Perante as imagens de devastação de um país como a Venezuela, que já enfrentava uma profunda crise económica, social e política que afetava seriamente os cidadãos e os serviços básicos, é difícil não cair na tentação de pensar num abandono divino. Aqui e ali, surge a inquietação: “Porquê, meu Deus?”; “Então, e Deus, estava onde?”.
Até hoje, e pela fé, tenho escolhido sempre a resposta que me parece fazer mais sentido quando vivemos uma catástrofe desta dimensão. É a mais terna, a que acalma o coração, não só a impotência do meu, mas, principalmente, o daqueles que choram os seus mortos entre betão, tijolo e pó: naqueles segundos em que o chão se abriu, Deus não estava na terra.
E isto não por desleixo ou esquecimento, mas porque Deus estava nos Céus, de braços abertos, com a urgência de quem precisa de preparar espaço para receber, de um momento para o outro, centenas de almas assustadas que subiam à pressa.
Estava a limpar a poeira dos olhos daqueles que partiram sem tempo para se despedir. A dar-lhes o colo e o descanso que a Terra lhes tinha negado. Estava a exercer a sua função de Pai no plano da eternidade, acolhendo cada um dos seus filhos que, num suspiro, terá cruzado a fronteira da vida.
Luz terna, suave, no meio da noite, leva-me mais longe…
Não tenho aqui morada permanente: leva-me mais longe…
(do Hino da Liturgia das horas)
E na Terra?… Na Terra, Deus deixou a Humanidade encarregue de cumprir aquilo para que foi desde sempre desejada.
Sem a presença física do divino, somos chamados a ser as Suas mãos e o Seu coração de carne. Quando a poeira baixou, o que se foi vendo nas ruas da Venezuela não foi o egoísmo da sobrevivência, mas a entrega absoluta. Foi o vizinho a rasgar as mãos nas pedras para salvar uma vida que não era a sua; foi o desconhecido a segurar a dor do outro no abraço apertado; foi a partilha do último pedaço de pão e de um golo de água. Na ausência de milagres vindos dos Céus, cabe à Humanidade cumprir o seu propósito mais nobre: o milagre do Amor em estado puro.
Se o sismo levou casas e vidas, revelou também que o ser humano, quando despido de tudo, escolhe salvar o outro. Deus acolheu nos Céus os que chegaram; nós, aqui, abraçamos os que ficam. E é nessa divisão perfeita do Amor que a Terra, que tanto tremeu, volta a encontrar o seu lugar.
Muitas vezes, na dor, esquecemos que o mundo que habitamos tem as suas próprias regras de existência. A Terra está viva, pulsa, respira e move-se sob as leis da física, que são anteriores à presença humana.
Deus não interfere no curso da natureza. Não trava o movimento das placas tectónicas, não desvia a rota dos furacões, nem impede a chuva de cair, porque a criação tem a sua própria liberdade de se manifestar. Pedir a Deus que impeça a terra de tremer seria pedir-Lhe que travasse o próprio pulsar de um planeta vivo. Um sismo não é um castigo divino, é a Terra a ser Terra e, por isso, plena da Liberdade daquele que a criou.
A grandeza de Deus não está em quebrar as leis físicas para evitar que a natureza siga o seu curso, mas sim naquilo que acontece no segundo seguinte ao desastre.
Enquanto o planeta se move sob as suas regras implacáveis, Deus foca-se nas regras da alma. Ele não segura o chão que se abre, mas abre os braços nos Céus para acolher, com infinito Amor, todos os que a Terra lhe acabou de entregar.
E, aqui, deixa-nos a nós. Como se nos dissesse que, se a natureza tem a liberdade de destruir, nós temos a liberdade – e a sagrada missão – de reconstruir através do Amor. Na Terra, a Humanidade, abrindo-se livremente à ação do Espirito Santo, assume o comando, provando que a nossa capacidade de nos entregarmos ao outro é a única força capaz de fazer frente à fúria de um mundo que, por vezes, treme.
«Eles não pertencem ao mundo, como eu também não pertenço. (…) Eu envio-os para o mundo, como tu me enviaste também. (…) Pai, que eles estejam tão unidos a nós, como tu o estás a mim e eu a ti. (…) Eu vivo neles e tu vives em mim. Deste modo a sua união será perfeita e o mundo há de saber que me enviaste e que os amas como a mim. (…) Eu dei-lhes a conhecer quem tu és, e vou continuar a fazê-lo, para que eles se amem, como tu me amas, e o meu amor esteja neles.»
(Da oração sacerdotal de Jesus, em João 17, 16-26)
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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