Um apelo a políticas migratórias mais humanas e a afirmação de que a Igreja ainda tem muito a fazer no combate aos abusos sexuais, mas que pode partilhar a experiência já tida “com outras instituições da sociedade, ao serviço do bem comum, na prevenção, no cuidado e na proteção dos mais vulneráveis”. Estas foram duas das ideias do ainda presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) no seu último discurso enquanto detentor daquele cargo, fazendo um balanço dos dois mandatos que agora terminam.
Na terça, 14 (ou na quarta-feira, já que plenário poderá decidir alterar o horário), os bispos irão eleger os novos responsáveis da presidência, conselho permanente e comissões sectoriais da CEP.
Para substituir o bispo de Leiria-Fátima as escolhas mais prováveis podem sair de uma tripla, concordam vários bispos e observadores ouvidos pelo 7MARGENS: o patriarca de Lisboa, Rui Valério; o arcebispo de Braga, José Cordeiro; o bispo de Coimbra e actual vice-presidente, Virgílio Antunes. Uma quarta hipótese foi avançada por alguns: o bispo de Setúbal, cardeal Américo Aguiar, se a opção fosse por alguém com capacidade de realização rápida; mas algumas fontes consultadas dizem que há bispos que preferem outro ritmo e outra estratégia.
Já quanto às outras três hipóteses, as expectativas são diferenciadas e geralmente positivas, embora o bispo de Coimbra tenha uma presença e temperamento mais reservados que o patriarca ou o arcebispo. De resto, Lisboa é a capital e, desde que foi criada há praticamente 60 anos, a presidência da Conferência Episcopal tem oscilado entre o patriarca de Lisboa e outro bispo, quando aquele já não pode ser eleito – foi o caso dos bispos de Aveiro (Manuel Trindade), Coimbra (João Alves), Braga (Jorge Ortiga) e Setúbal/Leiria (José Ornelas). Nesta lógica, agora poderia ser a vez do patriarca Valério.
“Nada justifica processos desumanos” nas migrações

Pormenor da escultura Angels Unawares (Anjos desconhecidos), instalada na Praça de São Pedro: o presidente da CEP disse que “legitimar a exclusão contradiz o Evangelho”. Foto © 7MARGENS.
No último discurso de abertura da assembleia neste final do segundo mandato como presidente, o bispo José Ornelas referiu-se à questão das migrações: “Regular os fluxos migratórios é necessário, mas nada pode justificar processos desumanos, tempos de espera humilhantes ou formas de integração insuficientes”, afirmou.
Algumas das ideias do discurso – neste e em outros temas – tinham sido sublinhadas já numa longa entrevista dadas neste domingo ao programa Setenta Vezes Sete, da agência Ecclesia/RTP, que pode ser vista no canal YouTube.
Na intervenção, o bispo vincou que “legitimar a exclusão, a hostilidade ou o desprezo são atitudes que contradizem o Evangelho e que não contribuem para a afirmação de uma sociedade justa, aberta e a pensar num futuro melhor para si e para o mundo.”
Ao mesmo tempo, José Ornelas defendeu que os imigrantes têm dado “um contributo fundamental para a sustentabilidade” de Portugal. E uma “sociedade justa reconhece nos migrantes pessoas concretas que têm um rosto, que procuram um futuro de esperança e dignidade”, e tantas vezes vítimas de burocracia, acrescentou.
O presidente da CEP referiu-se também às dificuldades do país em diferentes áreas, muitas vezes provocadas pela situação mundial: “A guerra, a instabilidade internacional e as suas consequências sobre o nosso dia-a-dia, a pobreza crescente, a fragilidade de tantas famílias, as dificuldades de acesso à habitação e à saúde, o desencanto de muitos jovens e o sofrimento silencioso e solitário de tantas pessoas idosas interpelam-nos e recordam-nos que a Igreja deve permanecer junto das feridas e esperanças da sociedade.”
Uma tal situação gera “cansaço e desconfiança, e abre espaço a populismos e a formas de fazer política que se alimentam mais do medo e da manipulação do que da busca sincera de soluções”.
Outro tema abordado pelo bispo José Ornelas foi o dos abusos. “A Igreja em Portugal precisa de consolidar uma verdadeira cultura de protecção e cuidado”, afirmou. “Não se trata apenas de responder ao passado, mas de mudar práticas, reforçar a prevenção e tornar a Igreja num lugar seguro e mais coerente com aquilo que professa.”
A estrutura católica tem “ainda muito a aprender”, mas o presidente da CEP oferece um outro lado: a Igreja também “adquiriu uma experiência que pode ser partilhada com outras instituições da sociedade, ao serviço do bem comum, na prevenção, no cuidado e na proteção dos mais vulneráveis”.
Ao mesmo tempo, Ornelas lamentou as notícias “sobre posições individuais dos membros da assembleia, sem respeito pela realidade e a verdade dos factos, como aconteceu nos últimos dias” como lamentáveis e injustas”. Recorde-se que, na semana passada, o Expresso referiu que o valor das compensações dadas a seis dezenas de vítimas tinha sido reduzido para metade do valor proposto pela Comissão de Fixação das Compensações. E o 7MARGENS noticiou que vários bispos tinham estado na linha da frente da defesa dessa redução. O bispo Ornelas, no entanto, defende que foi diferente o que se passou: “Neste como noutros casos, os membros da assembleia exprimem-se livremente na diversidade legítima dos seus pontos de vista, mas tem sido sempre possível chegar a uma solução que passa a ser a decisão da assembleia. Esse é o nosso modo de trabalhar, que me parece normal em qualquer órgão colegial e sinodal.”
Vítimas “no centro” e há mais pessoas a queixar-se

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), bispo José Ornelas, durante o seu último discurso no cargo, fazendo o balanço dos dois mandatos. Foto © Agência Ecclesia/MC
No resto da sua intervenção, o presidente da CEP destacou que as vítimas estiveram “no centro” do pensamento e acção dos bispos, que “a dor não se paga e que a “tolerância zero” aos abusos tem de ser “mais do que uma fórmula dita: tem de tornar-se critério permanente de coerência evangélica e de responsabilidade institucional”.
No sábado, acerca deste tema, a coordenadora do Grupo Vita disse aos jornalistas, no âmbito do encontro das Comissões Diocesanas de Protecção de Menores e Adultos Vulneráveis, que “têm surgido alguns novos casos” de queixas de pessoas que claramente, procuram ajuda, não pensando na compensação financeira”.
No discurso de balanço, o presidente da CEP referiu-se aos acontecimentos destes seis anos de mandato: a pandemia, a Jornada Mundial da Juventude, o Sínodo sobre a Sinodalidade… “Períodos particularmente exigentes para a Igreja e para o país”, afirmou, “anos de aprendizagem e de purificação, mas também de alento e de esperança”.
A Conferência Episcopal, instituída depois do II Concílio do Vaticano II (1962-65) como todas as outras que existem, reúne todos os bispos do país (titulares, auxiliares e eméritos). Tem estatutos aprovados em 1967 e revistos por quatro vezes. Pretende ser um órgão colegial de consulta e decisão, mas em muitas matérias os bispos mantêm autonomia total nas suas decisões. Para esta 214ª assembleia, que se prolonga até quinta-feira, a ordem de trabalhos prevê, além das eleições, o debate sobre dois documentos: um sobre o quadro de referência da Pastoral Juvenil em Portugal e outro sobre o oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis. O ponto de situação do processo sinodal, da questão da protecção de crianças e adultos vulneráveis são outros dois pontos em debate.










