (91% do ópio mundial). Entretanto, por cá comunistas e bloquistas regozijam-se. Com o quê?

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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