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EDITORIAL

Um pontificado que começa agora e o que ficou de mais um Jubileu católico (e os 7 anos do 7MARGENS)

| 06/01/2026

Neste dia 6 de Janeiro, dia de Reis na liturgia católica, o Papa Leão assinalou o fim simbólico do Jubileu 2025, com o encerramento da “porta santa” da Basílica de São Pedro. E após um ano de celebração, o que ficou do Jubileu? Gestos repetidos sem efeitos pessoais ou comunitários? Vontade de mudança efectiva? Decisões e horizontes de conversão?

Na sua alocução do Ângelus, Leão XI afirmou que, do Jubileu de 2025, deveria ficar como legado uma justiça fundada na partilha, a redistribuição de bens e o fim da “indústria da guerra”.

Há um quarto de século, o Jubileu do ano 2000 ficou marcado pela reconciliação com a história: o Papa João Paulo II pediu perdão pelos erros históricos da Igreja; o então cardeal Policarpo repetiu o gesto no lugar onde, em Lisboa, em 1506, ocorreu um massacre de judeus; mas não houve, da parte da hierarquia católica portuguesa, a mesma atitude em relação ao papel da Igreja durante o Estado Novo (tal como em Espanha com a ditadura franquista ou a Guerra Civil), ao contrário do que na altura fizeram os bispos da Argentina, Brasil ou Chile em relação às ditaduras militares que esses países sofreram. O Jubileu 2000 fez ainda memória do martírio de milhões de crentes na então União Soviética, América Latina, China e outros países asiáticos ou de África; e viveu uma campanha – da qual João Paulo II foi uma das vozes importantes, em conjunto, por exemplo, com Bono Vox, o vocalista dos U2 – em defesa do perdão da dívida aos países pobres.

Em 2016, o Papa Francisco preencheu o Jubileu da misericórdia com gestos significativos de atenção a pessoas presas ou sem-abrigo, pobres, vítimas de tráfico humano, refugiados, doentes, migrantes, entre muitos outros – grupos hoje insultados por quem enche a boca com as missas que frequenta (como se pode comungar insultando e espalhando ódio? – pergunto-me muitas vezes). Francisco instituiu ainda os “missionários da misericórdia”, preparados para o acolhimento pessoal, que tantas vezes falta nas comunidades cristãs.

Neste fim-de-semana decorreu no Vaticano o jubileu das bandas e espectáculos populares. Foto © António Marujo/7MARGENS

Jubileu das bandas em Roma: depois do ritual, fica o desafio de os crentes assumirem até ao fim as consequências da sua fé na luta pela paz, pela centralidade da pessoa (de todas as pessoas), pela não-violência, pelo cuidado com o planeta. Foto © António Marujo/7MARGENS

Deste Jubileu 2025, o que ficou, além dos milhões que rumaram a Roma para assinalar o acontecimento através dos seus gestos convencionais? Na tradição bíblica, o ano jubilar trazia o perdão de dívidas, o repouso da terra e a libertação de escravos, para restabelecer a justiça, relações fraternas e maior proximidade com Deus. Quando hoje o mundo se desgraça na guerra e na emergência climática, no aumento do fosso das desigualdades, na violência contra mulheres, crianças ou os mais desprotegidos, que boa nova trouxe este Jubileu? Certamente muitas vontades de mudança, mas também, infelizmente, o cumprimento de um ritual sem consequências – ou com efeitos desastrados: o que estamos a ver da parte dos Estados Unidos, com o acto criminoso de um “xerife” do mundo que quer fazer vingar o seu narcisismo e egoísmo patológico para fazer “justiça” por conta própria, mostra que há milhões de católicos que, votando em líderes políticos (também em Portugal ou em vários países da Europa) que apenas olham ao seu interesse egoísta e anti-evangélico, ainda não entenderam que a fé cristã (mas também a judaica ou islâmica) deve levar a não escolher quem odeia o diferente só para impor os seus interesses.

Foram também muitos cristãos que ajudaram a eleger um homem cuja política externa (se disso podemos falar) combina “o pior do isolacionismo com o pior do intervencionismo de uma forma especialmente desastrosa”, como escreve o padre e téologo dos Estados Unidos Thomas Reese, no Religion News Service. Sem qualquer preocupação com “a democracia, os direitos humanos, os refugiados políticos ou as vítimas de desastres naturais”.

Ou seja, o mundo continua a desesperar por crentes que, na sociedade, na política e na economia, assumam até ao fim as consequências da sua fé na luta pela paz, pela centralidade da pessoa (de todas as pessoas), pela não-violência, pela lógica do Direito na regulação dos conflitos, pelo cuidado com o planeta. Muitas “portas santas” se abriram, muitas portas estão ainda por abrir, para incluir todas e todos no plano de Deus para a humanidade.

Assembleia Sínodo dos Bispos, outubro 2024. Foto Clara Raimundo

Uma das sessões do Sínodo sobre a sinodalidade: o tema é um dos que está previsto para o primeiro consistório convocado pelo Papa Leão. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

O fim do Jubileu coincide com a véspera do primeiro consistório convocado pelo Papa Leão: pouco se sabe acerca dos temas concretos da reunião, para além de que eles incluirão as questões da sinodalidade e da liturgia, faltando saber com que perspectiva se dará sentido a ambos. Há seis décadas, no Concílio Vaticano II, o então patriarca melquita de Antioquia, Máximo Saigh IV, tinha proposto que houvesse um “sínodo permanente” com duas dezenas de bispos de todo o mundo para acompanhar o Papa no governo da Igreja; será que algum passo semelhante será decidido? Ou será que os cardeais (245, incluindo uma centena acima dos 80 anos) afrontarão temas difíceis para o interior do catolicismo? Luigi Sandri, reputado vaticanista italiano, recordava alguns desses temas num artigo publicado segunda-feira, dia 5.

Desde logo, uma sinodalidade efectiva que dê protagonismo e lugar de participação aos leigos no interior das comunidades e não se fique pela retórica; uma renovação da liturgia que a coloque em diálogo com as diferentes culturas; mas também o acesso das mulheres aos ministérios ordenados; a possibilidade de ordenar homens casados para o serviço às comunidades; a erradicação da cultura narcisista-clerical de que o Papa Francisco falava, em 2018, na carta aos bispos do Chile, e que tem permitido os abusos e a violência contra menores, mulheres e vulneráveis; a transparência nas finanças da Igreja, desde o Vaticano às mais pequenas comunidades, paróquias e serviços; e um compromisso indefectível com o cuidado da casa comum, a não-violência, o combate à miséria, o desarmamento mundial e a construção efectiva da paz e de um sistema justo nas relações internacionais – concretizando os votos de Leão de um legado jubilar fundado na redistribuição de bens e no fim da “indústria da guerra” e não reduzindo a lógica da “defesa da vida” à luta contra o aborto e a eutanásia, como tantos católicos insistem em fazer.

Daqui a dois dias, com o fim do consistório, começa verdadeiramente o pontificado de Leão XIV. Poderemos então perceber, para além das importantes e relevantes declarações que este Papa tem feito sobre a paz, por onde irá a Igreja Católica e a sua liderança.

Para vários destes temas – nomeadamente a paz no mundo e a sinodalidade na Igreja, com todas as suas implicações – pode ser tarde, demasiado tarde, esperar por um próximo consistório ou Jubileu. Oxalá o compromisso de muitos seja um obstáculo a tais desilusões.

 

P.S. – Estes acontecimentos coincidem com a data em que assinalamos sete anos de existência pública do 7MARGENS. Sem nenhum auto-elogio, cabe-nos agradecer o apoio que temos tido de muitos leitores e colaboradores. Ambos são o sustentáculo que tem permitido a existência desta frágil, mas consistente experiência. Da nossa parte, prometemos continuar a fazer um jornalismo que nos honre, que lute pelos valores que nos norteiam – alguns dos quais se traduzem em temas atrás enunciados – e a desenvolver projectos que contribuam para o debate sobre questões pertinentes das religiões e das sociedades. Um bom oitavo ano com todas as pessoas que nos acompanham são os nossos votos de aniversário. O anúncio de algumas novas ideias e iniciativas virá a seu tempo.

 

(Este texto é uma versão ampliada de um artigo publicado na edição de Dezembro da revista Fátima Missionária)

 

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