Foi a última viagem de Francisco, feita no mesmo papamóvel que utilizou em tantos lugares fazendo do mundo inteiro a sua paróquia. O povo, o grande aliado do seu pontificado, acorreu aos milhares a manifestar que estava com o seu Papa. Mas em todas as viagens foi assim, dos lugares mais martirizados aos mais decisivos. A partir do avião e dos sítios visitados, é possível perceber a geografia franciscana e um novo mapa-mundo, virado ao contrário.
A última viagem do Papa Francisco, feita no mesmo papamóvel que o transportou em tantos países, no meio do seu povo, levou-o a percorrer os cerca de quatro quilómetros entre São Pedro e Santa Maria Maior, em Roma, no meio do povo que dele se despedia e que afirmava o quanto ele tocou as pessoas.
Foi sempre assim, ao longo destes doze anos. Francisco foi a uma favela do Rio de Janeiro dizer que gostaria de entrar em todas as casas a pedir água fresca e um cafezinho; na ilha grega de Lesbos implorou, numa viagem “triste”, a resolução da mais “grave crise humanitária” desde a II Guerra Mundial e levou consigo doze refugiados presos nas teias dos egoísmos das burocracias europeias; sem palavras, abraçou uma criança filipina depois de ela ter feito “a única pergunta sem resposta” – ao querer saber porque permite Deus a miséria; visitou de surpresa um mosteiro budista no Sri Lanka, apelando ao diálogo entre religiões; rezou junto ao muro da Cisjordânia, que encerra os palestinianos numa prisão a céu aberto; colocou os líderes políticos israelitas e palestinianos a abraçarem-se e a plantar uma árvore pela paz entre ambos os povos, apesar de ter sido derrotado no último ano e meio pela vontade genocida do actual poder israelita; foi ao Extremo Oriente, na sua antepenúltima viagem, estar entre minorias cristãs e alegrar-se com o povo de Timor-Leste; esteve no meio dos martirizados Congo ou Sudão do Sul, aos quais tantas vezes se referia, apelando a acabar com a lógica dos senhores da guerra; esteve em Genebra com as igrejas protestantes e ortodoxas, celebrou Lutero e os 500 anos da Reforma na Suécia; foi ao Egipto, a Marrocos e aos Emiratos Árabes promover a ideia da reconciliação e do trabalho conjunto entre religiões pela paz; e celebrou no Iraque entre ruínas, feridas e perseguidos pela insanidade humana.
Os aviões prolongaram, durante estes 12 anos, o púlpito de Francisco, para quem o mundo inteiro foi uma paróquia global. As conferências de imprensa que passou a fazer em pleno voo foram uma transformação enorme. O próprio admitiu, a dada altura, que, enquanto arcebispo de Buenos Aires, era tímido na presença de jornalistas (embora participasse em programas televisivos), transformando-se radicalmente e passando a usar as entrevistas como mais uma forma de anunciar a sua mensagem.
Lampedusa, a ilha italiana no Mediterrâneo que foi o destino da sua primeira viagem fora do Vaticano, em Julho de 2013, ficaria o sinal de todas as que viriam depois: ali, com um púlpito feito de restos de barcos naufragados, o Papa lamentou a “globalização da indiferença” e pediu o dom e a capacidade de chorar pelos refugiados que morrem a tentar sobreviver.
Com as 47 viagens fora de Itália que se seguiram, é possível desenhar-se um planisfério franciscano. Nesse mapa voltado do avesso, o centro está nas periferias, sejam elas geográficas ou existenciais, conforme a expressão que Francisco cunhou como horizonte do seu pontificado, dias antes de ser eleito. Ao intervir nas reuniões preparatórias do conclave, o então cardeal Bergoglio, ainda arcebispo de Buenos Aires (Argentina), afirmara: “A Igreja é chamada a sair de si mesma e ir para as periferias, não só geográficas, mas também existenciais: as periferias do mistério do pecado, da dor, da injustiça, da ignorância e desprezo relativamente à religião, do pensamento e de toda a miséria.”
Um mapa sem fronteiras
Os continentes deste mapa não mostram fronteiras nem separam povos e nações; antes são feitos da vontade de superar conflitos, do cuidado com a Criação que a toda a humanidade diz respeito, da atenção para com os mais vulneráveis (pobres, doentes, presos, idosos, sem-abrigo, vítimas de guerras, refugiados…), do diálogo entre todas as religiões. Sempre partindo de palavras-chave do seu pontificado: a misericórdia, relação de bondade que aproxima as pessoas e constitui a fonte mais intensa da justiça; e o cuidado, como manifestação da lógica de Deus que deve ser transversal a todas as áreas e pessoas.
Este planisfério de Francisco incluiu também o aviso de que “todos os muros caem”; a exigência de terra, trabalho e tecto para todos, em assembleias de movimentos populares; ou a evocação, diante do Congresso dos Estados Unidos, da memória de Luther King, defensor dos direitos civis dos negros, ou de Dorothy Day, militante católica da não-violência, jornalista e sindicalista, amiga de pobres, vadios e sem-abrigo; e a pergunta angustiada dirigida a uma União Europeia em crise profunda: “Que te sucedeu, Europa humanista, paladina dos direitos humanos, da democracia e da liberdade?”
Várias das preocupações do Papa Francisco, eleito a 13 de Março de 2013 e que morreu segunda-feira passada, dia 21, depois de três meses de graves problemas respiratórios, podem perceber-se pela geografia das viagens realizadas: dos 70 países visitados, mais de três dezenas deles vivem conflitos graves, estão no Sul do mundo ou em zonas periféricas do xadrez político internacional.
Vários situam-se no Médio Oriente e Eurásia (Iraque, Jordânia, Palestina, Israel, Turquia, Geórgia, Azerbaijão e Arménia), uma das regiões mais tensas do mundo contemporâneo. Outros são da América Latina (Brasil, Equador, Bolívia, Paraguai, México, Cuba, Colômbia, Chile, Peru, Panamá), ainda vários de África (Congo, Sudão do Sul, Quénia, Uganda, República Centro-Africana, Moçambique, Madagáscar, Maurícias) e outros tantos do Extremo Oriente asiático (Coreia do Sul, Sri Lanka, Filipinas, Myanmar, Bangladesh, Tailândia, Japão, Cazaquistão, Mongólia, Papua Nova Guiné, Timor-Leste, Singapura, Indonésia). Entre estes, há alguns muito pobres, com grandes disparidades económicas, graves índices de pobreza ou de corrupção, ou ainda vários, sobretudo na Ásia, onde a comunidade católica é residual.
Um “grito silencioso”
Na Europa, o Papa não visitou nenhuma das grandes capitais da União Europeia (UE), mas foi à cidade-mártir de Sarajevo, à capital da Albânia, um dos países mais pobres do continente, e à ilha grega de Lesbos, que recebe refugiados que a UE não quer. No quadro da Jornada Mundial da Juventude de Cracóvia (Polónia), em 2016, esteve também no campo de Auschwitz, com um “grito silencioso” perante a “abominável tragédia” do mundo. Foi às sedes do Parlamento Europeu e do Conselho da Europa, em Estrasburgo, perguntar onde estão os ideais do continente e pedir que as pessoas sejam o centro da acção política de modo a vivificar a democracia, no combate à pobreza, no acolhimento dos imigrantes e refugiados e na promoção do diálogo entre culturas. E esteve nos países bálticos e na Suécia, ou na sede do Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra (Suíça), para se encontrar com ortodoxos, protestantes e anglicanos. O diálogo mais difícil, neste campo, foi com o Patriarcado (ortodoxos) de Moscovo, por causa da invasão russa da Ucrânia.
A questão da família, que lhe mereceu muita atenção, foi outra constante das suas viagens. Foi esse o pretexto que o levou aos EUA, em Setembro de 2015, para o Encontro Mundial das Famílias, em Filadélfia, onde fez questão de prever também encontros com imigrantes, presos e pessoas sem-abrigo. E foi a mesma iniciativa que, três anos depois, o levou à Irlanda, uma Igreja também fustigada pela tragédia dos abusos sexuais.
No centro da sua mensagem sobre a família, Francisco situou a necessidade de, sem alterar a doutrina tradicional da Igreja, não colocar em primeiro lugar as regras, mas acolher quem vive situações difíceis como a separação e a impossibilidade de comungar na missa, a homossexualidade ou o aborto. Ficou famosa a frase “Quem sou eu para julgar?” quando o Papa se referiu aos homossexuais, no regresso do Rio de Janeiro, em Julho de 2013: “Se uma pessoa é gay e procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para a julgar?”
Também quando regressava da República Centro-Africana, em Novembro de 2015, questionado sobre a sida e os preservativos, Francisco não se coibiu de criticar a pergunta, para afirmar que “o problema é maior”: “a desnutrição, a exploração das pessoas, o trabalho escravo, a falta de água potável: estes são os problemas. Não estejamos a questionar-nos se se pode usar este penso ou outro para uma pequena ferida. A grande ferida é a injustiça social, a injustiça ao meio ambiente, a referida injustiça da exploração e a desnutrição. Este é o problema. Não gosto de descer a reflexões de casuística, quando as pessoas morrem por falta de água e à fome, por causa do habitat… Quando todos estiverem curados ou quando deixarem de existir estas doenças trágicas que o homem provoca quer por causa da injustiça social, quer para ganhar mais dinheiro – pense-se no tráfico das armas! –, quando não houver estes problemas, creio que se poderá fazer a pergunta.”
“Rezar uns pelos outros” e “fazer coisas juntos”
Os direitos humanos, a defesa da paz e da dignidade da vida são outra constante, que Francisco, como se percebe pela citação anterior, não separa da moral individual ou familiar. A mensagem é insistente, seja na Arménia ou em Lesbos, no Congresso dos EUA ou no Sri Lanka, ou em Jerusalém, diante de Shimon Peres: “Há que rejeitar, firmemente (…) o recurso à violência e ao terrorismo, qualquer género de discriminação por motivos raciais ou religiosos, a pretensão de impor o próprio ponto de vista em detrimento dos direitos alheios, o anti-semitismo…” Ou ainda na sede da ONU, a pedir “medidas imediatas” para cuidar do ambiente e lutar contra a exclusão e as suas “tristes consequências de tráfico de seres humanos, comércio de órgãos e tecidos humanos, exploração sexual de crianças, trabalho escravo, incluindo a prostituição, tráfico de drogas e de armas, terrorismo e crime internacional organizado”.
Em viagens como as da Suécia (Novembro 2016), República Centro-Africana (Novembro 2015), Sri Lanka e Filipinas (Janeiro 2015), Turquia (Novembro 2014) ou Terra Santa (Maio 2014), a defesa da paz, da liberdade religiosa e da aproximação pacífica entre crentes de diferentes religiões também foram colocadas no mapa.
Em várias ocasiões, Francisco fez questão de se encontrar com líderes cristãos como o Patriarca ortodoxo Bartolomeu ou o Patriarca Cirilo, da Rússia (no primeiro encontro entre um Papa e o Patriarca ortodoxo de Moscovo, em mil anos de separação e numa videoconferência depois da invasão russa da Ucrânia). “Não somos concorrentes, mas irmãos”, diz a declaração comum com Cirilo assinada em Cuba, em Fevereiro de 2016.
O primeiro Papa argentino também esteve com vários responsáveis protestantes e evangélicos, e com rabis judeus, xeques muçulmanos e monges budistas. Na Suécia, afirmou (contra o mal-estar de alguns católicos em relação a Lutero) que o iniciador da Reforma protestante só queria renovar a Igreja do seu tempo, quando rompeu com o papado; e na República Centro-Africana foi a uma mesquita muçulmana situada num bairro cercado por milícias cristãs. A todos eles, deixou uma mensagem simples: “Rezar uns pelos outros” e “fazer coisas juntos” pelos pobres, pelos imigrantes, pelos demais ou para enfrentar problemas, como disse no regresso a Roma, depois da viagem à Geórgia e ao Azerbaijão, em Outubro de 2016.
Os “souvenirs” levados para Roma
Francisco dava sempre presentes a quem o recebia: abraços sentidos, gestos de afecto ou gargalhadas espontâneas – como aquela em Filadélfia, quando viu a pequena bebé Quinn Madden vestida de Papa e disse aos pais que tinham um grande sentido de humor (outra das suas características, ele que dizioa que rezava diariamente a oração de Tomás Moro a pedir o bom humor). E, como qualquer turista, também levava souvenirs para casa: da Suécia, tomou a “loucura” de Marguerite Barankitse, do Burundi, que arriscou a vida para salvar crianças na guerra civil entre hútus e tutsis, que dura desde 1993; em Auschwitz, escreveu o pedido de que a humanidade não voltasse a repetir os erros que levaram à Shoah. Mas a melhor recordação foram os desenhos que várias crianças lhe deram em Lesbos – incluindo um, representando um barco e a bandeira do Afeganistão. “Quero guardá-lo. Que não se perca, é para a minha secretária. Isto é um símbolo.”
No Iraque, em 2021, ainda nos resquícios da pandemia de covid-19, celebrando sem tectos, entre as ruínas de Erbil, Mossul ou Qaraqosh ou assumindo a herança comum de Abraão com muçulmanos e judeus, afirmou que “a ofensa mais blasfema” a Deus “é profanar o seu nome odiando o irmão”. E dramatizava: “Hostilidade, extremismo e violência não nascem dum ânimo religioso: são traições da religião. E nós, crentes, não podemos ficar calados, quando o terrorismo abusa da religião.” Ali se encontrou com o ayatollah Ali al-Sistani – o primeiro encontro de um Papa com um líder espiritual dos xiitas – manifestando ambos o desejo de que o Iraque superasse a violência e “manifestando a esperança de que os cristãos vivam como todos os iraquianos, em segurança e na paz, e com pleno respeito por seus direitos constitucionais”.
Dois anos antes, em Abu Dhabi, Francisco assinara com o xeque Al Tayyeb, imã de Al-Azhar (Cairo), o Documento sobre a Fraternidade Humana, que estaria depois na base da encíclica Fratelli Tutti (Todos irmãos), publicada em Outubro de 2020. E ainda em Ur, Francisco diria que os descendentes de Abraão são hoje “chamados a testemunhar” a bondade de Deus e apelava a que se dê voz aos “oprimidos e descartados no planeta: muitos estão privados de pão, remédios, instrução, direitos e dignidade”. E no Curdistão iraquiano, no meio das ruínas, olhava de novo para o futuro: “Olhamos ao nosso redor e vemos (…) os sinais do poder destruidor da violência, do ódio e da guerra. (…) “Este é o momento de restaurar não só os edifícios, mas também, e em primeiro lugar, os laços que unem comunidades e famílias, jovens e idosos. O perdão é necessário por parte daqueles que sobreviveram aos ataques terroristas. Perdão: esta é uma palavra-chave.”
Este texto é uma versão adaptada e alargada de um artigo publicado na revista Up, da TAP, em Maio 2017.










