Assinala-se este domingo, 17 de maio, o Dia Internacional Contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia. Em Lisboa e no Porto, duas comunidades católicas dinamizam, em parceria com o movimento Sopro, uma “conversa de portas abertas” sobre o acolhimento de pessoas LGBT+ na Igreja. Mas será que este acolhimento é já uma prática comum, ou esbarra ainda numa cultura institucional de silêncio, invisibilidade, e mesmo condenação? E o facto de este acolhimento ter sido um dos temas debatidos durante o último Sínodo, e trabalhado por um dos Grupos de Estudo, que recentemente divulgou o seu relatório, será que mudou alguma coisa?
Depois de ter publicado o testemunho de um português que foi incluído nesse mesmo relatório, o 7MARGENS quis escutar outros católicos da comunidade LGBT+ ou a ela ligados — um padre, uma mãe, e dois leigos de gerações diferentes —, e as suas respostas coincidem em muitos pontos. Uma coisa é certa para todos: o tema continua a ser tabu, e se por um lado o acolhimento se vai tornando realidade na Igreja Católica, por outro a plena inclusão eclesial continua a ser-lhes vedada.
O que falta, então, para que se cumpra o “todos, todos, todos” proclamado pelo Papa Francisco? Uma mudança profunda de paradigma – dizem – onde a escuta atenta da realidade e a aceitação da singularidade de cada pessoa se sobreponham à rigidez dos documentos oficiais da Igreja.
“Sinto que em Portugal, no que diz respeito ao acolhimento de pessoas LGBT, há um atraso de mais de 25 anos”. A afirmação é proferida, sem rodeios, pelo padre José Maria Pacheco Gonçalves, logo a abrir a conversa com o 7MARGENS. Aos 81 anos, dos quais mais de metade foram passados a acompanhar de perto pessoas e grupos LGBT+, este presbítero da diocese do Porto sabe do que fala.
E apresenta como termo de comparação o que se passa em Itália, realidade que conhece bem, por ter vivido em Roma – onde trabalhou na Rádio Vaticano – por mais de 30 anos. “Lá, este Dia Contra a Homofobia celebra-se em praticamente todas as dioceses, e nalguns casos com a participação do bispo local… E já é o 19º ano que assinalam esta data [instituída em 2005]”.
A ligação do padre José Maria a esta pastoral começou por volta de 1990, precisamente em Roma, impulsionada pelo contacto com as realidades de exclusão que muitos fiéis sofriam no seio da Igreja devido à sua orientação sexual, e que por essa altura terão estado na origem de dois casos de suicídio.
O presbítero começou então a acompanhar um grupo de católicos homossexuais chamado La Sorgente (em português, “A Fonte”), que se reunia informalmente todas as semanas, e recorda que, no final dessa década, o próprio jornal oficial da Santa Sé, o L’Osservatore Romano, publicou uma série de 14 longos artigos abordando a homossexualidade sob perspetivas bíblicas, psicológicas, sociológicas e pastorais. “Também já nessa altura, as grandes revistas católicas – dos dehonianos, dos franciscanos, dos jesuítas… – publicavam dossiês completos sobre o tema com chamadas de primeira página”, assinala.
“Já em Portugal, passado tanto tempo, o tema continua a ser tabu, tanto na Igreja como na sociedade”, lamenta o padre José Maria Pacheco Gonçalves, que hoje acompanha o movimento Sopro, nascido em Portugal nas vésperas da Jornada Mundial da Juventude 2023, com o objetivo de “fomentar um ambiente de respeito e aceitação para com pessoas LGBT+, famílias e amigos, nas comunidades cristãs católicas”.
Uma mãe levada a questionar a fé

Momento de oração num encontro do movimento Sopro, em abril deste ano. Foto: Direitos reservados
O retrato traçado pelo padre José Maria Gonçalves Pacheco encontra eco imediato na experiência de quem acompanha esta realidade a partir do papel de mãe e educadora. Leonor Sottomayor, de 50 anos, casada e mãe de cinco filhos, sentiu na própria casa – e no coração – o impacto deste tabu, quando três dos seus filhos se identificaram como homossexuais.
Depois de um processo de aceitação que assume não ter sido fácil e “nem sempre bonito de se ver”, e confrontada com o gradual afastamento dos filhos da Igreja Católica por não se reverem na sua “narrativa tradicional”, Leonor viu-se, também ela, obrigada a repensar a sua identidade crente.
“Houve um momento em que precisei de pôr em causa o lado católico da minha fé”, reconhece ao 7MARGENS. Até porque “o verbo ‘ser’ associado a cristão e a católico remete para uma identidade e não para umas coisas que fazemos ao domingo”, justifica. Nesse processo, Leonor compreendeu que as barreiras impostas pela Igreja continuam longe de responder à vida real. “A igreja institucional, na sua falta de liberdade para um caminho feito à moda de Cristo, focada na gestão de bênçãos, corre o risco de se tornar irrelevante ou de andar atrás da evolução que naturalmente se vai vivendo na realidade das vidas das pessoas”, considera Leonor Sottomayor.
Foi no movimento Sopro que esta mãe encontrou o equilíbrio para habitar o espaço eclesial com “um misto de paciência obediente e de irreverência persistente”. E descobriu na obra do teólogo François Varillon e no seu conceito do “dever moral de não acreditar” a chave para não desertar. “O meu lugar na Igreja não podia ficar vago… Seria uma enorme ingratidão. A certa altura, lembro-me de pensar que em minha casa também não é tudo como eu quero e não é por isso que me vou embora”, conta.
O Sopro chega longe, mas não tanto

Pedro Oliveira, da equipa de coordenação do Sopro, conta que o movimento não recebeu ainda o “apoio explícito” por parte do episcopado nacional. Foto: Direitos reservados
A determinação de não deixar o seu lugar vago na Igreja é partilhada por Pedro Oliveira, de 38 anos. Natural de Vila Nova de Famalicão (diocese de Braga) e radicado no Porto, este jovem jurista fez o que se pode chamar de “percurso tradicional” na sua paróquia – foi batizado, frequentou a catequese, recebeu a Primeira Comunhão e o Crisma, pertenceu aos grupos de jovens… — numa região onde a matriz católica assume contornos culturais e sociais muito marcantes.
E faz questão de sublinhar que, ao contrário de muitos percursos marcados pela dor ou pela rutura familiar e comunitária, nunca teve de enfrentar grandes crises de aceitação ou de compatibilização da sua orientação sexual com a fé.
No entanto, adverte que a ausência de hostilidade explícita não é sinónimo de um verdadeiro acolhimento. “De certo modo, a resposta da Igreja em Portugal é uma não-resposta e há muito receio de falar no assunto”, constata.
A verdadeira inclusão, para Pedro Oliveira, não passa por uma tolerância velada, mas sim pela liberdade prática e quotidiana de poder habitar as estruturas eclesiais na sua plenitude. Isso significaria, por exemplo, alguém poder estar num grupo de jovens ou noutra qualquer vivência comunitária e mencionar que tem um companheiro do mesmo género “sem sentir que vai ser censurado ou excluído por isso”, algo que ainda não acontece.
E foi precisamente por isso que também ele decidiu integrar o Sopro, movimento que ficou a conhecer durante um retiro de exercícios espirituais que fez com os jesuítas, em 2021. Hoje na equipa de coordenação deste movimento informal, Pedro Oliveira destaca que a rede foi crescendo aos poucos, tendo começado com cerca de 20 elementos e ligando atualmente cerca de duas centenas de pessoas através de encontros, celebrações e grupos de contacto cada vez mais participados.
Encarando como um sinal positivo o facto de o movimento nunca ter enfrentado bloqueios institucionais diretos por parte de responsáveis eclesiais, o coordenador reconhece no entanto que o “apoio explícito” por parte do episcopado nacional é, pelo menos para já, inexistente.
Acolhidos na base, travados na liderança

Rui Ivo e Carlos no dia do seu casamento, onde Igreja também foi presença. Foto: Direitos reservados
Esta experiência de um acolhimento que não se faz por inteiro foi vivida de forma particular por Rui Ivo, de 53 anos. Sociólogo de formação e técnico superior no Instituto Camões, também ele recorda um percurso enraizado na Igreja desde a infância em Leiria, apenas arrefecido durante os tempos de faculdade em Braga.
A sua reaproximação à Igreja Católica deu-se em 2004, a partir de uma formação que fez com os Leigos para o Desenvolvimento no Centro de Reflexão e Encontro Universitário (CREU-IL), dos jesuítas no Porto. Coincidência ou não, foi também nesse ano que começou a namorar com Carlos, com quem casou recentemente pelo civil, após 21 anos de relacionamento.
À semelhança de Pedro Oliveira, Rui Ivo considera que a integração da sua orientação sexual na caminhada de fé se fez sem ruturas dramáticas – costuma dizer que ela foi acontecendo com alguns “sobressaltos”. Um deles surgiu em 2013, quando se mudou para Lisboa: ao contactar a paróquia da sua área de residência com o intuito de se integrar na comunidade local (e tendo assumido desde logo ser homossexual), a resposta do pároco foi o encaminhamento imediato para grupos específicos de católicos LGBT que nem sequer se reuniam ali.
O “sobressalto” maior viria a dar-se no seio da Comunidade de Vida Cristã (CVX), movimento de espiritualidade inaciana que Rui integrou a partir da ligação aos jesuítas do Porto. Em 2020, ao ser nomeado para candidato à presidência da equipa nacional desta associação de leigos, assumiu com total transparência na ficha de candidatura o seu estado civil de união de facto com outro homem. Às portas do ato eleitoral, foi confrontado pelo assistente espiritual nacional sobre a sua “situação irregular” perante a doutrina da Igreja.
Após um processo sério de discernimento espiritual, Rui recusou desistir: “Se a vergonha tinha de estar em algum lado, não era em mim”, explicou ao 7MARGENS. Manteve, então, a candidatura por uma questão de transparência (e não de provocação), mas o episódio — a par de outro caso recente em que uma leiga a viver em união de facto se viu impedida de ser candidata a cargos nacionais — fez com que se confrontasse com uma política velada de silenciamento: “No fundo, o que nos estão a dizer é ‘Nós acolhemos-te, podes trabalhar connosco, mas não podes aceitar encargos de visibilidade'”. Ou seja: há limites para o acolhimento.
A Igreja alemã e os limites da abertura

O caminho sinodal alemão resultou em algumas decisões polémicas. Foto © Synodaler Weg / Maximilian von Lachne
Há países onde a busca de respostas pastorais que possibilitem um acolhimento efetivo parece ir bastante mais adiantada. É o caso da Alemanha, onde recentemente o arcebispo de Munique-Freising, cardeal Reinhard Marx, deu indicação expressa aos padres da sua arquidiocese para abençoarem as uniões de pessoas do mesmo sexo ou de divorciados numa nova união. Indicação essa que resulta do Caminho Sinodal Alemão, processo de discussão sobre a Igreja iniciado em 2019, quando Marx era presidente da Conferência Episcopal Alemã, e que mesmo assim gerou forte controvérsia entre a hierarquia católica do país.
Quando questionado por uma jornalista sobre a medida do cardeal alemão, o Papa Leão XIV foi taxativo ao rejeitar estas práticas, sublinhando que a Santa Sé não concorda com qualquer “bênção formalizada” para casais em situações irregulares. O Papa explicou que, embora o princípio de acolhimento de Francisco — o famoso “todos, todos, todos” proferido em Lisboa durante a Jornada Mundial da Juventude 2023 — deva ser mantido através de bênçãos gerais (como as dadas pelos padres a todos os fiéis no final de uma missa), avançar para cerimónias estruturadas pode causar “mais desunião do que unidade” na Igreja. Além disso, “a unidade não deve girar em torno de questões sexuais”, acrescentou, defendendo que existem prioridades morais mais urgentes, como a justiça e a liberdade religiosa.
Alinhado com a visão de que a obsessão eclesial com a moral sexual obscurece debates urgentes sobre a imoralidade da guerra ou a crise dos migrantes, Rui Ivo relativiza, por outro lado, o peso das decisões do topo da hierarquia católica. “A Igreja somos todos nós, e não deriva só daquilo que o Papa diz. Eu, por exemplo, vou ao meu grupo de CVX e sinto-me verdadeiramente acolhido ali. Aquilo, para mim, é a Igreja”, enfatiza.
Rui vai mais longe e partilha aquilo que viveu no dia em que se casou pelo civil com Carlos: “O nosso casamento começou com uma bênção de um padre católico. Ele estava lá e abençoou as nossas
alianças, depois houve uma invocação ao meu pai [que já faleceu], e depois foi a cerimónia civil. Mais tarde, antes de começarmos a refeição, esse mesmo padre também abençoou a mesa e fez uma pequena homilia. Por isso, se me perguntar se a Igreja esteve presente no meu casamento, eu posso dizer que não, que não me casei pela Igreja, nem me casei numa igreja ou capela, mas também posso dizer que sim, que a Igreja esteve presente, porque estava lá esse padre, estavam amigos do Sopro, da CVX… A Igreja estava lá porque a Igreja somos nós.”
Um texto “libertador”

O padre José Maria Pacheco acompanha a comunidade LGBT desde a década de 1990. Foto: Direitos reservados
Para Rui Ivo, estes gestos concretos de acolhimento e abertura que já vão surgindo, mesmo em Portugal, denotam que o Espírito Santo encontra sempre caminhos de liberdade. E prova disso mesmo é o recém-divulgado relatório do Grupo de Estudo criado pelo Papa Francisco, no âmbito do processo sinodal, para aprofundar “critérios teológicos e metodologias sinodais para o discernimento compartilhado de questões doutrinárias, pastorais e éticas controversas”. Relatório este que parece propor uma verdadeira mudança de paradigma: escutar as bases e enfrentar a complexidade real sem rigidezes ideológicas.
Para o padre José Maria Pacheco Gonçalves, o texto – que dá destaque ao testemunho de dois católicos LGBT (um deles português) – é profundamente “libertador” porque quebra o bloqueio assente em fórmulas do Catecismo que teimam em classificar os atos homossexuais como “intrinsecamente desordenados”. Pedro Oliveira e Rui Ivo partilham do mesmo entusiasmo. O primeiro considera “refrescante” a tentativa eclesial de sair do atual impasse teológico através da valorização direta da experiência de fé e de vida dos crentes. O segundo destaca a substituição do termo “controversas” por “emergentes” e o facto de o texto valorizar a “singularidade” de cada batizado. “Gosto muito da palavra ‘singular’. O documento fala muito nisso: de ouvir as pessoas, de conhecer a realidade concreta destas pessoas, e de não continuar a falar no abstrato”, enfatiza.
A grande viragem metodológica do relatório utiliza como chave de leitura os Atos dos Apóstolos (capítulos 10 a 15), relembrando o Conselho de Jerusalém em que se decidiu que os cristãos não-judeus (gentios) não precisavam de ser circuncidados nem de seguir toda a Lei de Moisés para serem salvos, e a visão de Pedro, em que lhe é dito que não chame impuro àquilo que Deus criou.
Uma vez mais, resta saber em que se traduzirá, na prática, este relatório, e em particular o que fará o Papa Leão XIV a partir dele. Para Pedro Oliveira, “não há de haver nenhuma grande alteração ao nível da doutrina a curto prazo, mas o caminho está aberto para as comunidades irem experimentando e discernindo o que vai funcionando”.
O padre José Maria concorda e deixa até uma sugestão para que esse caminho se faça em Portugal: “se os bispos dissessem, a nível diocesano que haja alguns encontros de aprofundamento e reflexão sobre o que aqui nos é proposto, isso seria ótimo e penso que é fácil que aconteça. É uma questão que merece. E isso, só por si, já era um bom resultado”.
Leonor Sottomayor também não tem dúvidas de que a “conversação no Espírito” é o “caminho cristão para a unidade da Igreja”: uma atitude “em contradição com a abordagem polarizada do mundo que observamos maioritariamente nos ciclos políticos, desportivos ou empresariais, em que o que interessa é marcar golos, ganhar votos ou gerar lucro” e da qual “a Igreja tem de se demarcar”.
No final, resume, “a Igreja tem de ser o reflexo de Cristo, senão perde o seu propósito”, mesmo que isso implique a “rutura com categorias estanques que não abarcam a realidade e excluem formas de amor verdadeiro”, pois “o mesmo será dizer que excluem Deus ou pelo menos condicionam-no, como se fosse possível”.
Todos convergem no princípio de que “a realidade é sempre mais importante do que a ideia”, um dos quatro eixos fundamentais estabelecidos pelo Papa Francisco na exortação apostólica Evangelii Gaudium (2013).
E a realidade, já neste fim de semana, é a de assinalar, também em Igreja, o Dia Internacional Contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia. Na tarde deste sábado, 16 de maio, a partir das 15h00, haverá um momento de conversa e apresentação de testemunhos na Capela de Santa Marta, em Lisboa, seguido de missa às 17h00. No domingo, a iniciativa repete-se às 17h30 na Igreja dos Redentoristas, no Porto, com missa às 21h30 nos Clérigos.


Além destas iniciativas pontuais, o movimento Sopro dinamiza celebrações eucarísticas regulares abertas a todos, que têm lugar no primeiro sábado de cada mês na Capela de Santa Marta, em Lisboa, ao final da tarde, e no primeiro domingo de cada mês na Igreja dos Clérigos, no Porto, à noite.
Assim, suavemente, o “sopro” da mudança vai-se fazendo sentir e “sussurra palavras de amor no coração de cada um”, dizia o Papa Francisco no final do Sínodo. Para que, um dia, as portas se abram definitivamente, os atrasos se recuperem, e todos possam entrar. “Todos! Todos! Todos!”










