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Peter Stilwell, Teologia,
Peter Stilwell na entrevista ao programa Rostos e Rumos, do 7MARGENS e TSF. Foto © António Marujo

Entrevista “Rostos e Rumos”

Peter Stilwell, o padre que praticou aikido e que dialoga com todas as religiões

A hierarquia católica “ouve a sacristia” e “o risco é esse, é [de] ouvir a sacristia”, diz o padre Peter Stilwell, teólogo, que já praticou aikido, foi vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa e reitor da Universidade de São José, em Macau, em entrevista ao programa Rostos e Rumos, uma parceria do 7MARGENS e da TSF.

Recordando a sua experiência de assistente dos movimentos estudantis de Acção Católica (Juventude Universitária em 1979 e Movimento Católico de Estudantes em 1982), Peter Stilwell diz que, quando foi nomeado, ainda eram “bastante fortes” os “ecos do 25 de Abril de 1974 no meio universitário”.

As escolas do ensino superior continuavam “a ser um grande lugar de fermentação de ideias, de reflexão” e acompanhar os estudantes foi, para o ainda jovem padre (tinha sido ordenado padre em 1973) “um abrir de olhos”.

Houve um reverso da medalha: a hierarquia católica esqueceu o papel de muitos leigos que passaram pela Acção Católica e que contribuíram para que a transição provocada pela Revolução de 1974 tivesse sido pacífica: “Em boa parte isso devia ser atribuído também à capacidade que as pessoas tinham na agricultura, nos lugares de trabalho, etc., de se juntarem, discutirem ideias, votarem os seus líderes”. Ou seja, “havia uma experiência democrática vivida no país que passou em boa parte pela Igreja”. Mas os bispos, na altura, “os bispos tiveram medo de que pela Acção Católica entrasse o marxismo dentro da Igreja e, mais ou menos, tiraram o tapete à Acção Católica”.

 

Tema proibido em Roma

Peter Stilwell: a sinodalidade proposta pelo Papa Francisco “tem sido desviada muito para as discussões internas da Igreja”. Foto © António Marujo/7MARGENS.

Essa questão liga-se ainda, na história de Peter Stilwell, a um outro elemento: em 1977, propôs a Teologia da Libertação, corrente que nascia na América Latina, como tema para a sua tese de doutoramento na Universidade Gregoriana, em Roma. Tratava-se de perceber uma teologia feita “a partir dos lugares em que as pessoas vivem”, fossem eles “uma faculdade de medicina, uma faculdade de letras, uma faculdade de direito, em que as pessoas estavam a debater-se como reestruturar o país, como lançar um Sistema Nacional de Saúde, enfim, todas essas grandes questões que vieram a seguir ao 25 de Abril”. O tema não foi aceite pelo conselho científico da Universidade Gregoriana.

Foi essa ideia da formação dos católicos que se perdeu pelo caminho, admite. Ainda em 2023, envolvido na Jornada Mundial da Juventude de Lisboa, percebeu que “há vontade de fazer coisas” nessa área, mas que se deveria recuperar “alguma coisa da experiência anterior”.

“Não terá sido por acaso que o Papa Francisco lançou a ideia da sinodalidade”, acrescenta Peter Stilwell. “Essa ideia da sinodalidade vai um pouco nesta linha. Ela tem sido desviada muito para as discussões internas da Igreja: mulheres ordenadas, a organização das paróquias…” Mas “aquilo que o laicado traria para a Igreja – e era isso, penso eu, que o Papa Francisco tinha como intuição – é como é que um médico católico vive a experiência no interior do [Hospital de] Santa Maria, como é que o engenheiro vive a sua experiência, como é que essa experiência entra para a Igreja de maneira que seja matéria de reflexão, eventualmente depois de dar pistas por parte da hierarquia”.

Precisamente sobre a questão das mulheres, Peter Stilwell recorda que a reflexão sobre o acesso destas ao ministério de diácono tem estado a ser travada. “Há uma reflexão teológica por fazer” e ele próprio, admite, perfilha ideias que não serão talvez as mais ortodoxas, mas que “remontam a São Paulo”, ironiza. E contesta a ideia tantas vezes difundida de que só os homens podem ser padres porque Jesus era homem.

 

Salazar não casou e foi um desastre para o país

Peter Stilwell: a teologia de Bultmann, tema da sua dissertação em teologia, nasceu da falta de resposta da pregação cristã às angústias provocadas pela guerra. ”Foto © António Marujo/7MARGENS.

Nascido em Lisboa em 1946, Peter Damian Francis Stilwell foi colega, na escola primária, do ex-Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, embora em anos diferentes. Esteve em Inglaterra na Oratory School, fundada pelo cardeal Newman no final do século XIX, e em 1965 entrou para o Seminário Maior dos Olivais, do Patriarcado de Lisboa. Quatro anos depois, rebentou uma crise na escola de formação de padres, no fim da qual Stilwell foi um dos 30 que regressou, entre os 180 que ali estavam.

Durante esses anos de seminarista, o padre Stilwell recorda uma visita do então cardeal Gonçalves Cerejeira aos Olivais. O patriarca reuniu os alunos de Lisboa e contou-lhes: “Quando o doutor Salazar foi convidado a voltar para Lisboa – porque já tinha estado em Lisboa – para ser presidente do Conselho, ele quis falar comigo. Fui a Coimbra, conversámos, e eu disse-lhe: ‘Oh António, casa-te, porque se não te casares, casas-te com a nação e será um desastre para ti e para a nação’…”

O percurso académico de Peter Stilwell foi diversificado: bacharelato canónico em 1972, dissertação em 1975, sobre a Ressurreição na teologia de Rudolf Bultmann, doutoramento em teologia sobre A Condição Humana em Ruy Cinatti, que deu origem ao livro (edição Presença) com esse título.

Sobre o alemão Bultmann, diz que ele “introduziu um dizer [de] que era preciso desmitologizar as escrituras – é muito interessante que isso nasce da sua função como capelão na primeira guerra mundial, em que ele se dá conta de que o tipo de pregação que ele tinha aprendido no seminário, não respondia àquilo que eram as angústias das pessoas que estavam nas trincheiras na linha da frente”.

Cinatti, que era amigo dos pais, esteve em Timor-Leste e percebeu “o desfasamento” entre a administração colonial portuguesa e a vida das populações locais. “A população timorense tinha com a sua terra [uma relação] muito mais sábia, muito mais profunda do que aquela dos colonos que chegavam interessados em desenvolver, por exemplo, café em Timor e que deitavam abaixo árvores centenárias.” Ou seja, ainda nos anos de 1950, Cinatti “começa a propor um desenvolvimento sustentável ao nível da agricultura e pede para poder ir para a Inglaterra estudar antropologia para poder perceber como é que se faz esta fusão entre a ciência e a técnica ocidentais e aquilo que é essa sabedoria cultural dos timorenses”.

De professor associado, Peter Stilwell passou a director da Faculdade de Teologia e a vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa (2008-2012) e reitor da Universidade de São José, em Macau (2012-2020), criada pela diocese católica do território.

 

As igrejas nas praças públicas

Peter Stilwell: “As igrejas foram sempre construídas nas praças públicas, que eram os lugares das feiras que, hoje em dia, são os grandes centros comerciais” Foto © António Marujo/7MARGENS.

Ordenado padre em 1973, Stilwell, pelo cardeal António Ribeiro, então patriarca de Lisboa. Começa a atividade pastoral como assistente da JUC, a Juventude Universitária Católica e, em 1979, passa a dirigir também o Centro Universitário Católico. Em 1982, passa a responsável da Capela do Rato e é nomeado assistente nacional do MCE, Movimento Católico de Estudantes, saído da fusão da JUC e da Juventude Estudantil Católica. Anos mais tarde, depois do assassinato do padre Alberto Neto, publicou um livro com textos e testemunhos sobre o antigo capelão do Rato, recentemente reeditado com o título Testemunhos de uma Voz Incómoda (Paulinas Editora).

Foi ainda assistente eclesiástico da Rádio Renascença e é também responsável da Capela do centro comercial das Amoreiras. “As igrejas foram sempre construídas nas praças públicas, que eram os lugares das feiras, os lugares do comércio. As feiras, hoje em dia, os lugares públicos, são os grandes centros comerciais”, diz na entrevista.

Outra das suas áreas de intervenção tem sido o diálogo ecuménico e inter-religioso, cujo departamento do Patriarcado dirige desde 2002, apenas tendo interrompido quando esteve em Macau. Nesse âmbito, integra também o Grupo de Trabalho Inter-Religioso coordenado pela AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo).

De ascendência inglesa, Peter Stilwell recorda na entrevista as suas origens familiares e a vinda do seu avô para Portugal, para trabalhar com um tio. E fala das suas músicas e compositores preferidos, desde Chopin até à influência dos Beatles na sua geração.

A entrevista integral pode ser ouvida na página da TSF.

 

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