Profundamente diferente dos evangelhos sinópticos, o evangelho de João expõe uma narrativa altamente teológica e simbólica, com várias passagens difíceis de interpretar, mas que, em simultâneo, nos desafiam e convidam a novas leituras. A este respeito é emblemática a passagem que faz parte do diálogo de Jesus com Nicodemos, a saber: “o vento sopra onde quer e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para aonde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito” (João 3:8). Nesse sentido, a Palavra divina, qual fonte de águas-vivas, pode igualmente abrir-nos novos caminhos através de leituras e perspectivas sempre renovadas.
Relia há uns tempos uma parte do final da perícope do diálogo entre Jesus e a mulher samaritana acerca do verdadeiro local de adoração. Os samaritanos competiam com os judeus relativamente ao verdadeiro local de culto, que os primeiros situavam no monte Garizim, onde outrora existira um templo, e os segundos, em Jerusalém, local do Segundo Templo, que seria destruído no ano 70 pelo general romano Tito. Entre os povos orientais, a convicção antiga de que uma divindade deveria ser adorada num determinado local, continua ainda a ser válida nos dias de hoje. O Templo de Jerusalém foi durante séculos o centro nevrálgico do culto em Israel, principalmente a partir das famosas reformas do Rei Josias. Jesus, enquanto verdadeiro profeta e predizendo certamente a destruição do Templo de Jerusalém, profere então, no episódio em questão, uma das frases mais revolucionárias a respeito da verdadeira adoração:
Jesus declarou-lhe: «Mulher, acredita em mim: chegou a hora em que, nem neste monte, nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. Mas chega a hora – e é já – em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são assim os adoradores que o Pai pretende. Deus é espírito; por isso, os que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade.» (João 4:19-24)

Cristo e a mulher samaritana. Rembrandt Harmenszoon van Rijn, 1606-1669. National Gallery of Art, Washington, EUA.
Os compositores do quarto evangelho combinam intencionalmente dois tempos, o do Jesus terreno (para quem a “hora” ainda estava no futuro) e o do Jesus ressuscitado, pós-pascoal (para quem a hora já tinha chegado). Esta última hora não podia chegar durante a vida terrena de Jesus, pois o Espírito Santo ainda não tinha sido dado, porque Jesus ainda não fora glorificado (João 7:39). Só depois dessa glorificação e da ressurreição, Jesus sopraria o Espírito Santo sobre os seus discípulos (João 20:22), tornando-os verdadeiramente capazes de adorar o Pai em espírito e em verdade.
Este tema da verdadeira adoração não é novo, uma vez que já aparecera também nas escrituras hebraicas, principalmente através das vozes proféticas: Deus estava cansado dos procedimentos cultuais praticados no Templo, preferindo uma verdadeira ortopraxia manifestada essencialmente através do amor e cuidado ao próximo, principalmente dos mais fracos e desfavorecidos.
Talvez o que muitas vezes se tenha esquecido é que a Igreja, instituída por Jesus, teve início naquele dia de Pentecostes. Este povo constituído por novos adoradores e que partilha a experiência do Espírito, sendo constantemente renovado e transformado pelo Senhor que dá a vida, é chamado igualmente a fazer parte de uma nova Igreja onde o Espírito tem um papel crucial. A Igreja deve também ter sempre presente a sua verdadeira identidade enquanto comunidade de pessoas habitada pelo Espírito, constitutiva de uma verdadeira família de Deus e que partilha entre si a vida comum do Espírito.
Outra característica de uma Igreja verdadeiramente orientada pelo Espírito é a sua vocação missionária enquanto agente do Reino de Deus. O dia de Pentecostes foi um evento intrinsecamente missionário. Naquele dia, homens e mulheres, verdadeiros adoradores em espírito e verdade, tornaram-se autênticos agentes do Reino, manifestando antecipadamente, através do Espírito, o Basileia tou theou, ou seja, o governo de Deus que Jesus tão ardentemente desejava que fosse uma realidade imediata aqui na terra (Mateus 6:10). A profecia de Joel descreve tão bem essa nova comunidade de Deus aberta ao Espírito e ao mundo:
“Depois disto, derramarei o meu espírito sobre toda a humanidade. Os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos anciãos terão sonhos e os vossos jovens terão visões. Também sobre servos e servas, naqueles dias, derramarei o meu espírito.” (Joel 3:1-2)
Num mundo tão fragilizado e destituído de esperança e paz, nunca foi tão pertinente a necessidade de que cada membro do Corpo do Senhor tome para si essa proclamação e compromisso que Jesus fez na sinagoga de Nazaré: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor.» (Lucas 4:18-19). Sermos agentes do Reino, curando os fracos, libertando os oprimidos, promovendo a justiça, é esta a comunidade que Jesus idealiza e deseja para cada um dos seus discípulos, verdadeiros adoradores através do Seu Espírito para glória do Seu e nosso Pai.










