
Visão do inferno no painel do altar da Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima. Obra da autoria do padre Marko Ivan Rupnik, que está a ser acusado de abusos. Foto © António Marujo/7Margens
A mais recente polémica católica prende-se com a promoção pelo Vaticano da arte de um padre acusado de abuso. [ver 7MARGENS] Há pouco tempo, o porta-voz principal do Vaticano disse a 350 profissionais da comunicação social que os meios de comunicação do Vaticano continuariam a utilizar a arte do padre Marko Ivan Rupnik, 69 anos, atualmente sob investigação por acusações de abuso de religiosas.
Paolo Ruffini, 67 anos, prefeito do Dicastério para a Comunicação do Vaticano, defendeu o uso oficial da arte do acusado de violação em série na reunião anual da Catholic Media Association em Atlanta. Em defesa de Rupnik e por comparação, Ruffini perguntou à sala cheia de profissionais dos media: “E Caravaggio?”
O que é que ele tem?
Michelangelo Merisi da Caravaggio era um depravado filantropo que produziu uma arte espantosa. Através de uma utilização extraordinária da luz e da escuridão, os seus quadros apresentam uma visão realista do que significa ser humano, atraindo o espectador para as emoções humanas profundas que ele retratava de forma tão realista.
Depois de ter assassinado em Roma um bandido abastado, Ranuccio Tommasoni – os dois brigaram por causa de uma dívida de jogo, ou talvez por causa de uma prostituta – Caravaggio manteve-se em fuga até à sua morte em 1610. Há quem diga que viajou para conseguir ser perdoado da sua sentença de morte.
A arte de Caravaggio influenciou pintores da era barroca e de outras épocas, de Rubens a Rembrandt.
Rupnik não é nenhum Caravaggio.
As pinturas de Caravaggio foram encomendadas para novas igrejas e palácios de cardeais influentes. Os mosaicos de Rupnik adornam umas 43 capelas ou igrejas em Roma, e existem 231 obras em todo o mundo.
São bastante invulgares. Algumas pessoas acham-nos feios.
Os mosaicos de Rupnik apresentam invariavelmente a pessoa humana com um rosto comprido e olhos grandes. Desprezando a natureza, evocam o trabalho de um aluno da escola primária apaixonado por cores vivas e purpurinas.
Para além dos desvios artísticos de Rupnik da realidade, as suas 20 ou 30 acusadoras (até agora) dizem que ele as coagiu a actos sexuais através de abusos espirituais e emocionais. As suas histórias são horríveis. Uma das acusadoras diz que ele abusou de várias mulheres da Comunidade Loyola, que fundou na sua Eslovénia natal, antes de se mudar para Roma, onde fundou o Instituto de Arte Centro Aletti no início da década de 1990.
As acusadoras de Rupnik afirmam que os abusos sexuais e espirituais foram essenciais para o seu processo criativo.
A Companhia de Jesus – a ordem jesuíta a que Rupnik aderiu em 1973 – considerou as alegações credíveis e despediu-o em 2023, quando este se recusou a respeitar as suas restrições. Prontamente se vinculou a uma diocese eslovena. Continua a produzir e a vender as suas obras.
Alguns lugares estão a considerar a possibilidade de retirar o seu trabalho, mas Ruffini, do Vaticano, não acha que seja uma boa ideia. Mesmo assim, há precedentes no acto de cobrir arte já existente. Os mosaicos encomendados em 1965 pelo Papa Paulo VI no Seminário Maior de Roma estão agora escondidos por uma parede falsa com representações de Rupnik do chão ao teto de cenas bíblicas em vermelhos, laranjas e amarelos brilhantes. Isso seria fácil de deitar abaixo.
Mas a questão não era tanto a remoção dos mosaicos de Rupnik, mas sim a continuação da promoção da sua arte nos materiais do Vaticano. O Vaticano mantém várias imagens de Rupnik nos seus sítios digitais, e Ruffini disse à assembleia de Atlanta que não tinha intenção de as retirar, afirmando que a remoção da arte não demonstraria “proximidade” com as vítimas de Rupnik.
E as outras vítimas, especialmente as mulheres, de abusos sexuais e espirituais por parte de clérigos em todo o mundo?










