Pobre cananeia, pobre Maria Madalena e, até mesmo, pobre Maria. Nestes últimos dias, ao ler o comunicado do Vaticano sobre a recusa em autorizar que os leigos possam proferir a homilia nas celebrações litúrgicas, tal como solicitado pelos bispos alemães, pensei nas mulheres acima mencionadas.
A sua presença, as suas acções e as suas palavras no Evangelho são o resultado da liberdade de Jesus para ouvir, para dialogar e, em última análise, para confiar nas mulheres. Se estas mulheres, precisamente estas, vivessem agora entre nós, a Igreja deixá-las-ia falar ou submetê-las-ia às normas criadas pelos homens?
A cananeia que ajudou Jesus a descobrir a universalidade da sua missão; a samaritana que, depois de falar e ouvir Jesus, se tornou a primeira evangelizadora; Maria Madalena, enviada pelo próprio Jesus para comunicar o cerne da nossa fé, que é a ressurreição de Cristo; a própria mãe de Jesus, Maria, que, no contexto de um banquete de casamento, incentivou o seu próprio filho a iniciar a sua missão… Tudo o que é essencial no Evangelho está nas mãos de Jesus e de mulheres – nem todas judias –, como para sublinhar que, para ele, todas elas contavam.
Os outros a quem me refiro no título são os discípulos que, enviados por Jesus, regressam felizes da sua primeira missão a solo. Eram tão leigos como elas, porque Jesus não ordenou ninguém e, no entanto, confiou a elas e a eles a tarefa de alargar o reino. Que confiança Jesus tinha no seu povo e, acima de tudo, que liberdade demonstrava! Suponho que, se os discípulos não fossem ordenados, a Igreja também não os deixaria falar hoje.
O Novo Testamento está repleto de leigos e leigas que falavam e divulgavam a mensagem do Evangelho e, pelo que vemos, não devem ter-se saído assim tão mal, tendo em conta onde chegámos. A forma como chegámos até aqui e o que perdemos pelo caminho é outro assunto.
Temos de agradecer à Igreja Católica alemã, tão peculiar desde o século XVI, por colocar em cima da mesa temas que outras não se atrevem a abordar. Ao seu estilo, ao seu ritmo e no seu contexto, faz o que acredita que deve fazer e levanta questões a partir de uma reflexão madura e da análise da situação atual.
Não se trata de usurpar funções a ninguém, nem de tornar este tema uma questão obrigatória para todas as comunidades. No entanto, pode haver pequenas comunidades onde esta prática da homilia proferida por leigos não provocaria escândalo, nem significaria uma ruptura. Que medo de ver as mudanças como sinónimo de ruptura!
O que é lamentável é que as respostas a certas questões não sejam dadas a partir de uma opção e visão pastorais, mas que, na Igreja, tudo continue a girar em torno da potestas e da autoritas do ministério presbiteral, ou seja, do clericalismo de sempre.

Júlio Romero de Torres (1874-1930) , Samaritana (1919). Museu Júlio Romero de Torres, Córdova.
Ao ritmo a que vamos e, tendo em conta que já 80% das comunidades católicas no mundo só podem celebrar a eucaristia de dois em dois, de três em três e até de quatro em quatro anos – sim, anos –, quando um padre consegue deslocar-se até lá, não seria já altura de ter superado algumas questões pastorais?
Por outro lado, ao ouvir algumas homilias, fica demonstrado que a imposição das mãos não é garantia de que estas, as homilias, tragam algum benefício para quem as ouve. Há uma série de factores que influenciam a preparação: a meditação do texto, conhecer e interagir com a comunidade, os conhecimentos bíblicos, viver a Palavra no contexto atual… Tudo isto não só pode como deve ser feito pelos presbíteros, mas também pelos leigos.
Não se trata de se rebelar, trata-se de que algum sector eclesiástico deve perceber que leigos e leigas somos adultos na fé, com tudo o que isso implica. O Sínodo sobre a sinodalidade permitiu a muitos leigos descobrirem que sabem pensar e, a este respeito, o que diz o n.º 27 do Documento Final? Uma pista: o texto insiste em que se deve ser muito mais sensível ao papel e ao protagonismo dos leigos e, em especial, das mulheres na pregação e na linguagem da Igreja.
É hora de pensar a partir da liberdade do Evangelho e, uma vez que Jesus não colocou obstáculos, aproveitar e ouvir a cananeia, a samaritana, Maria Madalena, Maria e os discípulos. Todos, homens e mulheres, sem distinção. Vamos ver se aprendemos a ler o Código de Direito Canónico à luz do Evangelho e não o contrário. Poderia ajudar…
Cristina Inogés Sanz é teóloga e foi membro do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade por nomeação do Papa Francisco, depois de ter integrado a comissão metodológica de preparação. Autora do livro A Sinfonia Feminina (Incompleta) de Thomas Merton (Paulinas Editora). O texto que aqui se reproduz com a devida autorização da autora e da revista, foi originalmente publicado na Vida Nueva.
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