Da autoria do padre Joaquim Félix, o 7MARGENS publica, em duas partes, o Prefácio em jeito de ensaio ao livro “Mistagogia em tempos de secularização. A experiência mistagógica do século IV e o caminho de fé para a evangelização na contemporaneidade”, do diácono António Raimundo do Patriarcado de Lisboa. O livro, do Secretariado Nacional da Liturgia, acabou de sair e será apresentado na Feira do Livro de Lisboa.
«Hoje o termo mistagogia refere-se à catequese sobre os sacramentos, particularmente no contexto da iniciação cristã e à profundidade espiritual da explicação dos ritos litúrgicos. O significado mais geral de “explicação dos ritos litúrgicos” derivará dos inícios da época bizantina. É neste sentido mais genérico que, hoje, o termo mistagogia se usa para qualquer tipo de celebração litúrgica».
[Mazza 1996, 11]

[Batistério da Igreja San Giovanni Apostolo, Ponte d’Odi (2002-2006), Perugia © Fotografia: Joaquim Félix]
Mistagogia. A palavra prolifera em diferentes áreas da teologia prática. Caída no oblívio dos séculos, ela revivesce atualmente como uma categoria quase exótica. Usada, porém, em muitos discursos pastorais, ao ponto de transbordar inclusive os âmbitos da liturgia, desde logo o da iniciação cristã, parece corresponder a uma palavra-da-moda. Será mesmo? Desconhecendo as suas origens e a respetiva evolução, há quem dela faça um refrão pastoral, bem-sonante por sinal, propondo-a ao ritmo de cada estrofe das complexas e tensas problemáticas da vivência do cristianismo nas circunstâncias contemporâneas. Mistagogia! Mistagogia! Mistagogia! Repetida à exaustão, quase se assemelha a uma palavra mágica, a mais uma panaceia. E, assim, é sugerida como uma espécie de remédio universal. Evitando esta panaceia, António Raimundo propõe-na com grande pertinência pastoral neste livro, que resulta da sua Dissertação de Mestrado Integrado apresentada na Faculdade de Teologia, da Universidade Católica Portuguesa.
Mistagogia: um modo de fazer teologia do mistério
António Raimundo esboça, a traços largos e decididos, o objetivo do seu primeiro capítulo: abordar «a Iniciação Cristã como pilares para a integração na comunidade cristã», apresentando a catequese «como uma pedagogia sistemática essencial para a educação cristã e vida sacramental». O desdobramento deste esquisso concretiza-se em várias linhas de reflexão que, partindo da relação entre a iniciação cristã e a catequese, passa ao catecumenado como concretização desse processo iniciático, no qual a mistagogia é apresentada como condutora no percurso da fé. Por sua vez, a iluminação do mistério, ao qual se adere pela fé, foi praticada desde o início por Jesus e os apóstolos, mas também por sucessivos evangelizadores, entre eles os Padres da Igreja, sobretudo através da mistagogia. Esse gradual lucernário-do-mistério, proporcionado através da mistagogia, parte da experiência do mistério celebrado ― na sacramentalidade do batismo, da confirmação e da eucaristia ― até atingir a sua definitiva revelação no mistério vivido pelos fiéis na quotidiana mundividência.

[Batistério dos Arianos (finais do séc. V), Ravenna © Fotografia: Joaquim Félix]
A partir desta delineação, seria bom determo-nos em duas questões de fundo. A primeira delas concerne ao sentido com o qual se entende o «mistério» conforme a revelação cristã; a segunda, que não é menos importante, prende-se com o estatuto da «mistagogia»: será ela uma modalidade da catequese ou, considerada com mais alcance, uma forma especial de fazer teologia? É verdade que catequese e teologia não têm que ser disjuntivas. Sendo desejável um regime de mutualidade entre ambas, sabemos, todavia, que elas se diferenciam em vários aspetos.
Os mistérios cristãos e os mistérios gregos
Tendo no horizonte a sua correlação com a mistagogia (cf. Mazza 1996,16-18), recordemos que Enrico Mazza tinha aprofundado, uma década antes, «o alcance teológico do termo “mistério”» (Mazza 1987). Esse alcance, por mais evolução que tenha realizado, há de ter em conta o significado filológico original do vocábulo mysterion (mistério, em grego), que poderá ser individuado a partir do verbo múein, cujo sentido se relaciona com o fechamento dos lábios ou da boca, em sintonia com os segredos e as intimidades guardadas. Sem jamais ter o significado de segredo humano, restringia-se, com certa ressonância intelectual, à intimidade divina, ao segredo dos deuses. Com este significado, mysterion acabou por dar entrada no ambiente religioso do paganismo, nomeadamente nos cultos mistéricos helénicos: nas religiões iniciáticas de índole mistérica e nas religiões de caráter filosófico, como são, por exemplo, a pitagórica e o movimento órfico-pitagórico.

[Batistério na Capela de S. João Batista (1994-1996), Mogno Fusio, Ticino, Suíça © Fotografia: Joaquim Félix]
A Sagrada Escritura não possui muitos termos hebraicos equivalentes a mysterion. Aliás, são raros. Os poucos que comparecem encontram-se nas fontes apocalípticas do judaísmo tardio. Explicam-se pelo influxo da cultura helénica em Israel. A referência mais importante encontra-se no livro de Daniel (Dn 2,28-29), mas já com um significado diferente, ou seja, como uma proclamação de um segredo escatológico, profetizando uma ação a realizar, no futuro, por Deus. Por seu turno, no Novo Testamento, mysterion surge com mais frequência e significados distintos. Se, no Apocalipse, ele ocorre por quatro vezes (cf. Ap 1,20; 10,7; 17,5 e 17,7), no evangelho segundo S. Marcos, aparece uma vez com o significado de «mistério do reino de Deus» (Mc 4,11). Inspirando-se nas fontes de Qumran, S. Paulo é quem mais desenvolve, nas suas epístolas, em especial nas dirigidas aos Efésios e aos Colossenses, uma teologia do mistério. Sem a pretensão de colacionar todas as ocorrências da palavra mysterion, até porque são muitas, S. Paulo identifica o mistério com Cristo, o único mistério. Abandonando o significado de segredo, ele apresenta Jesus, sobretudo a partir mistério pascal, como a revelação do plano Deus para a humanidade e todas as demais criaturas (cf. Ef 1,9-10). Neste sentido, numa conceção de tipo operativo, mais do que intelectual, o alcance soteriológico do mistério permite a passagem do mistério acreditado (lex credendi) ao mistério celebrado (lex orandi) nas ações sacramentais da Igreja, como bem a apresenta António Raimundo, no capítulo primeiro.

[Batistério de S. João de Latrão (315 e 324 d.C.), com planta octogonal, Roma © Fotografia: Joaquim Félix]
Assumida pelos Padres da Igreja a teologia paulina do mistério, ela acabou por desenvolver-se num sentido mais especulativo, com a assunção de categorias filosóficas novas. Se, por um lado, os Padres Ocidentais preferiram traduzir mysterion por sacramentum (sacramento), para evitar equívocos com o vocabulário das religiões mistéricas gregas, por outro, os Padres Orientais continuaram a usá-lo, todavia, num contexto novo, nomeadamente a partir do século III, com os Padres Alexandrinos, que passaram a adotar as categorias filosóficas do platonismo. Não obstante as influências e certas consequências que resultaram dessa apropriação, como a imposição da lei do arcano ou a partilha de vocabulário gnóstico, o processo de apropriação do vocábulo mysterion procurou salvaguardar a justa distância do pensamento pagão através da novidade do cristianismo, cujos mistérios eram superiores.

[Batistério da Igreja da Santa Face (2002-2006), Turim © Fotografia: Joaquim Félix]
Esta relação entre os sacramentos cristãos e os mistérios gregos despertou, na época moderna e contemporânea, disputas académicas e suspeitas sobre a eventualidade daqueles dependerem destes. Em completa divergência, houve estudiosos que, sobretudo a partir da Escola da História das Religiões, defenderam a dependência dos sacramentos cristãos em relação aos mistérios gregos (Adolf von Harnack, Wilhelm Bousset, Anrich, Webbermin e Reitzenstein e Wetter), enquanto outros se manifestaram a favor de uma autonomia total (Lagrange, Clemen, Grandmaison). Nos nossos dias, porém, as teorias da exclusiva dependência dos mistérios gregos parecem superadas. Poderá haver, sim, uma possível dependência formal ou material, mas sempre no quando de uma independência substancial dos sacramentos cristãos, fundamentada na novidade do mistério de Cristo. É neste sentido que Enrico Mazza valoriza os estudos de Odo Casel e de Hugo Rahner: «Após os estudos de Odo Casel sobre a doutrina dos mistérios, tornou-se axiomático que a conceção mistérica da liturgia é o melhor modo de compreender o culto cristão. (…) Hugo Rahner realizou uma extensa pesquisa sobre a conceção patrística da liturgia obtendo resultados muito interessantes e ricos em matizes: o uso do vocabulário mistérico e a conceção mistérica da liturgia diferem consoante o período histórico, mostrando que o cristianismo absorveu a linguagem e a cultura do seu meio: nisto, de facto, adquiriu uma conceção mistérica peculiar» (Mazza 1996,16; cf. Casel 1960 e 2001, Rahner 1952 e 1971).

[Batistério na Igreja Vamlingbo (final do séc. XII), Gotlândia, Suécia © Fotografia: Joaquim Félix]
Em síntese, deixando bem claro o lastro sobre o qual António Raimundo desenvolve o capítulo I, intitulado «Ao encontro do mistério», podemos concluir com Ramón Arnau: «O cristianismo não é uma religião mistérica, isto é, não se trata de uma religião com mistérios, ao estilo das religiões mistéricas. Trata-se, isso sim, de uma religião baseada no mistério de Deus, que dispôs no recôndito da sua vontade a salvação do Homem, que realizou por meio de seu Filho e a aplica através da sua Igreja. Neste mistério que é fundamentalmente salvífico, neste segredo de Deus manifestado aos homens por Jesus Cristo, fundamenta a sua específica consistência a realidade dos sacramentos cristãos e justifica-se o concreto proceder sacramental da Igreja» (Arnau 1998, 61).

[Batistério na Igreja de Santa Maria (1994-1996), Marco de Canaveses © Fotografia: Joaquim Félix]
Mais do que catequese, a mistagogia é uma teologia litúrgica
É comum designar por «catequeses mistagógicas» as homilias feitas pelos Padres da Igreja aos catecúmenos e aos neófitos. Serão mais catequeses que teologia litúrgica? Que critérios se poderiam ter em conta para as definir como um modo de fazer teologia? Enrico Mazza coloca o problema e procura responder. Porque nos revemos na sua opinião, definitivamente bem fundamentada, expomo-la. Para ele, o facto de a mistagogia nos ter chegado através de homilias e de comentários às ações litúrgicas, umas e outros com significativo pendor espiritual, estará na origem a sua classificação como fazendo parte da catequese, ou, como o Movimento Litúrgico apreciava, da espiritualidade litúrgica. E, neste sentido, careceria de espessura teológica, porque mais propícia à vivacidade da catequese e às exigências típicas da espiritualidade.

[Pia batismal, por ocasião da Páscoa, na Capela Notre-Dame-du-Haut (1953-1955), Ronchamp, Haute-Saône, França © Fotografia: Joaquim Félix]
Nesta consideração, notoriamente mais circunstancial, e parafraseando a célebre expressão latina cunhada por Santo Anselmo de Cantuária, a mistagogia não seria um mysterium quaerens intellectum (mistério que busca inteligência), mas um modo de esclarecimento litúrgico da ritualidade sacramental para grupos particulares, catecúmenos e neófitos. Será só isto? Não sendo pouco nem desprimoroso, Enrico Mazza pensa que se poderá proceder a uma consideração mais atenta da mistagogia. Nesse sentido, ele explicita-a nestes termos: «Se examinarmos cuidadosamente os tratados mistagógicos que chegaram até nós, perceberemos que a mistagogia possui um método próprio com o qual ela elabora a inteligência do mistério. Tal método, sempre o mesmo, aplica-se a toda a área da ação litúrgica, incluindo aquilo a que chamamos o “conteúdo ontológico” do sacramento. Considera-se que o método mistagógico é capaz de desenvolver também verdadeiros conteúdos teológicos, sem sofrer modificações ou imposições» (Mazza 1996,18-19).

[Mosaicos (parte superior do tríptico “Epifania da Graça”) de Ilda David’ (2015), no batistério da Catedral de Bragança © Fotografia: Joaquim Félix]
Para sustentar esta sua tese, a de que a mistagogia é verdadeira teologia litúrgica, Enrico Mazza sabe que necessita de a fundamentar. E, para isso, recorre a duas referências da teologia litúrgica: a Nicolau Cabasilas, mesmo que ele tenha vivido num tempo bem posterior ao período patrístico e seja mais considerado desde a sua particular espiritualidade litúrgica, e a Santo Ambrósio, reconhecido praticante da mistagogia. Reconhecendo que, efetivamente, os seus exemplos não são numerosos, e que quem o desejar fazer poderá explorar outros exemplos, sente-se habilitado a concluir: «Por conseguinte, podemos concluir que a mistagogia não é tanto uma forma de catequese ou de teologia espiritual; antes, podemos concluir que a mistagogia é uma forma de fazer teologia no verdadeiro sentido do termo. Por isso, devemos falar de teologia mistagógica. Uma vez que esta teologia faz parte do evento celebrativo, pode-se deduzir que estamos no âmbito da teologia da liturgia» (Mazza 1996,22). As conclusões sobre esta tese, no meu entender, são deveras importantes para compreender as escolhas e a reflexão que António Raimundo faz nos dois capítulos seguintes.

[Batistério exterior na Igreja do Imaculado Coração de Maria (1957), Funchal © Fotografia: Joaquim Félix]
[A parte II deste texto será publicada no próximo sábado, 30.05.2026]
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens.










