
Cristina Inogés-Sanz e o Papa Francisco. Foto © DR
Estes são os quilómetros que percorri em três anos a falar, comentar, explicar, partilhar e aprender sobre a sinodalidade e o Sínodo [da Igreja Católica] que nos recordou a sua existência. Confesso que, quando contei, parecia uma vertigem, mas cada um deles valeu a pena.
Foram três anos vertiginosos em que fomos convidados a aprender a olharmo-nos de outra forma, a ouvirmo-nos com o coração, a compreender que a comunhão não tem nada a ver com uniformidade, enfim, a conhecermo-nos melhor para nos amarmos mais, a sermos Igreja de outra forma.
Gostei de encontrar e descobrir muitas pessoas anónimas que continuam a avançar todos os dias, apesar das dificuldades, que não se censuram na sua reflexão eclesial e que vivem a olhar para o futuro convencidos de que é possível avançar e fazê-lo juntos, todos nós. Reconheço que o facto de ter podido falar com estas pessoas que pareciam inalcançáveis e que, mais tarde, se revelaram muito próximas e acessíveis foi também muito gratificante. Descobrir que a minha reflexão é a mesma reflexão de outros teólogos e que é enriquecida pela partilha de pontos de vista, de contextos de vida muito diferentes e de processos pessoais, ajuda muito.
No entanto, foram estes anónimos que pegaram verdadeiramente no bastão que Francisco nos ofereceu. Porque Francisco, desde que iniciou o seu pontificado, não deixou de abrir processos, mas também é verdade que dificilmente encontrou mãos dispostas a pegar no bastão para que outros pudessem continuar a fortalecer esses processos.
Durante estes três anos, Francisco introduziu muitas mudanças no processo sinodal: prolongou-o por um ano, permitiu que presbíteros, religiosos e religiosas, leigos e leigas fizessem parte da assembleia sinodal, a maioria com voz e voto, escolhendo ele próprio estes participantes, e, há poucos dias, acaba de nomear duas mulheres como membros do Conselho Sinodal. Ele, Francisco, está convencido do processo que abriu para restituir à Igreja a sinodalidade que perdeu, e cuja perda nos trouxe tantos problemas.
O Sínodo acabou, mas a sinodalidade continua aqui, e é maravilhoso ver como continuam a chegar pedidos das comunidades paroquiais e religiosas, dos grupos que se formaram no início do Sínodo para continuar a aprofundar e a resolver as dúvidas que o documento possa gerar. Um documento que, por decisão de Francisco, se tornou um magistério eclesial, pois o Papa renunciou a escrever uma exortação, permitindo assim que este documento final se tornasse a “Exortação” do povo de Deus.

Participantes na assembleia sinodal: “Não somos os mesmos que entraram na Sala Paulo VI em outubro de 2023, com entusiasmo, respeito, expetativa e curiosidade.” Foto © António Marujo/7MARGENS
Trata-se de um documento que captou os sentimentos comuns do Sínodo e que os redactores do documento souberam exprimir bem. É pena que o seu valor tenha sido confirmado apesar do (ou mesmo por causa do) número de votos contra alguns dos seus números que, apesar de tudo, passaram na votação e fazem agora parte do magistério eclesial que Francisco nos deu. Eu digo que é uma pena, embora, na realidade, também tenha sido um dom ver aquilo a que temos de prestar muita atenção para que não caia no esquecimento, por muito magistério eclesial que seja.
Não somos os mesmos que éramos quando o Sínodo começou. Não somos os mesmos que entraram na Sala Paulo VI em outubro de 2023, com entusiasmo, respeito, expetativa e curiosidade, e voltámos a entrar da mesma forma em outubro de 2024. Viver este processo por dentro, e todos nós que nele participámos o vivemos assim, e deixá-lo como o começámos, seria não ter vivido a experiência transformadora de nos sabermos protagonistas, de nos sentirmos uma verdadeira Igreja onde a nossa voz não era um eco perdido, mas uma parte essencial de uma polifonia muito bem orquestrada.
É pena que, em algumas dioceses, o Sínodo não seja mais do que uma ténue, muito ténue memória de algo que aconteceu há alguns anos; noutras, nem sequer têm essa memória. Aqueles que decidiram negar a informação, a possibilidade de participação, em suma, a liberdade de o fazer, suponho que sabem que lhes podem ser pedidas contas pelo abuso de poder que exerceram contra a “sua mulher”, a diocese. É algo que está incluído no Documento final, que é magistério eclesial.
Em todo o caso, todos nós temos uma grande tarefa pela frente. Teremos todos de corrigir comportamentos, melhorar as relações, abrirmo-nos à experiência da ressurreição que nos dá um novo olhar sobre tudo o que acontece na nossa vida.
Uma grande tarefa que começa com a fruição do Jubileu da Esperança, que já está diante de nós como lugar de encontro, mas que não nos deve fazer perder de vista que a sinodalidade está aí e que devemos começar a vivê-la também no, com e a partir desse Jubileu. Receio que alguns, com o Jubileu, as suas celebrações e rituais, tentem desviar a atenção da sinodalidade, ou tentem disfarçar o processo de implementação do documento final sob a capa de um qualquer Plano Pastoral de eficácia duvidosa.

“Francisco, bispo de Roma, está connosco, bispos incluídos como povo de Deus.” Foto © Organização belga da visita do Papa ao país, de domínio público.
Francisco, desde o início do seu pontificado, tem agido como descreve na Evangelii Gaudium: “O bispo deve sempre promover a comunhão missionária na sua Igreja diocesana, seguindo o ideal das primeiras comunidades cristãs, onde os crentes tinham um só coração e uma só alma (cf. Actos 4, 32). Para isso, por vezes estará à frente para indicar o caminho e alimentar a esperança das pessoas, outras vezes estará simplesmente no meio de todos com a sua proximidade simples e misericordiosa, e outras vezes terá de caminhar atrás das pessoas para ajudar os mais atrasados e, sobretudo, porque o próprio rebanho tem o seu faro para encontrar novos caminhos. Na sua missão de favorecer uma comunhão dinâmica, aberta e missionária, deverá encorajar e procurar amadurecer os mecanismos de participação propostos pelo Código de Direito Canónico e outras formas de diálogo pastoral, com o desejo de ouvir todos e não apenas alguns que lhe apuram os ouvidos. Mas o objetivo destes processos participativos não será em primeiro lugar a organização eclesial, mas o sonho missionário de chegar a todos” (nº 31).
O Espírito sopra, sussurra e manifesta-se de mil maneiras e formas na vida eclesial; Francisco, bispo de Roma, está connosco, bispos incluídos como povo de Deus, por vezes à frente, por vezes no meio e por vezes atrás, para que nos sintamos acompanhados e não dirigidos; somos chamados a ser os arquitetos desta reforma de que a Igreja precisa e suponho que, nesta fase do processo, ninguém terá medo da palavra reforma. Não tenhamos medo!
Cristina Inogés Sanz é teóloga e foi membro do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade por nomeação do Papa Francisco, depois de ter integrado a comissão metodológica de preparação. Autora do livro A Sinfonia Feminina (Incompleta) de Thomas Merton (Paulinas Editora). Este texto foi inicialmente publicado na revista Vida Nueva.
Tradução de Júlio Martin.
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