
O franciscano “foi submetido às medidas ditadas pela sentença, que incluem afastamento de qualquer exercício ministerial ou pastoral, proibição de publicar livros e artigos ou de exercer direção ou aconselhamento espiritual”. Foto © Pixabay
O padre e teólogo franciscano, de nacionalidade espanhola, Francisco Javier Garrido, de 82 anos e vasta obra publicada, acaba de ser condenado pelo Tribunal (eclesiástico) da Rota de Madrid por dois casos de abuso contra freiras, suspeitando-se que possa haver mais casos. A ordem religiosa a que pertence é acusada de abandono das vítimas.
O frade, que pertence à comunidade franciscana de Arantzazu, no País Basco, foi considerado culpado de “falso misticismo” e “solicitação de confissão” (uso do sacramento da penitência para avanços de natureza sexual). O caso não podia ser objeto de procedimento civil, dado terem prescrito os factos envolvidos.
Num comunicado de seis pontos, a Província franciscana de Arantzazu, que diz ter 88 membros em 13 comunidades, reconheceu e pede perdão “sem reservas pelo sofrimento” causado por esse seu membro e rejeita “profundamente qualquer prática que implique abuso de poder, abuso de consciência e abuso sexual”.
Reconhece, por outro lado, “como Província”, nem sempre ter sabido “tomar o partido das vítimas neste processo”, o que a leva a “pedir perdão a elas, à Igreja e à sociedade”, manifestando “disposição para reparar os danos causados”.
Os franciscanos informaram que o irmão Francisco Javier Garrido Goitia “foi submetido às medidas ditadas pela sentença, que incluem, entre outras sanções: afastamento de qualquer exercício ministerial ou pastoral, proibição de publicar livros e artigos ou de exercer direção ou aconselhamento espiritual”.
Anunciaram ainda estar a pôr em prática “medidas rigorosas de prevenção, reparação, formação, códigos de conduta e supervisão externa”, disponibilizando também um número telefónico e um endereço de correio eletrónico para eventuais denúncias que possam ainda surgir.
Segundo refere o site da revista católica Vida Nueva, as vítimas de Javier Garrido deram conta a este órgão de informação que depararam com “grande resistência da parte da Ordem Franciscana”, que nunca as apoiou ao longo de um processo que, dizem elas, “tornou os superiores cúmplices”, aumentando a sua dor.
A Ordem, de resto, não só não se interessou pelas vítimas, como reconhece agora, no comunicado emitido, mas contra-argumentou que se tratava de “relações entre adultos” e nessa base, recorreu da decisão, em primeira instância. Nessa etapa, Garrido teria visto já limitados os seus contactos a irmãos franciscanos e membros da sua família, pena que, num primeiro momento, não terá respeitado, segundo a Vida Nueva.
As duas religiosas que denunciaram os abusos julgam haver outros casos que ainda não vieram a público “por medo à estigmatização e à suspeita que supõe ser mulher e dar um passo [desta natureza] perante a família ou a congregação”.
Segundo as vítimas de Javier Garrido, “o abuso de pessoas adultas não se entende e pensa-se sempre que se trata de relações consentidas”. “Adultas sim, esclarecem, mas em situação de vulnerabilidade. Manipuladas em nome de Deus, para cometer abusos de poder, de consciência, espirituais e sexuais”.
Garrido ficou conhecido, ao longo de mais de quatro décadas, pelos retiros e cursos de acompanhamento de adultos, mas sobretudo por uma série de livros como Pedagogía de la afectividad cristiana, Hacerse mayor y ser cristiano, Adulto y cristiano: crisis de realismo y maturidad cristiana; ou Estructurar e integrar la relación con Dios, alguns deles com várias edições.









