Nas margens da filosofia – Um Deus que nos desafia

| 16 Jun 19 | Entre Margens, Últimas

Etty Hillesum, numa foto publicada no livro Nos Passos de Etty, de Filipe Condado (ver https://setemargens.com/nos-passos-de-etty-hillesum-pre-publicacao/)

 

No passado dia 11 de Maio, o 7MARGENS publicou uma entrevista de António Marujo ao  cardeal Gianfranco Ravasi. Nela se abordavam temas de interesse no âmbito da Igreja Católica, tais como o afastamento  dos jovens, os conflitos internos na Igreja,  o papel das mulheres, o estatuto dos refugiados, etc. A esta conversa foi dado o título “O problema não é saber se Deus existe: é saber qual Deus”. É um tema que vem de longe e que particularmente nos interpela, não tanto num contexto teológico/metafísico quanto no plano da própria acção humana. Para nos ajudar a responder a esta interpelação, recorremos a duas figuras que, no século passado, se debruçaram sobre a temática, na altura insólita, da fragilidade de Deus e das consequências da mesma: Etty Hillesum e Dietrich Bonhoeffer. Em contextos diferentes – Holanda e Alemanha – viveram os terríveis anos da II Guerra Mundial, sofrendo na pele a ameaça do nazismo, da qual foram vítimas.

Etty Hillesum foi uma judia holandesa que nas suas Cartas e Diários ( Lisboa, Assírio e Alvim, 2008 e 2009) relatou o sofrimento dos judeus sob a ocupação nazi. Pelo testemunho que nos legou, ficamos cientes do seu  processo de auto-conhecimento, o qual culminou numa profunda espiritualidade. Etty assumiu-se como alguém que encontrou em Deus a força para ultrapassar as misérias do quotidiano. Recusando a ajuda de amigos que pretendiam escondê-la, colaborou com o Conselho Judaico no campo de Westerbork, onde ajudou uma população em trânsito para Auschwitz, um destino que também foi o seu.

Cuidar dos outros impediu-a de perder a esperança. Contra o inferno da lama e da doença, opôs a beleza da vida e enfatizou a capacidade regeneradora da mesma. Não tinha ilusões quanto ao futuro que a esperava mas apreciava os raros momentos de felicidade – a visão de uma flor ou de um pôr do sol. A sua presença luminosa no meio do sofrimento dos condenados a uma morte certa, levou a que os companheiros lhe chamassem “o coração pensante das barracas”. Etty tentou superar o sofrimento procurando dentro de si a presença de Deus. Um Deus frágil e silencioso, destituído de poder, carente de ajuda: “Há algo que cada vez é mais evidente para mim: que Tu não nos podes ajudar e que nós teremos que Te ajudar a ajudar-nos” (C W 2, p. 780). Ela  entendeu a criação como algo inacabado. Deveríamos colaborar com Deus para a completar pois é nosso dever ajudar Deus na solução dos problemas do mundo.

Dietrich Bonhoeffer foi um teólogo alemão, fundador da Igreja Confessante (Bekennende Kirche), um desvio da Igreja Luterana a que pertencia. Acusado de ter participado numa conspiração contra Hitler, esteve dois anos preso e foi enforcado no fim da guerra. Bonhoeffer é uma personagem multifacetada, na qual se fundem de um modo coerente, o cidadão e o crente, o teólogo e o investigador, o pastor que fala em nome da fé e o rebelde que se indigna contra a passividade e colaboração da Igreja Luterana alemã perante a questão judaica.

A prisão deu-lhe oportunidade para rever a fé e reformular conceitos bíblicos (vd.Resistência e Submissão. Cartas e anotações escritas na prisão, S. Leopoldo, Sinodal/EST, 2003 e Ética, Lisboa, Assírio e Alvim, 2007). É em nome da fidelidade a Deus que Bonhoeffer se propõe reformar a Igreja, repensar a teologia e refundar a ética. Num mundo que, segundo ele, “atingiu a maioridade”, o seu intento foi descobrir uma linguagem divina inequivocamente colocada ao serviço dos homens. Para ele, ser cristão é ser homem, é viver num mundo emancipado de Deus, situação essa que acaba com uma ideia falsa de divindade e nos leva a uma procura total, empenhada no concreto e no quotidiano.

Criticando a concepção de um Deus ex machina,Bonhoeffer propôs-nos um Deus sofredor e impotente, um Deus que  remete directamente para Cristo e para os homens. Os escritos que nos deixou visam tempos futuros, uma nova época sem Deus mas na qual a palavra de Deus comanda. No seu entender, não mais podemos ser religiosos no sentido tradicional do termo. Há que tomar parte activa no mundo, numa luta em prol da justiça e da paz. O cristianismo não é uma religião mítica dirigida para um além. Num mundo emancipado de Deus a nossa busca deverá voltar-se para a sociedade, para a vida de todos os dias. E encontramos Deus no mundo, no centro da vida, nas falhas humanas. A Igreja e os cristãos têm como missão manter-se vigilantes, denunciar e agir, ajudando Deus a realizar-se com os homens, no meio deles e com eles, na construção de uma nova época, num mundo sem Deus onde, no entanto, a palavra de Deus impere.

Alguns anos mais tarde, o filósofo judeu/alemão Hans Jonas interrogou-se sobre a incompatibilidade da existência de Deus e do Holocausto (O conceito de Deus após AuschwitzSão Paulo, Paulus, 2016). Um Deus que aceita o mal terá que ser enigmático, ininteligível, absconditus. Jonas pôs em causa o conceito de Deus como Senhor da História. Revisitando Job  perguntou: como foi possível Auschwitz? que Deus é este que permitiu tais atrocidades? Para o filósofo, a existência do mal é incompatível com o poder absoluto de Deus. Por isso declarou a Sua impotência, da qual a Shoahseria a melhor demonstração. Depois de criar o mundo, Deus não tem mais nada a oferecer aos homens. São estes que deverão trabalhar o que lhes foi dado.

O conceito de Deus, presente nestes três pensadores, tem de comum a vulnerabilidade. Note-se que tanto Etty como Bonhoeffer não puseram em causa a confiança em Deus. Para eles, um Deus frágil não representa algo de negativo. Implica sim a dignificação do homem, que é interpelado a colaborar numa criação incompleta, carente da ajuda humana para atingir a plenitude. Trata-se de uma resposta possível à acusação de Jonas de um Deus impotente, entendendo a fragilidade divina não como carência ou defeito mas como apelo à humanidade, convidando-a a colaborar numa criação incompleta, perante a qual uma atitude contemplativa não basta.

Penso que estes dois testemunhos constituem achegas a considerar para uma possível resposta à pertinente questão levantada pelo cardeal Ravasi: “O problema não é saber se Deus existe: é saber qual Deus”. Pela mão de Etty e de Bonhoeffer somos confrontados com  um Deus que nos considera parceiros activos da sua obra – um Deus que nos desafia.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática  de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (http://luisarife.wix.com/site; luisarife@sapo.pt)

Artigos relacionados

“No tempo dividido” – Mistagogia da temporalidade na poesia de Sophia

“No tempo dividido” – Mistagogia da temporalidade na poesia de Sophia

Sophia chegou cedo. Tinha dez ou onze anos quando li O Cavaleiro da Dinamarca, cuja primeira edição data de 1964. É difícil explicar o que nos ensina cada livro que lemos. Se fechar os olhos, passados mais de 30 anos, recordo ainda que ali aprendi a condição de pe-regrino, uma qualquer deriva que não só nos conduz de Jerusalém a Veneza, como – mais profundamente – nos possibilita uma iniciação ao testemunho mudo das pedras de uma e às águas trémulas dos canais da outra, onde se refletem as leves colunas dos palácios cor-de-rosa.

Apoie o 7 Margens

Breves

Papa Francisco anuncia viagem ao Sudão do Sul em 2020 novidade

“Com a memória ainda viva do retiro espiritual para as autoridades do país, realizado no Vaticano em abril passado, desejo renovar o meu convite a todos os atores do processo político nacional para que procurem o que une e superem o que divide, em espírito de verdadeira fraternidade”, declarou o Papa Francisco, anunciando deste modo uma viagem ao Sudão do Sul no próximo ano.

Missionários constroem casa para cuidar e educar as vítimas do terramoto no Nepal

Mais de 400 crianças órfãs, pobres e com debilidades físicas vítimas do terramoto de 2015 no Nepal, residem hoje na casa de crianças Antyodaya em Parsa (centro do país). A casa, que foi construída em 13 de maio de 2017, tem o propósito “de alcançar as crianças mais desafortunadas das aldeias mais remotas, oferecendo-lhes educação e desenvolvimento pessoal”.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Entre margens

Manuela Silva e Sophia novidade

Há coincidências de datas cuja ocorrência nos perturbam e nos sacodem o dia-a-dia do nosso viver. Foram assim os passados dias 6 e 7 do corrente mês de Novembro. A 6 celebrou-se o centenário do nascimento de Sophia e a 7 completava-se um mês sobre a partida para Deus da Manuela Silva.

“Unicamente o vento…”

Teimosamente. A obra de Sophia ecoa. Como o vento. Como o mar. Porque “o poeta escreve para salvar a vida”. Aquela que foi. Que é. A vida num ápice. Luminosa e frágil. Do nascente ao ocaso. Para lá do poente. Celeste. Na “respiração das coisas”. No imprevisível ou na impermanência. A saborear o que tem. A usufruir do que teve. Na dor e na alegria.

Cultura e artes

Trazer Sophia para o espanto da luz

Concretizar a possibilidade de uma perspectiva não necessariamente ortodoxa sobre os “lugares da interrogação de Deus” na poesia, na arte e na literatura é a ideia principal do colóquio internacional Trazida ao Espanto da Luz, que decorre esta sexta e sábado, 8 e 9 de Novembro, no polo do Porto da Universidade Católica Portuguesa (UCP).

As mulheres grávidas e o olhar feminino sobre a crise dos refugiados

Uma nova luz sobre a história dos refugiados que chegam à Europa, evitando retratá-los como “heróis ou invasores”. Francesca Trianni, realizadora do documentário Paradise Without People (Paraíso sem pessoas, em Inglês), diz que o propósito do seu filme, a exibir nesta quinta-feira, 31 de outubro, em Lisboa, era mostrar a crise dos refugiados do ponto de vista feminino.

Sete Partidas

Visto e Ouvido

Agenda

Parceiros

Fale connosco