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Soldados, guerra. Foto Zeferli
Tentaram justificar a chamada ‘guerra santa’ entre nações, com o conceito da legítima defesa. Mas é injustificável à luz do evangelho de Jesus. Foto © Zeferli

[A Palavra e a Vida]

Ligar Deus à guerra é blasfémia

| 02/05/2026

Recentemente, chefes políticos e militares rezavam para que, na guerra em que estavam envolvidos, Deus abençoasse e ajudasse os próprios soldados a matarem os «maus que não merecem a misericórdia de Deus». Pediam que as armas do seu exército «acertassem» nos inimigos e os vencessem, pretendendo que Deus se envolvesse na guerra e tomasse partido por uns contra outros. Instrumentalizavam a oração num cenário bélico, imaginado e montado com mísseis no céu, com bombardeiros e com tanques de guerra.

Mas, interpretando a Bíblia, há que dizer: quem assim reza dirige-se a uma caricatura de deus, a um ídolo, a uma imagem alienante que usurpa a imagem de Deus transcendente e a ofende. Esse pedido estulto ao fantoche de um (então) falso orante não é oração, nem pode ser escutada por Deus. É “invocação do santo nome de Deus em vão”, tentativa de o manipular. É sacrilégio que atenta contra a dignidade sagrada da pessoa. Metendo Deus na guerra, o que pretendem é moralizá-la e justificá-la. Pretensão vã: quando se tenta justificar a violência, facilmente se resvala para a justificação do crime. Também é vão envolver nela o Deus que já no séc. VIII a.C. foi posto a dizer aquela frase bíblica gravada agora no edifício das Nações Unidas: «Todos os povos dirão: Subamos à montanha do Senhor… Das suas espadas forjarão relhas de arado; e das suas lanças, foices. Uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem se exercitarão mais para a guerra» (Isaías 2,3-4).

Nem os senhores da guerra podem hoje argumentar a seu favor dizendo que, a fazer fé à Bíblia, Deus «precipitou no mar cavalos e cavaleiros» na travessia do Mar Vermelho (Êxodo 15,1-3) e que Ele é chamado «Senhor dos exércitos», um Deus que interveio pela força e ia à frente das tropas de Israel nas batalhas, aniquilando os inimigos e os seus reis (Josué 10). Há que compreender essa linguagem.

É a da fé que estava a aperfeiçoar-se, no contexto religioso de procura da melhor imagem de Deus, na revelação progressiva relatada no Antigo Testamento, em que os deuses das nações em redor eram vistos com traços guerreiros. Porque a fé do povo de Israel, numa atmosfera contemplativa, via os acontecimentos à luz de Deus e via Deus neles, também viu o seu Deus a «combater por ele» (Js 10,42) e a dar-lhe a vitória.

Essa ligação de Deus à guerra era uma interpretação ainda imperfeita da imagem de Deus, que foi sendo corrigida com longa contemplação, meditação e oração. Não era Deus que era violento ou guerreiro. Afinando as lentes da sua fé, as acções violentas que os humanos literariamente atribuíam a Deus eram expressão da violência deles, que ainda o viam assim.

A guerra, na Bíblia, está intricada com Deus por ser uma das experiências humanas com que os autores bíblicos foram pensando, descobrindo e limpando pouco a pouco a imagem do Deus da sua fé: inevitavelmente, Ele revelou-se aos humanos através do que eles eram e faziam na vida.

Mas essa imagem de Deus morreu definitivamente em Jesus, que «no-lo deu a conhecer» (João 1,18) perfeitamente como Pai bondoso de todos os humanos: «Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Mas eu digo-vos: ‘Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem, para vos tornardes filhos do vosso Pai que está nos céus, porque Ele faz despontar o seu sol sobre maus e bons» (Mateus 5,43-45). «Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5,9). Deus continuou o mesmo. A imagem dele é que foi plenamente revelada por Jesus e captada com mais nitidez pelos aderentes a ele.

Capela de S. Brás. Antime. Fafe

Crucifixo da Capela de S. Brás, em Antime (Fafe). “Jesus aceitou voluntariamente morrer na cruz para, com o seu amor, dar sentido último à vida de todos os humanos”. Foto ©  Vítor Araújo

O Deus de Jesus é o Deus da paz. E Jesus aceitou voluntariamente morrer na cruz para, com o seu amor, dar sentido último à vida de todos os humanos, perdoando aos seus algozes, e para que jamais se desse lugar à guerra e à vingança de humanos contra humanos, rompendo a sua lógica ‘diabólica’. Despedindo-se dos discípulos em atmosfera de traição e de violência armada, Jesus insiste na paz: «deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz; não vo-la dou como a dá o mundo» (Jo 14,27), com o mero silêncio das armas ou com um acordo político de não-beligerância, firmado à ligeira. Assumiu em si e rejeitou a violência, cravando-a na cruz. Desde a sua morte inocente, todas as guerras se estilhaçam reprovadas na imagem do Homem crucificado.

Na cruz quebram-se todas as imagens desfocadas de Deus: a do deus guerreiro e castigador e a do ‘Deus omnipotente’ de uma espiritualidade ingénua e imatura. É de joelhos, diante da cruz de Jesus, que comtemplamos o verdadeiro Deus: impotente perante a maldade humana e só omnipotente no amor e no perdão. A associação de Deus à guerra na Bíblia aparece como caminho para afirmar que «Deus é amor» incondicional (1Jo 4,8.16). Um Deus da guerra estaria em contradição com a mensagem cristã.

Esta nem sempre foi entendida. Tentaram justificar a chamada ‘guerra santa’ entre nações, com o conceito da legítima defesa. Mas é injustificável à luz do evangelho de Jesus. Não há guerras santas. Santa é a paz que promove a fraternidade sem fronteiras. Tanto o terrorismo fundamentalista como a guerra contra ele em nome de Deus é blasfémia, porque o insulta, a Ele que é o Deus de Jesus, o Deus da pessoa e na pessoa, o Deus a favor das pessoas, o «Deus por nós» todos (Rm 8,31). E uma religião identificada com um sistema de poder político é alienante. Esquece o essencial na relação com Deus, que é transcendente, puro Mistério, não manipulável nem controlável pela linguagem humana (daí a proibição das imagens materiais de Deus na Bíblia).

Só há uma possibilidade de implicar o verdadeiro Deus nas guerras dos humanos: compreender que Ele não as quer.

 

Armindo Vaz é frade da Ordem dos Carmelitas Descalços, biblista e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica; publicou, entre outros, Em vez de «história de Adão e Eva»: O Sentido último da vida projectado nas origens (Edições Carmelo) e Criação Divina sem pecado humano (Paulinas Editora). Este texto foi inicialmente publicado no Boletim de Espiritualidade dos Carmelitas. O 7MARGENS reprodu-lo por acordo do seu autor e dos responsáveis do Boletim.

 

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