Mal tinha acabado de aterrar na capital do Líbano, este domingo, o Papa Leão XIV já estava a falar às autoridades civis, políticas e religiosas sobre o significado de ser construtor da paz, talvez o tema mais destacado do seu ainda curto pontificado. Para trás tinham ficado quatro dias na Turquia, onde o tema central foram os 1700 anos do Concílio de Niceia e da urgência, hoje, dos desafios da unidade dos cristãos.
Em Beirute, o Papa começou, no seu discurso, por aludir às belezas naturais e às riquezas culturais do Líbano, mas rapidamente passou para aquilo que disse ser uma qualidade dos libaneses. “Sois um povo que não sucumbe e que, diante das provações, sabe sempre renascer com coragem. (…) A vossa resiliência é uma característica imprescindível dos autênticos promotores da paz”, apontou.
E foi com essa base que enunciou o que se propunha fazer, no discurso que trazia preparado: refletir com os responsáveis do país, a começar pelo presidente da República ali presente, sobre “o que significa ser um pacificador em circunstâncias muito complexas, conflituosas e incertas”.
Justificou a necessidade de o fazer com “uma espécie de sentimento de impotência e pessimismo” que “parece ter levado a melhor”, em quase todo o mundo. “As pessoas – explicou – parece já nem sequer conseguirem perguntar-se o que podem fazer para mudar o rumo da história. Aparentemente, as grandes decisões são tomadas por poucos e, muitas vezes, em detrimento do bem comum, o que parece ser um destino inevitável”.
A um país com uma sociedade civil “vivaz, bem formada, rica em jovens capazes de expressar os sonhos e as esperanças de todo um País”, Leão XIV apelou a que o Líbano possa falar uma única língua: a língua da esperança, que faz com que todos se unam para recomeçar sempre de novo”. A capacidade de recomeçar, com resiliência e na esperança, seria, então, a primeira caraterística dos pacificadores.
Mas não basta recomeçar. Os pacificadores apostam também em percorrer “o árduo caminho da reconciliação”, já que “existem feridas pessoais e coletivas que para poderem cicatrizar exigem longos anos, às vezes gerações inteiras”. “Se não forem tratadas, prosseguiu o bispo de Roma, se não se trabalhar, por exemplo, na cura da memória, na aproximação entre aqueles que sofreram ofensas e injustiças, dificilmente se alcançará a paz”.
Se a reconciliação, entendida como capacidade de “viver juntos, em comunhão”, seria uma caraterística dos pacificadores, a segunda sugerida pelo Papa, a terceira seria a capacidade de não fugir, de procurar construir a paz não fora, noutra realidade geográfica, mas dentro do país. “A Igreja não se preocupa apenas com a dignidade daqueles que se deslocam para países diferentes do seu, mas deseja que ninguém seja obrigado a partir e que todos aqueles que o desejem possam regressar em segurança”, acrescentou.
Na viagem aérea entre Istambul e Beirute, o Papa teve uma rápida conversa com jornalistas, que deu apenas para duas perguntas de jornalistas turcos, que quiseram saber como vê ele o papel do Estado turco na guerra na Ucrânia e na Palestina. Leão XIV sublinhou as vantagens da Turquia: o exemplo da boa convivência entre a maioria muçulmana e a minoria cristã e a experiência de diálogo entre as partes, no início da invasão da Ucrânia pela Rússia. Sublinhou ainda, relativamente ao Médio Oriente, da posição comum do Vaticano e da Turquia quanto à defesa de “dois estados” para o atual conflito na Faixa de Gaza e na Cisjordânia.
Por iniciativa do Papa, foi referido algo que pode vir a ter repercussão significativa no mundo cristão: a possibilidade de um evento na Páscoa de 2033, quando se completarem 2.000 anos sobre a Paixão, morte e ressurreição de Jesus.
A ideia surgiu no dia 29, sábado de manhã, no encontro ecuménico entre responsáveis de igrejas cristãs, que Leão XIV considerou “Importante e muito bonito, pois cristãos de diferentes tradições estiveram presentes e puderam participar deste momento”.
“A ideia foi bem recebida; ainda não fizemos o convite, mas existe a possibilidade de celebrarmos, por exemplo, este grande evento da Ressurreição em Jerusalém”, acrescentou o Papa.










