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Guilherme d'Oliveira Martins

[Entre Margens]

A paz obriga a um trabalho árduo

 

Uma das características do pontificado de Leão XIV tem sido a afirmação de uma cultura de paz na cena internacional, contra os instintos belicistas e as “demonstrações de força”. “Basta de idolatria do ego e do dinheiro! Basta das demonstrações de força! Basta de guerra! A verdadeira força manifesta-se em servir a vida”. Quando a incerteza paira no mundo, em virtude do desenvolvimento do clima de guerra na Ucrânia, no Médio Oriente e em vários outros pontos do planeta, torna-se necessário  um esforço internacional que permita criar condições para a paz.

“Queridos irmãos e irmãs, há certamente responsabilidades imperativas que incumbem aos líderes das nações. A eles clamamos: Parem! É tempo de fazer a paz! Sentem-se à mesa do diálogo e da mediação, não à mesa onde se planeia o rearmamento e se decidem ações mortais!’” As palavras valem pela oportunidade e pela determinação. Sem referir casos específicos, o Papa tem-se dirigido às autoridades norte-americanas, que se vangloriaram da superioridade militar dos EUA e parecem justificar a guerra com argumentos religiosos. Assim, o Papa Leão XIV tem pedido a todas as pessoas de boa vontade que orem pela paz e exijam o fim da guerra mundial em fragmentos aos seus líderes políticos. Rezar pela paz e trabalhar pela sua realização é uma forma de “quebrar o ciclo demoníaco do mal” para construir, em vez disso, um Reino de Deus, de respeito mútuo, sem corrida aos armamentos e com respeito do direito internacional.  “É aqui que encontramos um baluarte contra esta ilusão de omnipotência que nos rodeia e que se torna cada vez mais imprevisível e agressiva”, afirmou, acrescentando que “até o santo nome de Deus, o Deus da vida, está a ser arrastado para discursos de morte”. Demarcando-se do discurso do Secretário de Estado da Guerra Pete Hegseth, que apresenta os EUA  como uma nação cristã que tenta vencer os seus inimigos, Leão XIV salientou que Deus não abençoa nenhuma guerra, e muito menos aqueles que lançam bombas. A Santa Sé está particularmente preocupada com os efeitos colaterais da guerra de Israel contra o Hezbollah no Líbano, dada a difícil situação vivida pelas comunidades cristãs no sul do país.

Pete Hegseth. EUA

Pete Hegseth “apresenta os EUA  como uma nação cristã que tenta vencer os seus inimigos”. Foto © Chip Somodevilla | Getty Images

A ofensiva do Presidente Donald Trump contra o Papa Leão XIV representa, pois, uma atitude perigosa e infeliz de quem não tem argumentos para defender a orientação errática seguida, centrada no protecionismo nacionalista e numa lógica transacional cega relativamente ao respeito do direito internacional e à defesa do desenvolvimento humano. A utilização das tarifas como instrumento de chantagem constitui a demonstração de que não há uma conceção geoestratégica baseada no multilateralismo e na consagração de mecanismos institucionais e diplomáticos de mediação, que permitam a dissuasão e a cooperação entre as nações do mundo no sentido da paz.

Donald Trump e Xi Jinping (2026-5-14)

“Xi Jinping foi claro: “Podem a China e os EUA superar a chamada armadilha de Tucídides e abrir um novo paradigma de relações entre potências?”. Foto: Donald Trump e Xi Jinping. © Casa Branca na Rede Social X | Wikimedia Commons

Leão XIV tem sido, assim, um protagonista coerente e determinado que tem lutado contra a chamada “armadilha de Tucídides” que foi invocada na recente visita do Presidente americano à China. Na Guerra do Peloponeso o conflito entre Atenas e Esparta tornou-se inevitável em face da ascensão de Atenas e do temor sentido por Esparta. E assim Graham Allison formulou uma espécie de lei: Quando uma nova potência ascende e outra entra em declínio, o encontro das duas trajetórias resulta quase sempre em guerra. E assim Xi Jinping foi claro: “Podem a China e os EUA superar a chamada armadilha de Tucídides e abrir um novo paradigma de relações entre potências?”. Afinal, num conflito desses, todos os intervenientes ficam a perder e no final da guerra do Peloponeso Atenas foi derrotada, apesar de favorita, e Esparta venceu, mas a civilização helénica foi seriamente afetada.

Devemos lembrar o que se encontra na Encíclica “Pacem in Terris” de João XXIII: “Eis por que a justiça, a reta razão e o sentido da dignidade humana terminantemente exigem que se pare com essa corrida ao poderio militar, que o material de guerra, instalado em várias nações, se vá reduzindo duma parte e doutra, simultaneamente, que sejam banidas as armas atómicas; e, finalmente, que se chegue a um acordo para a gradual diminuição dos armamentos, na base de garantias mútuas e eficazes. Já Pio XII admoestou: “A todo custo se deverá evitar que pela terceira vez desabe sobre a humanidade a desgraça de uma guerra mundial, com suas imensas catástrofes econômicas e sociais e com as suas muitas depravações e perturbações morais”. Todos devem estar convencidos de que nem a renúncia à competição militar, nem a redução dos armamentos, nem mesmo a sua completa eliminação, de modo nenhum se pode levar a efeito tudo isto, se não se proceder a um desarmamento integral, que atinja o próprio espírito, isto é, se não trabalharem todos em concórdia e sinceridade, para afastar o medo e a psicose de uma possível guerra.”. (PT, 112-113).

Na linha do pensamento do Papa Francisco, Leão XIV tem definido um caminho próprio, ligando a causa da Paz, a defesa e salvaguarda do programa ecológico integral de “Laudato Si’” e o alerta para que “esta economia mata”. O erro do Presidente Trump, corresponde à incompreensão do essencial. A serena voz do Papa deixa-o claro.

 

Guilherme d’Oliveira Martins é presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura.

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