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Os militantes da JOC têm participado todos os anos nas manifestações do Dia do Trabalhador. Foto JOC
Os militantes da JOC têm participado todos os anos nas manifestações do Dia do Trabalhador. Foto © JOC

90 anos em Portugal e 100 no mundo

Enquanto houver um jovem trabalhador explorado, a JOC vai continuar… mesmo com pouco apoio da Igreja

| 30/04/2026

A Juventude Operária Católica (JOC) celebra 90 anos em Portugal – e 100 anos no mundo – num momento em que a precariedade laboral e a crise da habitação asfixiam os projetos de vida de uma nova geração. Em vésperas da celebração de mais um Dia do Trabalhador – que será também assinalado pela JOC – o 7MARGENS ouviu o seu presidente nacional, Pedro Esteves, o assistente eclesiástico, padre Pedro Lima, e a antiga dirigente Maria João Martins. O resultado destas três conversas é um cruzar de memórias de resistência com um diagnóstico contundente sobre um presente em que o movimento tem menos militantes e apoios – nomeadamente da hierarquia da Igreja Católica – mas nem por isso perde pertinência. Dos “novos pobres” à alienação do teletrabalho, a JOC reafirma a atualidade e necessidade do seu método “Ver, Julgar e Agir”. E que não restem dúvidas: enquanto houver um jovem trabalhador explorado, a missão da JOC está longe de terminar.

Presente nas dioceses do Porto, Aveiro, Leiria-Fátima, Santarém e Lisboa, a JOC conta atualmente, em Portugal, com apenas uma dezena de militantes, outros dez jovens em iniciação, e diversos grupos de base nas paróquias. Embora os números sejam distantes das multidões de outrora, Pedro Esteves sublinha que o que continua a definir a JOC é a sua estrutura orgânica e a recusa de diretivas impostas. “Aquilo que os grupos refletem não vem de algum tipo de ordem superior; vem da realidade concreta de cada grupo. Se um grupo sente que a habitação é a sua realidade, é a partir daí que vai trabalhar”, explica o dirigente. É esta dinâmica que permite aos jovens elevar dificuldades locais até às instâncias de decisão nacional e torná-los “protagonistas da sua própria vida”, à luz dos valores do Evangelho.

E se “a situação dos jovens trabalhadores e afetos ao mundo do trabalho por um lado pode aparentar que melhorou, com salários mais altos do que há algum tempo, mais possibilidade de ter escolaridade superior para seguirem a carreira profissional que realmente querem e haver uma situação quase de pleno emprego, a verdade é que por outro lado as condições dos jovens continuam degradantes”, assinala Pedro Esteves.

Além disso, “temos também uma proposta de alteração à lei laboral que vem trazer ainda mais desafios à dignidade dos trabalhadores”, diz o jovem dirigente, defendendo por isso que, neste contexto, “a JOC continua a ter uma importância brutal”.

Esta visão é corroborada pelo assistente eclesiástico do movimento, o padre Pedro Lima, que sublinha a importância da JOC como um espaço privilegiado para a formação da personalidade num período sensível. “Nesta fase, é saudável que os jovens estejam inseridos em movimentos e grupos. A JOC pode ser um bom contributo para os que pretendem assumir um compromisso sério com a fé, numa dinâmica evangélica que promova a justiça social e a emancipação”, afirma. Para o presbítero, o movimento não é apenas um grupo de reflexão, mas uma escola onde se aprende a “julgar a realidade à luz da pessoa de Jesus Cristo”.

 

Memórias de luta e “dores” de crescimento

Mas, para melhor compreender a JOC de hoje, é preciso olhar para as décadas de 80 e 90. Maria João Martins, antiga coordenadora nacional, recorda o esforço de “calcorrear o país” para apoiar grupos e expandir o movimento num tempo em que a condição operária começava a mudar com a entrada de mais estudantes filhos de trabalhadores. “Isso obrigou-nos a repensar como reconhecer a característica operária num mundo em mudança, pondo em evidência a denúncia de tudo o que não respeitasse a dignidade do trabalho”, explica a antiga dirigente.

Maria João recorda também momentos de grande tensão institucional, como a divisão da JOC Internacional em 1986. Para ela, a ingerência da hierarquia e do Vaticano nesse processo teve custos pesados que ainda hoje se sentem. “O tempo demonstrou que o objetivo era fragilizar a JOC. Com esta divisão perdeu a JOC, perderam os jovens trabalhadores e a Igreja perdeu os jovens do mundo do trabalho e popular”, lamenta, notando que a opção por grupos de base paroquial em vez de operária, em muitos casos, esvaziou a missão transformadora do movimento.

 

A “praga” da precariedade, “celas domésticas” e “novos pobres”

Participação de uma militante da JOC no Encontro Jubilar do Mundo do Trabalho da Diocese de Lisboa a 1 outubro 2025. Foto fotopmp

Uma militante da JOC falou sobre os desafios que se colocam aos jovens durante o Encontro Jubilar do Mundo do Trabalho da Diocese de Lisboa, a 1 de outubro de 2025. Foto © @fotopmp

E a missão transformadora da JOC “tem uma importância como nunca teve”, arrisca dizer Pedro Esteves, ao mesmo tempo que denuncia o que descreve como a “praga de contratos a termo” e a alienação crescente no trabalho vividas pelos jovens. “Grande parte dos trabalhadores sente que ir para o trabalho é uma obrigação, ao invés de sentir que está a ir para um trabalho que o faça sentir útil para a sociedade. Para além disso, todos os dias é expropriado e alienado daquilo que produz e da sua comunidade”, afirma o atual presidente da JOC.

Maria João Martins partilha um episódio pessoal que vem reforçar esta análise. “Um jovem dizia-me: ‘No teu tempo, com o salário mínimo, conseguiste comprar casa, carro, casar e ter filhos. Hoje, eu com o mesmo salário mínimo não consigo sequer sair de casa dos meus pais e saber se amanhã ainda tenho trabalho'”, cita a antiga dirigente, concluindo que os jovens são, hoje, os “novos pobres” numa sociedade que acentuou desigualdades gritantes.

O padre Pedro Lima concorda e acrescenta, por seu lado, que a especialização laboral muitas vezes “desfavorece tantos jovens que não enveredam pelo ensino superior, ficando confinados a um tipo de trabalho que apenas permite o salário mínimo”.

Em tempo de balanço, o movimento aponta também baterias às novas formas de organização laboral. Pedro Esteves alerta para o perigo do teletrabalho, em que muitos jovens se encontram, por este poder gerar uma “atomização do trabalhador”. “Se nunca saímos do nosso local de trabalho, acabamos por nunca nos conseguir desligar dele. Não ‘picamos o cartão’ para sair. Estamos potencialmente sempre a postos para trabalhar”, alerta. Para a JOC, é preciso garantir que o trabalho não se transforma numa cela doméstica onde o jovem se sente apenas uma “besta de carga”. Ao contrário, o trabalho deve ser um “espaço comunitário de partilha”, defende o presidente.

O assistente eclesiástico acrescenta que esta falta de autonomia e a precariedade geram “jovens ressentidos, sem esperança no futuro e cada vez mais suscetíveis às fáceis respostas da populista extrema-direita”. Por isso, o padre Pedro Lima vê a JOC como uma alternativa para quem quer assumir um “estilo de vida comprometido e militante”, combatendo a falta de espírito crítico perante a realidade.

 

Ligação com hierarquia da Igreja tem sido “ponto crítico”

Dirigentes da JOC com o padre Pedro Lima

Os dirigentes da JOC com o padre Pedro Lima, durante uma visita aos Açores, em 2025. Foto © JOC

Antes da nomeação do padre Pedro Lima como assistente eclesiástico da JOC, em setembro de 2024, o movimento chegou a atravessar um período de sete anos sem assistente. Questionado sobre a relação com a hierarquia da Igreja Católica, Pedro Esteves é frontal: “Infelizmente, sentimos pouco apoio por parte da hierarquia da Igreja. Acho que temos o apoio de alguns padres em particular (antigos assistentes e conhecidos da JOC), mas não de forma institucional. Sinto que falta apoio, por exemplo, na divulgação das nossas atividades e iniciativas para poder chegar a mais jovens, falta presença eclesiástica no mundo do trabalho (foi assim que o padre belga Joseh Cardijn, o nosso fundador, chegou aos trabalhadores, indo ter com eles), falta comunicação connosco para sabermos das atividades que se vão realizar, para podermos estar presentes e fazermos o nosso trabalho de ir ter com os jovens, falta até apoio financeiro para podermos realizar a nossa missão que é um pouco dispendiosa em termos de tempo e de recursos, pois envolve muitas deslocações e muito tempo”, confidencia ao 7MARGENS.

O próprio padre Pedro Lima reconhece que a ligação da hierarquia da Igreja com a JOC tem sido um “ponto crítico” e que essa mesma hierarquia “tem dificuldade em acompanhar todos os movimentos e carismas”. Para o também pároco de Santa Luzia (Angra do Heroísmo, Açores), o assistente tem um papel essencial: deve ser um “alicerce de segurança e confiança”, que vela por um caminho que siga a Doutrina Social da Igreja.

Maria João Martins concorda e reforça: “ter um assistente que é o adulto portador da herança permite assegurar que a JOC continue a ser a escola onde os jovens aprendem a transformar-se para serem fermento na massa”.

 

Rumo a um século de História

Nos dias 11, 12 e 13 de julho os jovens da JOC estiveram reunidos no Centro Escutista “Castelo à Vista” para o Acampamento Nacional da JOC.

Os jovens que estiveram reunidos no Centro Escutista “Castelo à Vista” para o Acampamento Nacional da JOC, no ano passado. Este ano, a iniciativa repete-se em agosto. Foto © JOC

Um encontro nacional realizado recentemente na diocese de Aveiro provou que a JOC é realmente transformadora e deixa marcas indeléveis. “Ver pessoas que saíram do movimento há 30, 40 ou 50 anos e que, ainda assim, se sentiram chamadas a estar presentes é mobilizador”, partilha Pedro Esteves, sem esconder o orgulho.

“Queremos dizer que contam connosco”, sublinha a ex-dirigente Maria João Martins, ao mesmo tempo que assegura que “a JOC pode continuar a ser uma resposta se estiver no meio dos jovens e tiver uma proposta que ofereça os meios para que os jovens possam expressar as suas realidades e terem voz”.

Com esse objetivo, a agenda da JOC segue preenchida, a começar por um encontro já esta quinta-feira, 1 de Maio, Dia do Trabalhador, em Coimbra, subordinado ao tema: “Precariedade Laboral: Que direitos? Que futuro?”. Depois de uma primeira parte de reflexão/formação, os participantes do encontro irão juntar-se à manifestação pública, em Coimbra, com início na Sé. Está também já agendada uma formação sobre a Doutrina Social da Igreja, no próximo dia 10 de junho, em Coimbra, e o grande Acampamento Nacional, de 27 a 30 de agosto de 2026, aberto a todos os jovens, e cujo local será divulgado brevemente.

“Depois teremos mais iniciativas a nível nacional e outras atividades a nível diocesano. Para ficar a par de tudo, recomendo que sigam a JOC no Instagram, para além das páginas de cada diocese ou do site do movimento, onde é possível conhecer mais da JOC, adquirir merchandising e publicações da JOC”, divulga o presidente.

Até porque, depois da celebração dos 90 anos, no horizonte está já o centenário. “Queremos continuar a evangelizar naquilo em que acreditamos que são os valores de Cristo, o amor, a aceitação, o saber que somos dignos e merecedores dessa dignidade, o saber que valemos mais do que todo o ouro do mundo”, afirma Pedro Esteves. “E enquanto houver um jovem trabalhador que seja explorado e/ou que esteja por evangelizar, a JOC continua a ser importante e a ter o seu papel bem definido”, conclui.

 

 

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