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Placas caminho Arrifana. Foto Júlia Costa
"Voltar ao lugar onde já fomos felizes não tem de ser uma tentativa ingénua de ressuscitar o passado; pode, antes, ser um ato de maturidade e redescoberta". Foto © Júlia Costa

[Lugar (in)comum]

“Não voltes ao lugar onde já foste feliz”

| 09/09/2026

Todos os dias nos cruzamos com frases feitas e dogmas do senso comum. Funcionam como atalhos mentais confortáveis, mas raramente resistem a quem se atreve a questionar. É aqui que nasce o Lugar (in)comum.

Esta rubrica surge para desarmar os automatismos da linguagem e dar espaço ao espírito crítico. Queremos desmontar as certezas absolutas que bloqueiam o debate de ideias, substituindo a reflexão por muletas intelectuais que encerram as conversas antes do tempo.

Porque as palavras que repetimos moldam a forma como pensamos. E levar estes clichés demasiado a sério não é sabedoria — é uma preguiça mental que nos afasta do essencial.

 

“Não voltes ao lugar onde foste feliz”… Há quem diga que é um provérbio chinês – é usual atribuir frases como esta a uma sabedoria ancestral quando se desconhece a sua origem – e há quem a cite como sendo de autor anónimo. Optei pelo lastro literário e musical pelo qual a reconheço. O livro Uma autobiografia, de Agatha Christie, editado em 1977, já após a morte da autora; e a canção As Regras da Sensatez, de Rui Veloso, com letra de Carlos Tê, lançada originalmente em 1998 e um dos temas do álbum Avenidas.

Christie, a rainha do crime, eternizou a ideia alertando para a desilusão quase inevitável de tentar reviver o passado. Já com o nosso bluesman do Porto, o verso atua como um travão emocional. Ambos defendem que voltar atrás – ao onde e quando fomos felizes – será um erro de cálculo.

De facto, há frases que se entranham no quotidiano e passam a funcionar como verdades absolutas.  Aliás, quem é que nunca usou este lugar-comum, para encerrar uma qualquer conversa sobre um desgosto amoroso, saudade ou para selar um conselho, dando ares de profunda sabedoria pragmática?

A explicação para a popularidade deste cliché reside, talvez, no medo da desilusão. A premissa sugere que a felicidade vivida num determinado momento resultou de uma combinação irrepetível: a luz daquele ano, a idade que tínhamos, as pessoas que nos cercavam e o estado de espírito de então. Ao regressarmos ao mesmo espaço físico anos mais tarde, a expetativa choca inevitavelmente com a usura do tempo. A expressão funciona como uma blindagem emocional: é preciso que nos afastemos dos cenários do passado para congelar a memória na versão perfeita. É preciso impedir que o presente contamine a nostalgia.

Mas… será?

Este lugar-comum – esta ideia feita de que um regresso estraga a memória – esconde, a meu ver, uma premissa assente no medo e na visão estática da vida. E isso é profundamente limitador. Por isso, julgo que vale a pena desmontá-la.

Voltar ao lugar onde já fomos felizes não tem de ser uma tentativa ingénua de ressuscitar o passado; pode, antes, ser um ato de maturidade e redescoberta.

Quando regressamos a um lugar marcante, não encontramos o passado, mas o espelho do nosso próprio crescimento. O espaço mudou porque o mundo se moveu, e nós mudámos porque vivemos. Confrontar esse lugar no presente poderá permitir fechar ciclos, ganhar perspetiva e, sobretudo, construir novas camadas de significado sobre as antigas.

A felicidade original não é apagada pelo presente, pode ser a base sobre a qual edificamos uma nova experiência, talvez mais consciente e serena. A verdadeira sensatez pode estar, afinal, na coragem de voltar.

O lugar onde já fomos felizes pode continuar a ser um lugar de felicidade. Não porque o passado regressa, mas porque nós ainda lá cabemos. Permitir o regresso é transformar o lugar-comum num lugar incomum: um território vivo onde o passado não nos assombra, mas serve de alicerce para novas formas de estar e de ser feliz.

 

 

Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Equipa de Comunicação e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra. 

O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.

 

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