Pois é, a teologia da prosperidade chegou. Ela sempre esteve presente, mas não tão visível. Agora já a temos entre nós, e não de qualquer forma ou maneira. Temo-la a governar o mundo através de seres sem escrúpulos, egoístas e mesquinhos, sem maiores horizontes do que eles próprios, com interpretações verdadeiramente pessoais da Bíblia e, o que é mais surpreendente, expressadas pela boca de um católico convertido chamado James David Vance, vice-presidente dos Estados Unidos.
O que é apelativo e perigoso é o que defende a teologia da prosperidade. Entre outras preciosidades, diz que, se és rico, é porque agiste bem e Deus te recompensa, e se és pobre, é porque agiste mal e Deus te castiga. Assim mesmo, sem anestesia. É como uma espécie de contrato com Deus, pelo menos com o Deus que eles imaginam. O poder pessoal tem grande importância nesta falsa crença na Bíblia e na fé. É pura doutrina de telepregador e os seus seguidores costumam ser gananciosos, cobiçosos e ambiciosos sem limites.
Esta teologia está condenada por católicos e protestantes, mas o deus Mamon, o deus da ganância, continua a estar muito presente em alguns que consideram a riqueza e o poder sobre os outros como a única religião.
Que neste momento isto seja doutrina política desenha um panorama realmente preocupante, cujas primeiras consequências estamos a ver nas deportações dos “sem papéis” para a Venezuela e Guantánamo. Como é que se pode fazer coincidir esta ideia de que o migrante não branco não é digno de nada, quando se está casado com uma mulher de ascendência indiana e de religião hindu, que colaborou no Projeto de Assistência aos Refugiados Iranianos? Também se pode colocar a questão noutro sentido: como é que se mudou tanto para poder estar casada e ter filhos – mestiços – com alguém que age de forma tão contrária àquilo que viveu e representa, apesar de nunca ter sido pobre? Compreendo que são questões pessoais, mas custa encaixar algumas peças.
Custa-nos reconhecê-lo, mas o que realmente nos incomoda, em geral, é a pobreza, mais do que a cor ou a religião. Se fores rico, podes ser aquilo que quiseres durante o resto da tua vida.
Não é que me interesse particularmente a vida do vice-presidente dos Estados Unidos, mas, por curiosidade, procurei a data em que se tinha incorporado na Igreja Católica pelo batismo, 2019. Pensei que não foi assim há tanto tempo e então perguntei-me: o que é que lhe ensinaram e quem é que o acompanhou no processo de preparação para o batismo, para derivar nesta ideologia tão afastada da fé? Porque me recuso a acreditar que alguém, desde o início do processo, tenha deliberadamente conduzido uma pessoa a este tremendo erro de interpretação da fé.
A desunião dos Estados Unidos, do país e da sua Igreja – alguns bispos tiveram muito a ver com esta deriva – pode ser mais contagiosa do que nós imaginamos. Construir custa uma vida inteira. Destruir, apenas alguns minutos. E, entretanto, os fanatismos crescem, as intolerâncias tornam-se mais fortes, os ricos ficam mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Nem os primeiros são mais bons e melhores seguidores de Deus, nem os segundos são maus e piores crentes em Deus.
Vamos ter de nos empenhar a fundo para que ninguém acredite que Deus só ama os ricos e poderosos. Vamos ter de nos empenhar a fundo para tornar presente o Deus da misericórdia.
Quem quer que seja que apoie estes discursos e ache que são maravilhosos porque nomeiam a Deus e dizem que é preciso recuperar os valores do cristianismo, que pense no Evangelho e veja se casa bem o desprezar os pobres com o adorar a Deus. Embora, seja certo, que isso é o que também propugna algum movimento da Igreja Católica, cujos seguidores aplaudem essas ideias. É o que tem quando não te deixam pensar e és incapaz de o ver.

Pintura: Adoração de Mamon, Evelyn De Morgan (1855–1919). Morgan Centre – Londres / Wikimedia Commons
Cristina Inogés Sanz é teóloga e foi membro do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade por nomeação do Papa Francisco, depois de ter integrado a comissão metodológica de preparação. Autora do livro A Sinfonia Feminina (Incompleta) de Thomas Merton (Paulinas Editora). Este texto foi inicialmente publicado na revista Vida Nueva.









