O período da Quaresma e o tempo pascal constituem sempre épocas de especial reflexão para os cristãos, perante um Jesus de Nazaré que se dirige conscientemente para a morte no patíbulo.
Alguém sem fé defendeu que os cristãos são demasiado focados na morte de Cristo, em vão, e que deveriam concentrar-se antes na sua vida, essa sim, cheia de significado. Será mesmo assim? Então o que faz a diferença? O que nos salva? A morte ou a vida de Jesus Cristo?
De facto os cristãos valorizam muito a morte sacrificial do Cordeiro de Deus e menosprezam um pouco a relevância da sua vida. Porém, a verdade é que Se o Cordeiro de Deus não tivesse morrido e ressuscitado nunca teria vencido o poder da morte nem as forças das trevas. Como bem diz o apóstolo Paulo: “Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?” (I Coríntios 15:55). Foi justamente por ter descido ao reino dos mortos que Jesus venceu a própria morte garantindo assim a vida eterna para todo o que crê. Por isso afirmou com toda a propriedade: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (João 11:25).
E se o Cordeiro não tivesse morrido e ressuscitado não seria glorificado nem estaria na eternidade a celebrar a vitória de Deus e a interceder por aqueles que são seus: “Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e o que também intercede por nós” (Romanos 8:31-34).

“Ele não ficou retido no túmulo, ascendeu ao céu depois de ser visto por uma multidão de testemunhas.” Foto: Túmulo Vazio © Vaticano News
Ele não ficou retido no túmulo, ascendeu ao céu depois de ser visto por uma multidão de testemunhas.
Mas se Jesus não tivesse encarnado, vindo habitar entre os homens, nunca teríamos uma revelação perfeita do Pai. E também não disporíamos de um modelo de vida que agradasse a Deus, e mais, não saberíamos como viver de forma que Deus se agradasse de nós: “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo. Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo” (Efésios 4:11-13).
Morte e vida não são coisas opostas. A morte é apenas o outro lado da vida, tal como as faces duma moeda. De um lado a dor, do outro o prazer, de um lado a tristeza, do outro a alegria, de um lado a noite, do outro o dia, de um lado a morte, do outro a vida, sendo que em todos os momentos Deus está connosco: “Porque nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, ou vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Romanos 14:7,8).
A Eucaristia ou Ceia do Senhor (conforme as tradições) que a Igreja celebra é um ritual que parte da morte para a vida, isto é, para a ressurreição de Cristo. Então ambas são importantes, a vida e a morte do Salvador.
Portanto, não é a vida de Jesus que nos salva, em oposição à morte, mas é tudo. Ou seja, é o milagre da Encarnação, do Deus que vem habitar entre nós, é a sua vida de virtude e Graça, é a sua morte sacrificial e substituinte, e é a sua ressurreição. Por que celebram a Quaresma e a Páscoa é que os cristãos podem anunciar o Cristo Ressuscitado.
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.









