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“O perigo do ressurgimento da extrema-direita existe”, diz realizadora de filme sobre Steve Bannon

| 28/10/2019

“O perigo do ressurgimento da extrema-direita existe”, diz realizadora de filme sobre Steve Bannon

by | 28 Out 19 | Cinema, televisão e média, Cultura e artes - homepage, Estado, Política e Religiões, Últimas

“The Brink” não é um filme que desconstroí a retórica de Bannon, mas pretende mostrar o homem por detrás da ideologia que defende. Foto © Thor Brødreskift/Nordiske Mediedager-Wikimedia Commons

 

“Eu estava ali a falar com ele sobre o Holocausto, toda arrepiada a pensar: ‘Meu Deus, o que ele me está a descrever não está longe das reuniões em que participa’”. Alison Klayman, cineasta norte-americana que teve a oportunidade de gravar o dia-a-dia de Steve Bannon, conta deste modo a forma como olhou para o antigo presidente executivo do website de notícias Breitbart e arquiteto da vitória de Donald Trump nas presidenciais norte-americanas de 2016.

Klayman, de 35 anos, realizou o filme The Brink, que estreou quinta-feira, 24 de outubro, no festival DocLisboa. Este filme, afirma a realizadora numa entrevista ao Expresso, não pretende expor o auto-proclamado ideólogo do populismo transatlântico, mas antes focar a câmara sempre em Bannon. E, por vezes, descreve ainda, “mostrar os seus olhos vermelhos cansados, as gotas de suor em redor da linha capilar, a barba por fazer, as unhas roídas”. Demonstra um homem inseguro da sua situação. Permite ver alguém no limiar do precipício e perceber que as coisas estão bem diferentes.

“Em criança eu tinha pesadelos com o nazismo, eu era uma vítima e tentava fugir deles”, descreve Klayman, “mas fui crescendo e comecei a aperceber-me de que os nazis foram pessoas e não monstros, a aparência deles é igual à nossa. Há uma cena no filme na qual o Bannon está sentado à mesa de jantar com vários representantes da extrema-direita e é impossível não pensar na conferência de Wannsee, uma reunião de nazis onde foi decidido o extermínio em massa dos judeus. “Nessa noite fui para o quarto de hotel, com uma garrafa de vinho que eles tinham deixado, liguei ao meu marido e disse: ‘Bom, não sei se acabei de filmar a próxima conferência de Wansee ou um bando de pessoas a comer’”.

 

“Estas visões deixaram de ser ficção, o perigo existe”

Para Klayman estas visões deixaram de ser ficção: o perigo do “ressurgimento da extrema-direita existe, já não é um medo”. “Eles existem nos Estados Unidos, na Europa e onde quer que possam estão a lutar pela implantação destas políticas que diabolizam ‘o outro’ e fecham fronteiras, que usam quem é diferente para explicar os males da sociedade.” Também afirma que a força dos movimentos de extrema-direita só existe na medida que a sociedade permite, dai existir uma certa resistência.

Para a cineasta, o filme deve ser interpretado como “uma espécie de alerta” e “história verdadeira a acontecer em frente” à câmara. “Há muitas coisas que eu filmei que não são nada de especial ou então já foram vistas muitas vezes, ou então são coisas que o próprio Bannon podia querer que eu transmitisse.”

Uma das maiores dificuldades que enfrentou durante a gravação era a incógnita sobre com quem Bannon poderia encontrar-se e se poderia filmar o encontro. “Foi uma estratégia diária, mas ele ajudou-me bastante porque perguntava às pessoas se não queriam entrar no meu filme”, diz Klayman. “A chave para conseguir que ele concordasse foi a minha produtora, que já tinha trabalhado com ele, quando ele não estava envolvido na política e era uma espécie de financeiro que queria ser um magnata da comunicação social.”

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