Como criar uma história com a leveza de um abraço? Foi a pergunta que o padre Custódio Langane se fez quando pensou em escrever um livro sobre aquela que tem sido a sua experiência como capelão no IPO de Lisboa. Um lugar onde, segundo ele, se aprende que “a vida não se mede apenas em anos, em produtividade, em resultados ou aparência, mas em relações, presença, reconciliação, em amor dado e recebido”.
Acabou por escrever várias histórias, que foram agora publicadas em livro: todas elas reais, sobre algumas das crianças que conheceu e acompanhou na Pediatria do hospital e pelas quais se diz transformado. Às meninas deu nomes de flores, aos rapazes nomes inspirados em animais dos desenhos animados. E a si próprio deu o nome de Esperança, por querer ser aquele que “mesmo nos momentos mais difíceis, lembra que a vida pode ser bonita. Que há sempre uma luz, mesmo quando tudo parece escuro.”
Deu ao livro o título Da fragilidade à esperança – Pausas de luz na Pediatria do IPO Lisboa. Como forma de assinalar o Dia Mundial da Criança, e com a autorização do autor, reproduzimos abaixo uma dessas histórias.

O padre Custódio Langane durante a apresentação do livro, no passado dia 12 de maio, no IPO de Lisboa. Foto © IPO Lisboa
Magnólia
“Diria que não estou zangada.
Que tive medo, que ainda tenho…
Mas que percebi que
nunca estive sozinha…”
Era fim de tarde quando Esperança deslizou suavemente pelo corredor. O sol tingia o céu de um tom alaranjado, refletindo-se nos vidros da pediatria e espalhando cores quentes pelo chão. O ambiente era sereno, mas havia um peso no ar. Um peso de despedida.
Ao aproximar-se do quarto, Esperança viu um homem encostado à parede, com os braços cruzados e o olhar perdido. Era o pai de Magnólia. Ele suspirou ao notar a luz suave da Esperança e, com um tom hesitante, disse:
— Não somos crentes, a minha filha andou na catequese, mas desistiu.
Não sei se adianta a Esperança falar com ela.
Esperança não recuou. Apenas sorriu com gentileza e perguntou:
— Posso entrar?
O pai assentiu, embora sem convicção. Ao abrir a porta, encontrou Magnólia deitada, com um olhar cansado, e um sorriso leve ao vê-la entrar.
— O meu pai deixou-te entrar? — disse, com uma sobrancelha arqueada, como se estivesse surpreendida.
— Sim — respondi, sorrindo.
Ela riu baixinho, um riso sincero e irónico.
— O meu pai não é dessas coisas de igreja e padres, mas a minha avó acredita. Ela reza muito por mim, foi a Fátima e trouxe-me uma imagem.
A cada visita, fui criando laços com Magnólia. Falávamos de muitas coisas e, aos poucos, ela começou a confiar em mim. Certa vez, percebi que ela precisava de algo mais que palavras soltas sobre esperança. Precisava de uma história que lhe falasse ao coração.
Foi então que comecei a ler-lhe “Óscar e a Senhora Cor-de-Rosa”. Cada capítulo era uma semente plantada na sua alma cansada, e aos poucos, a história foi caminho para a transformação de Magnólia.
— Magnólia, queres saber sobre um menino que também viveu num hospital? — perguntei.
Ela disse que sim com a cabeça, curiosa.
— Ele chamava-se Óscar e sabia que o seu tempo de vida era curto. Uma senhora muito especial, a Senhora Cor-de-Rosa, ensinou-lhe um segredo: se cada dia fosse vivido como se valesse dez anos, ele poderia viver uma vida longa, mesmo que os médicos dissessem o contrário.
Magnólia sorriu levemente. Havia um brilho nos seus olhos, como se algo nela estivesse a despertar.
— Então, ele viveu até que idade? — perguntou.
— Até aos cem anos! — respondi com entusiasmo.
Ela riu-se, balançando a cabeça.
— Que ideia maluca.
— Maluca, mas bonita — repliquei. — A Senhora Cor-de-Rosa ajudou-o a ver que, cada dia, era uma oportunidade de viver um pouco mais, de amar, de agradecer, de sentir-se pleno. E sabes o que ele fez?
Magnólia olhou-me, interessada.
— O quê?
— Ele começou a escrever cartas para Deus. No início, estava zangado, cheio de perguntas. Com o tempo, foi percebendo que Deus não precisava de lhe dar respostas. Precisava apenas de estar ali, de o escutar.
Um silêncio pairou no ar. Magnólia desviou o olhar e ficou pensativa.
— Achas que Ele me escuta? — murmurou.
— Acho que Ele sempre te escutou, mesmo quando pensavas que Ele não estava ali — respondi com sinceridade.
Magnólia respirou fundo. Pela primeira vez, notei um alívio no seu rosto. Algo nela começava a mudar.
Nos dias seguintes, continuámos a leitura. Magnólia começou a sorrir mais, a refletir sobre as palavras do pequeno Óscar. Quando chegámos ao fim da história, ela disse-me:
— Sabes, acho que também quero escrever uma carta para Deus.
— O que lhe dirias? — perguntei.
Ela fechou os olhos por um instante, como se estivesse a organizar os pensamentos. Então, respondeu:
— Diria que não estou zangada. Que tive medo, que ainda tenho, mas que percebi que nunca estive sozinha. E agradeceria pela minha avó, pelos meus pais, por ti e até pelo meu pai ter deixado entrar a Esperança.
Sorrimos juntos. Ela estava em paz.
Dias depois, quando Magnólia fechou os olhos para sempre, fui até ao seu quarto uma última vez. Ao lado dela, havia um pequeno envelope. Dentro, uma carta sem destinatário.
— Querido Deus, obrigada. Estou pronta.
O seu rosto estava sereno, o seu sorriso leve. Ela partiu sem medo, porque encontrou a paz que procurava.
Esperança brilhou suavemente ao redor de Magnólia, sabendo que a luz daquela menina continuaria viva nos corações que tocou. Guardou essa centelha dentro de si e seguiu viagem, levando consigo a certeza: a beleza da Magnólia não morre, o seu esplendor rebenta, mesmo depois da queda das folhas. É um novo começo.

Da fragilidade à esperança – Pausas de luz na Pediatria do IPO Lisboa
Autor: Pe. Manuel Custódio Langane
Ilustrações: Luz Lady Espinel Montaño
Distribuição: Paulus Editora
Maio de 2026, 155 páginas, €10,60










