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autores - Dália Fernandes

[Entre Margens]

Porque preferimos um Deus previsível?

| 22/07/2026

Há uma pergunta que raramente formulamos, mas que talvez diga muito sobre a nossa forma de acreditar: e se o maior obstáculo à fé não for a dificuldade em acreditar em Deus, mas a facilidade com que imaginamos quem Ele deve ser?

Todos transportamos uma imagem de Deus. Não nasce apenas da leitura da Bíblia ou da tradição cristã. É moldada pela educação, pelas experiências vividas, pelas alegrias e pelas feridas. Sem nos apercebermos, vamos desenhando um Deus que faz sentido para nós: justo, mas previsível; próximo, mas tranquilizador; exigente, mas dentro dos limites que consideramos razoáveis.

O problema surge quando deixamos de distinguir entre Deus e a ideia que fazemos d’Ele.

A Bíblia é surpreendentemente lúcida a este respeito. Desde as suas primeiras páginas, mostra homens e mulheres que tentam compreender Deus e acabam, repetidamente, por descobrir que Ele não cabe nas imagens que tinham construído.

O episódio do bezerro de ouro é talvez o exemplo mais evidente (Êxodo 32). Enquanto Moisés permanece no Sinai, o povo perde a confiança. A ausência de Deus torna-se insuportável e nasce a necessidade de O tornar visível. À primeira vista, trata-se apenas de um caso clássico de idolatria. Mas talvez haja ali algo mais profundo.

O bezerro representa a tentativa de transformar o Deus livre num deus disponível. O Deus que fala quando quer num deus que pode ser consultado quando convém. O Deus que conduz a História num deus que acompanha os nossos projetos. Não era apenas uma nova divindade. Era um Deus tornado previsível.

 

Nicolas_Poussin Adoração do Bezerro de Ouro Foto Wikimedia Commons

Adoração do Bezerro de Ouro, por Nicolas Poussin (1594–1665). “O bezerro representa a tentativa de transformar o Deus livre num deus disponível.” Imagem: Domínio Público, via Wikimedia Commons

 

Talvez seja essa a forma mais subtil de idolatria. Não a substituição de Deus, mas a sua redução à medida das nossas expectativas.

Ao longo da Escritura, Deus resiste continuamente a esse processo. Chama Abraão para abandonar a segurança da sua terra (Génesis 12,1). Escolhe Moisés, um fugitivo, para enfrentar o maior império do seu tempo (Êxodo 3,10). Perdoa Nínive, provocando a indignação de Jonas, que preferia um Deus mais rigoroso e menos misericordioso (Jonas 4,1-2). Quando Jó exige explicações para o sofrimento, Deus não lhe oferece uma resposta simples, mas convida-o a reconhecer os limites da compreensão humana (Jó 38-41).

A impressão que fica é curiosa: sempre que alguém pensa ter Deus compreendido, Deus surpreende-o.

Nos Evangelhos acontece exatamente o mesmo. Jesus aproxima-se de quem devia evitar, toca quem era considerado impuro, elogia estrangeiros, conversa com samaritanos, senta-se à mesa com pecadores e faz da misericórdia um critério mais importante do que a reputação religiosa. Não destrói a tradição de Israel, mas desafia continuamente as interpretações que impediam de reconhecer a ação de Deus.

Nem os discípulos escaparam a esse processo. Esperavam um Messias vencedor, capaz de restaurar a independência de Israel e inaugurar um reino de poder. Encontraram, porém, alguém que falava mais de serviço do que de domínio, mais de cruz do que de triunfo.

É significativo que, já depois da ressurreição, continuem a perguntar: «Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?» (Atos 1,6). Tinham caminhado com Jesus durante anos, tinham assistido à sua morte e acreditavam na sua ressurreição. Ainda assim, continuavam a esperar um Deus que correspondesse às suas categorias políticas e religiosas.

Talvez essa pergunta continue, de outras formas, a ser também a nossa.

Gostamos de um Deus que confirme as nossas opiniões, legitime as nossas escolhas e resolva rapidamente aquilo que nos inquieta. Esperamos que intervenha segundo a lógica que consideramos justa e que recompense o bem da maneira que imaginamos. Quando isso não acontece, não raramente sentimos que Deus falhou.

Mas será Deus que falha ou será a imagem que construímos d’Ele?

O profeta Isaías exprime esta tensão numa frase que atravessou os séculos: «Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos são os meus caminhos» (Isaías 55,8). Não se trata de afastar Deus da Humanidade, mas de recordar que a Sua realidade nunca pode ser inteiramente capturada pelas nossas categorias.

A tradição cristã compreendeu isto muito cedo. Deus pode ser conhecido, mas nunca esgotado. Quanto mais O conhecemos, mais percebemos que permanece maior do que as nossas definições. A fé não elimina o mistério; aprende a habitá-lo.

Talvez seja por isso que a maturidade espiritual não consista em possuir respostas cada vez mais completas, mas em conservar a disponibilidade para ser surpreendido. A Bíblia mostra um Deus que desinstala mais do que confirma, que chama mais do que acomoda, que abre caminhos onde apenas vemos impasses.

No fundo, a questão não é se acreditamos em Deus. A questão é se estamos dispostos a deixar que Deus seja diferente da imagem que fizemos d’Ele. Porque, por vezes, o verdadeiro ídolo não é um deus de ouro. É um Deus feito à nossa imagem.

 

Dália Fernandes é mestre e doutoranda em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.

 

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