O Ramadão aproxima-se – e com ele a expectativa serena e profunda de milhões de muçulmanos em todo o mundo. Trata-se do nono mês do calendário islâmico – um calendário lunar – que, ao contrário do convencional calendário gregoriano, recua cerca de onze dias todos os anos e se inicia com a observação da lua nova, todos os meses. Mais do que uma observação religiosa, o Ramadão é um tempo marcante de renovação pessoal, familiar e espiritual.
Na tradição islâmica, este mês assinala o início da revelação do Alcorão, a escritura sagrada do Islão. Por isso, é celebrado anualmente como um período de regresso ao essencial – à fé, à consciência e ao propósito. Durante estes dias cumpre-se o terceiro pilar do Islão: o jejum. Este é obrigatório para todos os crentes adultos, homens e mulheres, que tenham condições físicas para o cumprir. Estão dispensados os doentes crónicos, as grávidas, as crianças, os viajantes e todos aqueles que, por razões de saúde, não o consigam fazer, podendo, conforme o caso, compensar os dias mais tarde ou contribuir com uma compensação simbólica destinada a apoiar pessoas em situação de necessidade.

“Mas o Ramadão é muito mais do que a abstinência de comida e bebida. É, acima de tudo, um convite – quase uma exigência interior – para parar. Parar num mundo que não pára. Suspender, por momentos, o ritmo acelerado da vida e entrar num espaço de introspecção, silêncio e consciência.” Foto: Muçulmanos no Ramadão. © Emman A. Foronda / Wikimedia Commons
Mas o Ramadão é muito mais do que a abstinência de comida e bebida. É, acima de tudo, um convite – quase uma exigência interior – para parar. Parar num mundo que não pára. Suspender, por momentos, o ritmo acelerado da vida e entrar num espaço de introspecção, silêncio e consciência. Desde a madrugada até ao pôr do sol, o muçulmano abstém-se de alimento, água, tabaco e relações conjugais. Este afastamento do físico não é um fim em si mesmo, mas um meio: libertar a mente, clarificar o espírito e “recalibrar” o coração. E o mais extraordinário nisto tudo é que o mundo islâmico inteiro está em sintonia, engrenado à mesma velocidade, quase em uníssono, num ciclo constante de oração, jejum, meditação, durante um mês. Sim, de Jacarta até Casablanca, de Los Angeles até Lisboa, de Meca até Oslo. Milhares de milhões de crentes muçulmanos estão sintonizados no mesmo modo, na mesma energia única.
Mas o que torna o jejum num momento solene é que, ao privar o corpo, desperta-se a consciência. A energia que habitualmente se dispersa na rotina diária é redirecionada para a reflexão, para a meditação e para a leitura e contemplação do Alcorão. As noites ganham um significado especial: são momentos de oração, de recitação e de ligação íntima entre o ser humano e o seu Criador. Em todas as mesquitas há um hafiz – memorizador do Alcorão – que dirige orações nas quais recita em cada noite uma trigésima parte do mesmo, de forma a completar a recitação total ao final do mês, honrando uma tradição que remonta os primórdios do Islão, e acima de tudo mantém vivo o contacto direto dos crentes com a Escritura, pois é ela precisamente a razão de o Ramadão existir.
Paradoxalmente, embora o jejum seja um exercício de contenção, o Ramadão é também um tempo de partilha. As mesas enchem-se no momento da quebra do jejum, o iftar, muitas vezes em família, entre amigos ou em comunidade. E, com a comida, cresce também a caridade. Alimentam-se os necessitados, reforça-se a solidariedade e recorda-se que o sustento é, antes de tudo, uma dádiva. Ao sentir na própria pele a fome e a sede, mesmo que temporariamente, o ser humano aproxima-se da realidade de tantos que vivem essa condição diariamente, e para quem a fome é rotina. É nesse reconhecimento que nasce a empatia – e, muitas vezes, a transformação interior.

“Para quem observa de fora, o Ramadão pode parecer apenas um ritual religioso. Mas, na sua essência, é uma escola de humanidade. Ensina disciplina, gratidão, autocontrolo, generosidade e compaixão.” Foto: Pormenor de painel de azulejos na Mesquita Central de Lisboa, com os atributos de Deus. © António Marujo
Há mais de catorze séculos que o Ramadão é vivido e celebrado por comunidades muçulmanas em todos os continentes, cada uma com a sua cultura, a sua língua e a sua gastronomia. O Islão não é monolítico; é plural e diverso, e essa diversidade manifesta-se também neste mês sagrado. Em Portugal, muçulmanos de origens variadas – dos provenientes das antigas comunidades lusófonas aos mais recentes migrantes do subcontinente indiano e de outras regiões – vivem o Ramadão nas mesquitas, nos iftars coletivos e no convívio comunitário, mantendo viva uma tradição espiritual comum. Seguindo à risca a tradição profética – que é acima de tudo abrâamica –, o jejum é quebrado com água e tâmaras, acompanhada de uma prece agradecendo a Deus pela dádiva de poder quebrar o jejum, cuja tradução é: “Ó Deus, por Ti jejuámos, em Ti acreditámos, em Ti confiámos e com o Teu sustento quebramos o jejum, aceita-o da nossa parte.”
Para quem observa de fora, o Ramadão pode parecer apenas um ritual religioso. Mas, na sua essência, é uma escola de humanidade. Ensina disciplina, gratidão, autocontrolo, generosidade e compaixão. Recorda-nos que o verdadeiro crescimento não está no excesso, mas no equilíbrio; não no ruído, mas no silêncio; não apenas no que possuímos, mas no que somos capazes de partilhar.
Num mundo frequentemente marcado pela pressa, pelo individualismo e pela saturação material, o Ramadão propõe algo simples e profundamente humano: parar, refletir, cuidar do outro e regressar ao essencial. E talvez seja por isso que, ano após ano, continua a inspirar não apenas os muçulmanos, mas todos aqueles que procuram sentido, paz e propósito.
Mohammed Ibrahim é um português descendente de terceira geração da diáspora indiana oriunda de Moçambique. Teólogo, investigador, comentador na Antena 1, tem participado em iniciativas de debate religioso e inter-religioso, em Portugal e no estrangeiro.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.










