A quinta-feira inaugura o tríduo do drama de Jesus, Páscoa de páscoas, passagem pelos lugares da violência, sem heroicidade, narrativa que tece uma outra vida, na qual o verso da história aspira à cidadania. Desafiado a escolher uma obra musical para este dia, não a busquei nos arquivos da “música sacra”, no interior das catedrais, mas na rua. No tempo crítico que habitamos (em que foram suspensas as cenografias do Senhor dos Passos), regressamos à rua, habitada por tantos passos e tantas vozes.
O contrabaixista Gavin Bryars começou pelo jazz, mas desenvolveu uma singular carreira de compositor. Em alguns catálogos, é associado às correntes minimalistas, mas a sua obra, entre-mundos, resiste ao claustro de uma etiqueta única. A sua carreira foi tatuada por uma obra inesperada. Em 1971, Gavin Bryars trabalhava, enquanto sonoplasta, num filme de Alan Power sobre os sem-abrigo que circulavam nas imediações de uma estação londrina. Entre as diversas gravações que Bryars realizou, uma voz se impôs. Tratava-se do registo de um homem idoso, na rua, a entoar uma canção religiosa. Traduzindo de forma livre, o homem canta: “O sangue de Cristo nunca me falhou… uma coisa sei, Ele ama-me muito.” Gavin Bryars começou por experimentar a improvisação ao piano, sobre a melopeia daquele homem idoso, e percebeu que a canção, na voz que lhe dá corpo, se revelava especialmente penetrante nos auditórios.
Tratava-se de um canto que vinha da rua, conservado na sua rudez, transportando o seu ruído, as suas imperfeições, mas transfigurado através de uma orquestração mutante. Em Jesus’ blood never failed me yet, impressiona o exercício de orquestração (nas versões mais longas, o compositor faz largas dezenas de orquestrações diferentes desta sequência). Mas, o que é verdadeiramente tocante, é aquela voz, sempre à beira do desequilíbrio, ungida com o óleo perfumado da orquestração. No último quarto da obra, na versão mais curta que nesta página se recolhe, junta-se a voz de um cantor profissional, Tom Waits, protagonista de sonoridades subterrâneas e perturbantes, acrescentando um eco de novos sentidos. Mas a voz anónima da rua continua lá, frágil e à beira do precipício. A voz não vem de um concurso de talentos, não reproduz estereótipos comerciais, ou o belo adormecido de tantas liturgias. O paradoxo de uma voz banal – transfigurada pela poética da orquestração, transportando uma narrativa cristã de confiança, em tensão com a própria situação social do cantor –, é uma fenda espiritual para os dias que vivemos. Jesus’ blood never failed me yet tornou-se um dos maiores sucessos da carreira de Gavin Bryars. Quando o compositor procurou, de novo, este homem, após as primeiras experiências musicais, descobriu que ele tinha falecido. Morreu sem conhecer o destino criativo do seu canto. Vive nesse canto.
Uma versão mais longa, registada ao vivo:
(Dedico esta escolha musical à Maria da Conceição Moita. Que outra presença nos ligue…)
Alfredo Teixeira é antropólogo e compositor










