Na sua obra Assim Falava Zaratustra, o controverso Friedrich Nietzsche apresenta-nos um pensador, alguém que chega à praça pública, descendo da montanha onde havia estado em isolamento, para vir confrontar a humanidade com a descoberta de verdades incómodas, desafiando-a a abandonar a moral do rebanho, provocando-a com vista a superar a dependência dos valores herdados e desafiando-a a tornar-se criadora de si própria.
Vivemos numa era em que a identidade é moldada por métricas: seguidores, gostos, alcance. A autenticidade tornou-se uma mercadoria e o pensamento próprio, uma ameaça ao algoritmo. Nietzsche, com a sua crítica feroz à superficialidade e à conformidade, pode oferecer-nos hoje um incómodo espelho para o mundo digital, mas, certamente, que o seu Zaratustra não desceria à praça pública, criaria uma conta nas redes sociais e, quase certo, depressa seria cancelado. Mas, por falar em espelho:
– Espelho meu, espelho meu, existe algum perfil com mais seguidores do que o meu?
O Super-Homem e o Influencer
Nietzsche propõe o Übermensch — o super-homem — como aquele que cria os seus próprios valores, livre da moral coletiva. Nas redes sociais vemos o oposto: a figura do influencer, quase sempre guiado por tendências, validação externa e performance. A autenticidade é encenada e o valor do indivíduo mede-se por números, não por profundidade.
Zaratustra iria perguntar-nos: “Segues o que é popular, mas esqueces-te de perguntar: é isso que tu és?”
A Morte de Deus e o Vazio Digital
A célebre frase “Deus está morto” não é tanto um grito de ateísmo, mas um alerta: os princípios e os valores absolutos ruíram, cabe ao homem criar novos significados. Nas redes, essa ausência de sentido manifesta-se como uma busca incessante por atenção, pertença e validação. O vazio existencial é preenchido pelas notificações e por mãozinhas e emojis “coração”, sem nunca se saciar.
E quando alguém ousa pensar de forma diferente, a moral do rebanho digital entra em ação: o cancelamento, a patrulha ideológica, a punição pública. É quase certo que Nietzsche veria nisso servidão disfarçada de liberdade.
O Eterno Retorno e o Loop Algorítmico
Nietzsche desafia o homem a viver como se cada ação fosse repetida eternamente para poder evoluir e melhorar. Nas redes, vivemos o eterno retorno do conteúdo reciclado, das tendências repetidas, do scroll infinito. O algoritmo favorece o que já funcionou, sufoca o novo, o disruptivo, o autêntico. E, por isso, muitos são aqueles que, anestesiados por estímulos constantes, mas vazios de reflexão, em vez de afirmar a vida usam as redes para fugir dela.
O Silêncio que Falta
Zaratustra isolou-se para encontrar sabedoria. Hoje, o isolamento é temido e a exposição é celebrada. O ruído digital impede o silêncio necessário ao pensamento profundo. A introspeção foi substituída por frases motivacionais em carrossel, testes de personalidade instantâneos e de sessões de coaching pessoal ou profissional em saldo, “tudo é coach, tudo é talks”.
Na minha opinião, Nietzsche não condenaria as redes sociais em si. Condenaria o uso passivo, a submissão ao algoritmo, a perda da vontade de potência. Desafiar-nos-ia a usar essa ferramenta como expressão da nossa essência e não como substituto dela.
O Perfil de Zaratustra
Se Zaratustra tivesse hoje um perfil, talvez publicasse: “Não te contentes com o que é viral. Torna-te aquilo que desafia o algoritmo.”
Qual seria o alcance, quantas partilhas e gostos teria?…
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










