
“Ler os sinais dos tempos” foi o mote para as conferências do padre Halík em Portugal. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
No novo livro que veio apresentar a Portugal (O sonho de uma nova manhã), Tomáš Halík escreveu doze cartas a um Papa imaginário. Mas, nas conferências que deu em Braga e Lisboa, o padre e teólogo checo revelou que também escreveu recentemente uma carta ao Papa real, que já fez chegar ao Vaticano. Nela, sugeriu-lhe que convoque um novo Sínodo… desta vez de teólogos e ecuménico.
Referindo-se ao fim do Sínodo sobre a Sinodalidade, Tomáš Halík disse esta quinta-feira, 21 de novembro, perante um auditório completamente cheio na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, que as pessoas lhe perguntam muitas vezes: “Qual deve ser o próximo passo?”. E depois de refletir sobre qual poderia ser a resposta, o teólogo chegou a esta ideia. “Propus ao Papa Francisco que o próximo grande passo no processo de renovação sinodal deveria ser um sínodo ecuménico de teólogos. Os teólogos, representando diferentes tradições cristãs, deveriam aprender não só nos congressos académicos, mas também nas reuniões sinodais, a ouvirem-se uns aos outros e, assim, a ouvirem o que o Espírito diz às igrejas hoje”, afirmou. Quanto ao tema deste novo sínodo, poderia ser “quais sãos os sinais dos tempos hoje e como é que os cristãos devem responder a estas mudanças”, acrescentou.
“Ler os sinais dos tempos” foi precisamente o mote para as conferências do padre Halík em Portugal. “No limiar da reforma sinodal, a Igreja precisa da teologia e da espiritualidade na sua interligação para contribuir para uma das tarefas mais importantes da era vindoura – aprofundar a arte do discernimento espiritual, a arte de ‘ler os sinais dos tempos’, defendeu.
Lembrando que “Deus não fala num só lugar, num só templo e numa só cultura”, Tomáš Halík alertou que “considerar qualquer momento no caminho da história, qualquer estado do mundo, da Igreja, do conhecimento teológico e científico, como final, definitivo e imutável é sucumbir ao pecado do triunfalismo”. E há “uma tentação muito perigosa” para a Igreja, avisou ainda: não lutar contra esse triunfalismo e tornar-se uma instituição “militante, intolerante e arrogante”.

“Deus não fala num só lugar, num só templo e numa só cultura”, assinalou Tomáš Halík esta quinta-feira, em Lisboa. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
Depois, reconhecendo que “muitas igrejas, mosteiros e seminários estão a esvaziar-se na nossa parte do mundo”, o teólogo disse que “talvez não precisemos de chorar no cemitério de certas formas de cristianismo. Em vez disso, devemos perguntar onde está a Galileia de hoje, onde podemos encontrá-la – muitas vezes numa forma surpreendentemente alterada”.
Essa “Galileia de hoje” é, de acordo com Halík, constituída “pelos pobres, pelos famintos e pelos sedentos – não só no sentido social, mas também no sentido espiritual”. E inclui também “aqueles cujas necessidades a Igreja não conseguiu satisfazer e que, por diversas razões, não encontraram uma porta aberta para a casa da Igreja”, assim como “um número crescente daqueles que foram desiludidos ou mesmo magoados pela Igreja e que a abandonaram”.
Para o teólogo, não restam dúvidas: estas pessoas não podem “ser enquadradas nas fronteiras institucionais e mentais existentes da Igreja de hoje”, mas essas fronteiras é que precisam de ser abertas, para que a Igreja seja “enriquecida pela experiência daqueles que não caminham connosco”. “Este é também o caminho sinodal – procurar uma forma inclusiva de Igreja para todos”, concluiu, lembrando o apelo que o Papa fez na JMJ Lisboa 2023 e tem vindo a repetir em muitos dos seus discursos.
A conferência começou poucos minutos depois das 18h. Antes, a flautista checa Monika Streitova interpretou Spiritus Sanctus, da autoria de Santa Hildegarda de Bingen, e Léthé (“Rio do Esquecimento”), da compositora checa Sylvia Bodorová. A sessão terminou já depois das 20h, com uma longa sessão de perguntas e respostas. O uso da Inteligência Artificial, o papel dos leigos, a falta de credibilidade da Igreja, ou a importância de desenvolver o conceito de Igreja como “hospital de campanha” foram alguns dos temas abordados num diálogo que, como afirmou o bispo auxiliar de Lisboa, Alexandre Palma, serviu para “acrescentar algumas páginas extra ao livro” que Halík viera apresentar. Ou não fosse Lisboa a “cidade dos sonhos”, como lhe chamou o Papa Francisco há pouco mais de um ano.






