AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Um Novo Cântico

| 17/04/2025

 

De novo a reflectir sobre a imagética do Sacrifício Pascal atribuído a Jesus pelo quarto evangelho. Que significado se dá à frase de João Batista que, quando vê Jesus, exclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!”  (João 1:29)? Jesus, contrariamente ao descrito nos sinópticos, morre no dia 14 de Nisan à hora em que um cordeiro imaculado de um ano era sacrificado no Templo de Jerusalém para comemorar a véspera do Êxodo. Paulo faz igualmente um paralelo entre o cordeiro pascal e Jesus, “Pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado” (1 Coríntios 5:7). Mas em que medida, então, o Cordeiro imaculado de Deus tira o pecado do mundo?

“Mas o que terá a ver o sacrifício do cordeiro pascal com o perdão dos pecados?” Pintura: Pormenor do Retábulo A Crucificação, de Matthias Grunewald (1512–1516), Museu de Unterlinden, Colmar, Alsácia (França)

 

Ao longo da Idade Média e até aos dias de hoje, muitos tentaram responder à questão do porquê da morte de Jesus, formulando diversas teorias. Recordo aqui as mais importantes. Na mais antiga, a teoria do Resgate, Jesus oferece-se em sacrifício de expiação, para resgatar a Humanidade do pecado, da morte e do próprio Satanás. Anselmo de Cantuária entendia que a Humanidade havia ofendido a honra de Deus, a qual fora reparada e plenamente satisfeita com a morte de Jesus. Na mais recente, que se tornou a teoria dominante, a da substituição penal, que influenciou inclusive o protestantismo ocidental, Jesus morre para aplacar a ira do pai contra o pecado, a fim de que a humanidade fosse perdoada. Ambas as teorias levantam inúmeros problemas de difícil resolução, pois são incompatíveis com a natureza amorosa e misericordiosa do Pai, revelada pelo próprio Jesus.

Mas o que terá a ver o sacrifício do cordeiro pascal com o perdão dos pecados? Segundo o relato do Êxodo 12, Deus ordena o sacrifício de um animal, cordeiro ou cabrito sem defeito, cujo sangue aspergido sobre os umbrais das portas seria sinal de livramento da morte dos primogénitos hebreus aquando da Sua passagem (daqui o termo Páscoa) naquela noite na terra do Egipto, e não como oferta expiatória pelo pecado. Existe, de facto, no calendário judaico, o Dia da Expiação (Yom Kippur) no qual, de acordo com Levítico 16:1-34, o Senhor ordena que se Lhe apresente um bode adulto (não um cordeiro ou cabrito) como “rito da purificação das impurezas dos filhos de Israel, das suas impiedades, de todos os seus pecados”.

A frase de João Batista citada inicialmente relativa ao “Cordeiro de Deus” não deixa de levantar alguns problemas face ao exposto no parágrafo anterior. Mas, apesar de não se encontrarem, nas escrituras hebraicas, quaisquer referências ao “Cordeiro de Deus”, alguns exegetas fazem notar que no corpus joanino, designadamente no Livro do Apocalipse, o “Cordeiro de Deus” é claramente aquele que está associado ao Messias apocalíptico e, portanto, ao próprio Jesus. Da mesma maneira que os primogénitos hebreus, no Egipto, foram libertos da morte pela aspersão do sangue do cordeiro imaculado nas ombreiras das portas, Jesus é o cordeiro perfeito que nos resgata da escravidão e da servidão do pecado pelo derramamento do seu sangue, libertando-nos, por conseguinte, da morte eterna (Hebreus 9:11-14).

Existe uma passagem do Livro do Apocalipse em que “os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos” que estão ao redor do trono de Deus cantam um novo cântico no qual dizem: “com o teu sangue, resgataste para Deus, homens de todas as tribos, línguas, povos e nações” (Apocalipse 5:6-8). Normalmente, os que pedem resgate são pessoas criminosas que cometem sequestros com a intenção de obter dinheiro em troca da libertação dos sequestrados. Se, de acordo com uma teoria já anteriormente referida, o resgate fosse pago a Deus, isso faria d’Ele um sequestrador e nós as vítimas, algo que, na minha óptica, é inconcebível perante aquilo que dEle sabemos à luz da fé, a saber, que é um Deus de amor (1 João 4:8). Mas a canção dos quatro seres viventes e dos vinte e quatro anciãos revela-nos que o Cordeiro divino imaculado se fez vítima a fim de livrar todos os homens e os trazer de volta a Si, resgatando-os para Deus. Falta apenas saber quem serão aqui os raptores. Penso que o capítulo 20:14 do Apocalipse, no julgamento final, nos dá uma pista: são exactamente o poder da morte e do pecado, que são por fim lançados no lago do fogo eterno. Eis os verdadeiros raptores. É enfim o Cordeiro de Deus que se apresenta como a vítima perfeita e que, sendo morto, nos asperge com o Seu sangue, fazendo-nos agora mesmo participantes de uma nova criação onde a morte não existirá mais (Apocalipse 21:4).

 

Vítor Rafael é investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião e doutorando em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente

Evocação

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente novidade

A morte e a noite caíram sobre nós demasiado depressa com a notícia do falecimento de Pai Telmo. Os seus 100 anos foram um sopro veloz que não deixou ninguém indiferente e a sua dedicação à Igreja dos mais pobres uma brisa que suavizou muitas dores. [Texto de padre José Alfredo].

Identidade e missão do professor de EMRC na escola

Ensaio

Identidade e missão do professor de EMRC na escola novidade

A identidade e a missão do professor de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) na escola pode ser vista sob múltiplos pontos de vista; porém, desejo fazê-lo a partir de três palavras ou pilares que considero substanciais. Estruturo esta reflexão a partir do “habitar-se”, do “habitar com” e do “habitar o ainda não”. [Texto de Adriano Batista, intervenção no Simpósio sobre a Educação e Escola em Portugal].

As cápsulas

[Sete Partidas]

As cápsulas novidade

No radio do carro tocava um CD da Rosalía e comecei a pensar no que já me disseram sobre o meu carro, pequeno e velho, dito em várias variações. Não levo a mal. É verdade, mas tem tudo o que preciso. Abrigo do sol, do frio, da chuva e da neve. Confiável. Riscado e muitas vezes sujo por fora, mas por dentro limpo e arrumado. Um pouco na ordem como valorizo as coisas na vida. Menos ostentação, mais conteúdo. [Texto de Inês Patrício, Berlim].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.