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Autores - Maria Aldina Brás

[Entre Margens]

As noites silenciosas e divinas de Fátima

| 11/05/2026

Caminhávamos de véspera, roupa, cobertores, alimentos à cabeça e nas mãos. Atravessávamos Amor, Conqueiros, Gândara dos Olivais, Leiria, almoçávamos nas escadas da Igreja de Nossa Senhora da Encarnação em Leiria, e continuávamos a caminhar, Cortes, Soutocico, Chainça e lá chegávamos à tardinha à Cova de Iria.

Grupo de peregrinos que se dirigiam a pé a Fátima dias antes da chegada do Papa Paulo VI, para a celebração dos 50 anos decorridos sobre as aparições de 1917. Arquivo RTP / Direitos reservados.

Estendíamos os cobertores no chão do santuário, onde já havia centenas de outros, rezávamos a Maria, comprávamos as velas e entretanto era a hora da procissão das mesmas, a qual transformaria o Santuário no tão bem apelidado “mar de luz”, evidentíssimo sinal divino. E assim ficávamos transcendentalmente embriagadas, caladas, durante toda a noite. Enrolávamos os cobertores à volta do nosso corpo, caminhávamos, em silêncio, pelo recinto, pela colunata… sempre naquele ambiente sagrado, naquela interconexão entre todo o nosso ser, a nossa alma, a nossa vida, o nosso mundo e o mundo dos outros. Completamente conectadas com o divino em nós mesmas e uns/umas com os outros, libertas da nossa racionalidade.

Assim continuávamos até às cerimónias do dia seguinte e por fim o Adeus.

Nunca esquecerei a expressão facial da minha mãe, também ela Maria, toda transpirada porque na hora do Adeus já havia calor, de lágrimas a correr, a misturarem-se com o suor, de lenço branco a acenar e ambas, ela com o marido e eu com o pai, no nosso coração. E tantos outros nos mesmos corações. E agora também tenho de chorar…

Lembro também aquela voz, que associo à de frei Bento Domingues, porque ele lá esteve nalguns períodos de tempo, mas pode ter sido de outro, a consolar alguns anos antes “Não chorem, crianças! Não chorem, que são lágrimas de Nossa Senhora”. Estas palavras fazem parte de mim, tal como a Eterna Feminina que tenho no meu ser, no meu próprio genoma, no meu coração, no meu cérebro.

Aquelas palavras que me transformaram, que me tiraram do desconforto insuportável da tempestade e me deram felicidade, literalmente. Aquelas palavras que me permitiram a passagem das trevas para a Luz.

E sempre, sempre, mesmo fora de Fátima, nos pinhais, nos campos, nos caminhos, nos carreiros, por todo o lado, nós recorríamos a Maria e, menos frequentemente, a outras Entidades Femininas:

“Santa Bárbara Bendita
Que no Céu está escrita
Um raminho de água benta
Para abrandar esta tormenta.
Santa Bárbara se levantou
Seu pé direito calçou
Nossa Senhora encontrou
Esta lhe perguntou:
– “Onde vais Santa Bárbara?”
– “Vou ao Céu espalhar a trovoada
Que anda em cima de nós armada.”
“Espalha-a lá para bem longe,
Onde não haja eira nem beira,
Nem folha de figueira”

Como queria o clero que nós acreditássemos (pelo menos as crianças que pensávamos), em pleno século XX, num Deus que tudo podia, tudo sabia, estava em toda a parte, nos castigava e ralhava com os tais fenómenos naturais, como tempestades, trovoadas e relâmpagos, enquanto tínhamos uma Mãe que chorava como nós?

Aquele Deus, que estava muito longe do Abba/Papá de Jesus, que já tinha vivido vinte séculos antes. E, muito mais ainda, muito longe também das palavras do Papa João Paulo I, “Deus é pai, mais ainda é mãe”, o Papa cuja causa de morte permanece nalgum nevoeiro. O patriarcado resiste, resiste… Aqueles apelos a Entidades Femininas, sobretudo a Nossa Senhora, que fazíamos em momentos de aflição, está condizente e faz-me lembrar o aforismo romano Mater semper certa, Pater incertus.

No último dia das mães, ouvi o patriarca de Lisboa referir-se também a Deus como Abba/Papá e explicava-nos que é como numa família, as mães ensinam as crianças a falar de Pai, como Papá. Gostei muito. Mesmo muito.

André Reinoso, Sagrada Família (século XVII, segundo quartel). Museu Alberto Sampaio, Guimarães.

Qual não foi o meu espanto, quando o patriarca acrescentou: “É claro que houve pecado original.” Ele próprio e também os co-celebrantes bem devem ter notado a mudança da minha expressão facial.

Ao serão, em conversa telefónica com uma amiga, contei-lhe o dia, e ela muito espontaneamente retorquiu “O patriarca teve lapso linguístico, ele queria dizer: acto sexual”.

Que ninguém fique escandalizado com estas nossas conversas entre amigas, pois que o Papa Francisco afirmou “é possível rir de Deus” e que isso “pode ser feito, mas sem ofender os sentimentos religiosos dos fiéis, especialmente dos pobres”. E também quero dizer que reconheço o louvável esforço que alguns cardeais e patriarcas estão a fazer.

Mas termino com o último parágrafo de uma crónica “Pára e Pensa” de Anselmo Borges, padre e professor de Filosofia, que li há quase um ano: “E aí estão a peste do clericalismo e a pompa e o luxo destes dias. E, quando se entrou em conclave para eleger o novo Papa, lá esteve aquele extra omnes: “fora todos”, todos os que não pertencem ao conclave, ao qual só pertence o topo da hierarquia, aliás num sistema endogâmico, pois aqueles 133 cardeais eleitores são purpurados criados por Papas anteriores, portanto, evidentemente, sem nenhuma mulher, mesmo se mais de metade dos católicos são mulheres…”

 

Maria Aldina Brás é geneticista médica e professora aposentada da UNL.

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