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Vicente Berenguer (recorte), missionário. Foto: Direitos reservados.
Vicente Berenguer (recorte), missionário em Moçambique, morreu a 21 de outubro de 2025. Foto: Direitos reservados.

Evocação

Vicente Berenguer, um genuíno missionário no cerne da revolução moçambicana

| 01/12/2025

Dada a largueza moçambicana, nunca vivi perto do padre Vicente Berenguer (que morreu em 21 de outubro último), mas os momentos em que nos encontrávamos revelavam bem como vivíamos numa total sintonia nas nossas posições existenciais, tanto sociopolíticas como pastorais. (Uma entrevista de vida pode ser lida na página da Deutsche Welle.)

Eu, com a minha mania de corrigir asneiras e disparates, em cima da hora, fui expulso logo no alvorecer da independência de Moçambique, quatro meses depois da data, em outubro de 1975. Intervim no contexto das nacionalizações (24 de julho de 1975), abordando a única pessoa que, embora sem responsabilidades oficiais governativas, encontrei no Governo Provincial, a camarada Lina Magaia, bem-trajada de guerrilheira, que não tinha sido durante a luta armada. Ela entendeu que as minhas observações aos procedimentos anacrónicos dos camaradas jovens agentes das nacionalizações, vindos de Nachingwea (centro militar da Frelimo na Tanzânia) eram inoportunas e reaccionárias. Atreveu-se a dizer uns disparates a respeito do nosso bispo Manuel Vieira Pinto, o que me levou a manifestar-lhe a minha indignação e abandonar o encontro sem mais delongas. Em meados de outubro, ouviria, na rádio, a notícia da minha expulsão. Viríamos a reencontrar-nos nos anos 1996-98, quando um amigo comum a trouxe à Rádio Encontro, cuja fundação foi por mim liderada.

O padre Vicente não chegou a ser expulso, nem mesmo preso, pelo Governo colonial, porque se antecipou a sair. Carlos Adrião Rodrigues, um dos advogados de defesa dos Padres do Macúti (Joaquim Teles Sampaio e Fernando Marques Mendes, presos pela PIDE, a polícia política da ditadura), alertou o padre Miguel Buendia, seu confrade, sobre a informação constante no processo de julgamento destes padres (janeiro de 1973), que, de facto, se preparava a sua detenção, já que o exército tinha provas de o padre Vicente ter pernoitado numa base da Frelimo.

E de facto, a história dessa pernoita, segundo me reconfirma agora o Miguel Buendia, era verdade. Acontecera que vários jovens tinham sido levados da Missão de Changara, de que o padre Vicente era o pároco, pelos guerrilheiros da Frelimo. Vicente Berenguer, porventura por querer dar explicações aos familiares que lhe tinham confiado os seus filhos para estudarem na Missão; mas, também, por entender dever advertir os guerrilheiros que aquela não era a maneira mais acertada para fazer as coisas, dirigiu-se, de facto, à base da Frelimo da região e ali pernoitou.

Com esta advertência do seu confrade, ele antecipou-se e saiu de Moçambique em fevereiro de 1973: ele tinha presenciado os sinais do massacre de Wiriamu, quando, por acaso, viajava, de machibombo (autocarro), no dia 16 de dezembro anterior, de Changara para Tete. Entretanto, o padre Miguel Buendia, que o alertara da previsão da sua detenção, foi, esse sim, expulso de Moçambique em meados do mesmo mês de fevereiro.

Um regresso

A proclamação da independência de Moçambique, em 25 de junho de 1975. Foto: Direitos reservados.

A proclamação da independência de Moçambique, em 25 de junho de 1975. Foto: Direitos reservados.

Graças ao 25 de Abril, ambos, Vicente Berenguer e Miguel Buendia, regressariam a Moçambique, ainda em 1974, durante o Governo de Transição. O mesmo aconteceria com o bispo Manuel Vieira Pinto (este em janeiro de 1975).

Mas o insólito é que o padre Vicente esteve em vias de expulsão, já depois da independência. Porquê? Uma vez regressados, como todos os missionários que permanecemos no país, inserimo-nos de alma e coração nos trabalhos da reconstrução nacional liderada pela revolução moçambicana conduzida pela Frelimo de Samora Machel.

Apesar de todas estas adversidades, o percurso do padre Vicente Berenguer destaca-se pela sua resiliência e pelo compromisso inabalável com a população moçambicana. A sua atuação, marcada pela coragem de enfrentar situações de risco e pelo desejo de justiça social, inspirou muitos a manterem a esperança em tempos de grandes mudanças políticas e sociais. O seu exemplo revela como a presença missionária, mesmo sob ameaça, pode ser determinante para apoiar e transformar comunidades.

Em 25 de junho de 1975, com a proclamação da independência, deu-se um intenso êxodo dos colonos portugueses, deixando imensos lugares vazios em todas as áreas da vida pública. Nós, missionários e missionárias que vivíamos a esperança e o sonho da liberdade, arriscámos todas as nossas vidas e fomo-nos inserindo sobretudo nas áreas da educação e da saúde, colmatando tantas vagas de portugueses que tinham abandonado o país.

Todos éramos poucos para tanto trabalho. Mas nós estávamos cientes de que era incontornável o pagamento da fatura colonial, período em que pessoas da nossa Igreja Católica se não colocara claramente ao lado do povo moçambicano colonizado e, não poucas vezes, ofendido nos seus direitos. Neste contexto, assistimos, nos anos 1975-1976, ao êxodo de 900 irmãs e 300 padres.

O padre Vicente, claramente identificado com a causa da independência nacional pela qual tanto arriscara a vida, também aceitou, na exiguidade de quadros competentes, ser director de uma Escola Técnica de Tete. Mas, pelos vistos, ele, como eu, teve comportamentos críticos que não terão agradado ao governador de Tete de então, Félix Amane Muzezela, que tramou a sua expulsão.

Uma prisão

O padre Vicente identificava-se claramente com a causa da independência nacional pela qual tanto arriscara a vida. Foto: Direitos reservados (captura).

O padre Vicente identificava-se claramente com a causa da independência nacional pela qual tanto arriscara a vida. Foto: Direitos reservados (captura).

Aqui prefiro transcrever o que Miguel Buendia, hoje reformado de professor da Universidade Eduardo Mondlane, e continuando a viver em Moçambique, me relatou:

“Fui eu que, por acaso, fui ao aeroporto de Maputo para dar boleia à mãe de um colega no MEC [Ministério da Educação e Cultura] que vinha do Songo (Tete/Cahora Bassa). Aí encontrei o Vicente. Quando lhe cumprimento, me fala, em baixa voz, que estava preso. Como era brincalhão, não acreditei na sua fala. Um senhor que vinha de Tete se aproximou de mim e me disse que Vicente já teria dormido na noite anterior na prisão em Tete. Logo a seguir, José Maria e eu entrámos em contacto com Sérgio Vieira e lhe informámos da situação de Vicente. Depois de algumas reticências de Sérgio, o facto se confirma e chega até os ouvidos de Samora, que não teria gostado do assunto. Aquilo foi uma tramoia do então governador de Tete, em 1980 ou 81 (não tenho certeza das datas), e o vice-ministro do Interior Raposo Pereira [figura sinistra, e vira-casacas, que já conhecíamos do tempo colonial e fez parte do grupo de colonos que fizeram a arruaça contra o bispo Manuel Vieira Pinto no dia da sua expulsão, no Domingo de Páscoa, 14 de abril de 1974].

Permanecer no Maputo não foi uma opção do Vicente. Graça Machel conversou com ele e lhe fez ver que se regressasse a Tete seria muito complicado ou difícil encarar o governador. Na altura, Vicente era diretor da Escola Técnica de Tete e ao mesmo tempo encarregado da Missão da Temba, subúrbio da cidade de Tete. Penso que essa decisão veio da direcção da Frelimo. Assim, Vicente esteve um tempo a trabalhar no MEC [de que era ministra Graça Machel] como responsável da Produção Escolar. Havia nessa altura a preocupação de resgatar e organizar a produção desenvolvida em algumas ex-missões católicas (na sequência das nacionalizações, designadas por Centros Educacionais], como por exemplo a de Jékua, em Manica. Depois de uns dois anos pediu para sair do MEC para se dedicar à pastoral: primeiro, na paróquia de Santo António de Malhangalene, Maputo; depois nas Mahotas e mais tarde e, finalmente, em Ressano Garcia”.

 

É no exercício dessas funções de responsável da produção no Ministério da Educação e Cultura que o padre Vicente viabiliza a entrada em Moçambique dos primeiros padres desde a proclamação da independência, não como missionários, mas como agentes de produção; embora, como é evidente, com a total anuência da ministra Graça Machel. Tratou-se de frei Fortunato, capuchinho como o inesquecível frei Prosperino, e do padre Emílio Bertulleti, dehoniano, ambos com a mesma função de relançamento da produção nos agora chamados Centros Educacionais (novo nome dado às missões nacionalizadas).

Uma vítima

Samora Machel, à direita na foto, durante a Guerra da Independência de Moçambique (chamada de Guerra Colonial, em Portugal). Foto: Autor desconhecido, CC BY 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by/4.0>, através da wiki Wikimedia Commons

Foi Samora Machel, à direita na foto, quem autorizou regresso de missionários. Na imagem, durante a Guerra da Independência de Moçambique (chamada de Guerra Colonial, em Portugal). Foto: autor desconhecido, CC BY 4.0, através da wiki Wikimedia Commons.

O padre Prosperino merece aqui ser realçado. Com efeito, também ele foi vítima das politiquices do governador da Zambézia, Osvaldo Tazama. Juntamente com outro, também dehoniano, Domenico, acabaria mesmo por ser expulso em Janeiro de 1979 e, tal como eu tinha regressado em dezembro de 1978, também ele iria regressar, por autorização expressa de Samora Machel, no mesmo ano de 1979.

Depois do seu regresso, também Prosperino se ficou pelo Maputo, onde foi a alma das Cooperativas Agrícolas das Zonas Verdes do Maputo com uma espantosa organização produtiva. Infelizmente, com a sua morte, as Zonas Verdes entraram em degradação acelerada porque a pessoa que mais acreditava naquele deslumbrante projecto, Celina Cossa, se deixou aliciar e, em vez de prosseguir tão relevante e esperançoso projecto, acedeu a ser deputada pelo Partido Frelimo. Foi o descalabro das esperançosas Zonas Verdes do Maputo.

Curiosamente, o primeiro missionário a entrar, como tal, em Moçambique, depois da independência do país, não será um padre, mas um jovem leigo voluntário português, Isaías de Azevedo. Veio para a Diocese de Nampula onde se manteve, de Junho de 1982 a 1998 – 17 anos. Tendo crescido nos movimentos de solidariedade de Portugal e na JOC (Juventude Operária Católica) da zona de Santa Maria da Feira e Lourosa, foi protagonista duma experiência verdadeiramente original e criadora, mostrando as potencialidades pastorais de leigos numa Igreja verdadeiramente sinodal, participativa. Pode ler-se o seu testemunho no livro que publicámos em 2012, Uma Igreja de Todos e de Alguém (Paulinas Editora), onde consta o seu testemunho.

Resta-me render a minha sentida homenagem ao paciente padre Vicente que, na sua persistente dedicação, foi um claro testemunho de Jesus Cristo na maior diversidade das situações sociais e políticas por que passou. Também eclesiais: justamente nestes dias, um velho missionário comboniano, que também suportou a expulsão com os seus confrades e do bispo Manuel Vieira Pinto na Páscoa de 1974, disse-me que teve de defender Vicente Berenguer perante o bispo de Tete já depois da independência – o primeiro bispo moçambicano de Tete, Paulo Mandlate. Não consegui mais detalhes, mas não é difícil imaginar em que poderiam ter consistido as suas divergências de homem livre de grilhões institucionais. Seria cordialmente acolhido pelo arcebispo do Maputo, cardeal Alexandre dos Santos. Mas o Padre Vicente, pelo menos comigo, falou pouco desses percalços tanto na política como na Igreja. Teria razões de sobra para criticar tanto os políticos da Frelimo (como os que até quiseram expulsá-lo), como alguns pastores católicos.

Um filho adoptivo

Vicente Berenguer, como muitos dos padres missionários, era profundamente moçambicano, disse Nélson Saúte. Foto: Direitos reservados (captura).

Vicente Berenguer, como muitos dos padres missionários, era profundamente moçambicano, disse Nelson Saúte. Foto: Direitos reservados (captura).

Vicente Berenguer referiu a sua persistente e convicta militância pragmática, tanto na política como na pastoral, e fez, realizou obra, como regista o Nelson Saúte no gratíssimo texto que sobre ele escreveu, sobretudo na construção de escolas. Mas o Nelson diz muito mais do que isso. Assim:

“Quando, há oito anos, o Padre Vicente retornou às origens, disse melancolicamente: ‘Eu sou filho adoptivo, mas gostaria mais de ser filho adoptivo aqui em Moçambique do que em Valência.’ Isto disse-me o velho Zoni, em Changara, perante os homens que se haviam calado na aldeia, ao ver chegar o padre: ‘Mas por que fechamos a boca se o padre Vicente é branco, mas o coração dele é negro como o nosso?’

Eu acho que o velho Zoni quis dizer que Vicente Berenguer, como muitos dos padres missionários, era profundamente moçambicano. Somos esquecidos e ingratos e outorgamos a tantos a divisa da nacionalidade e as insígnias da pátria e somos incapazes de ser justos com muitos dos que arriscaram a vida para que fôssemos livres. E até somos capazes de destratá-los, como agora a UEM [Universidade Eduardo Mondlane] faz com Miguel Buendia. O que estão a fazer ao Miguel é inqualificável. Mas também a omissão em relação a estes intrépidos padres que se interpuseram entre a selvática actuação das forças policiais do regime colonial e as populações, ou foram defensores e protetores dos combatentes.

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Nelson Saúte: "Das pessoas, das populações, dos alunos, o padre Vicente Berenguer terá sempre a gratidão, o respeito, a amizade e o reconhecimento pelo seu trabalho notável e abnegado." Foto: Direitos reservados.

Nelson Saúte: “Das pessoas, das populações, dos alunos, o padre Vicente Berenguer terá sempre a gratidão, o respeito, a amizade e o reconhecimento pelo seu trabalho notável e abnegado.” Foto: Direitos reservados.

[/speaker-mute]Moçambique é um país onde se cultiva a omissão e o opróbrio. Faz parte da nossa congénita ingratidão. A quem devíamos ser gratos votamos ao silêncio e ao descaso. Mas isso são as autoridades. Das pessoas, das populações, dos alunos, o padre Vicente Berenguer terá sempre a gratidão, o respeito, a amizade e o reconhecimento pelo seu trabalho notável e abnegado, pela sua missão ousada e pelo exemplo de cidadania e acção social. (…)

Quando hoje soube do seu epílogo, lembrei-me do meu amigo Miguel Buendia e imaginei a dor profunda que o atingia. Mandei-lhe um abraço sentido. ‘Muito obrigado, irmão. Abraço.’, respondeu ele. E fiquei em silêncio a pensar na nossa incapacidade de prezar os nossos melhores. Berenguer é para mim, como o Miguel e outros, indubitavelmente moçambicano e um dos nossos melhores. Honrá-los, enobrecer ou dignificar cada um deles, é edificar e nobilitar a nossa história individual e colectiva.

KaMpfumo, 21 de Outubro de 2025”.

 

A estas palavras do descaso do Nelson, apenas trago aqui à memória que a mesma ingratidão tem sido patente para com o saudoso e combatente Bispo da Liberdade dos moçambicanos, Manuel Vieira Pinto. Definitivamente ignorado. No centenário do seu nascimento, em 2023, apenas os amigos padre Manuel Vilas Boas e Amadeu Araújo, em Portugal, o honraram com a publicação do livro-memória Moçambique: Da Colonização à Guerra Colonial – Intervenção da Igreja Católica.

Nampula, Novembro de 2025

 

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