[domingo depois do Pentecostes. Santíssima Trindade ― a ― 2026]
1. Ah, o Espírito veio, na ardência do seu amor!
Sopradas por um vento rumoroso,
as suas línguas de fogo acendem o nosso entendimento.
Mais, reduzindo os medos a cinzas,
a sua luz refulgente descerra as portas dos lábios
para cantarmos as maravilhas de Deus, uno e trino.
Com efeito, passados oito dias após o Pentecostes,
novamente nos reunimos, cheios de exultações,
para celebrar o mistério da Santíssima Trindade.

[Cheios de exultações, celebramos o mistério da Santíssima Trindade. © Fotografia ©Joaquim Félix]
2. Surpreender-nos-á que, para celebrar tão denso mistério,
a liturgia da Palavra apresente leituras breves.
De facto, as passagens do Evangelho segundo São João
e da Segunda Epístola de São Paulo aos Coríntios
possuem apenas três versículos, respetivamente.
Por sua vez, a leitura do Livro do Êxodo só tem cinco versículos.
Talvez possamos ver, nesta aparente escassez de palavras,
vias outras, mais amplas, para nos adentramos no mistério trinitário.

[A aparente escassez das palavras não é uma porta fechada. Fotografia (na abadia de Marienberg, Itália) © Joaquim Félix]
3. A via da beleza, que nos faz transitar de louvor em louvor,
permite ir além das palavras ― aqui tão rarefeitas ―,
constituindo-se como autêntico evangelho trinitário.
No prefácio ao livro A Trindade na arte, de Mario dal Bello,
Nicola Ciola evidencia a narração deste evangelho escrito com imagens:
«Um evangelho trinitário expandiu-se assim
sobre as paredes das igrejas e sobre os altares,
nos códices miniados e nos portais,
proporcionando uma visão luminosa de um mistério que,
graças à arte, em certa medida, se tornou “visível aos nossos olhos”,
como uma encarnação do Verbo nas formas da Beleza.
Que partiu dele e a ele volta através da arte» (La Trinità nell’arte, p.13).
Também Tiago Fonseca explorou grande diversidade de imagens,
textos eucológicos e símbolos,
no seu livro A arte de apresentar o mistério trinitário,
tendo em consideração as suas diferentes tipologias.
É uma obra que pode ser adquirida na Feira do Livro de Lisboa,
ou nas livrarias, a um preço muito acessível.
Felizmente ele dispõe de muitas ilustrações,
cuja variedade surpreender-nos-á com inesperado assombro.
Algumas das apresentações, por serem demasiado antropomorfizadas,
como as Trindades Trifrontes, foram, entretanto, condenadas.

[Trindade Trifronte. António di Atri, 1350. © Fotografia: D.R.]
De facto, sobremaneira em relação a Deus Pai,
não se pode apresentar a Trindade recorrendo a todo o tipo de imagens.
Neste sentido, recordo três versos de António Ramos Rosa:
«O deus não tem imagens, é apenas um sopro
que as dissolve inaugurando a água clara
que é a fidelidade viva ao segredo da origem» (Obra Poética, III, 212).
4. Na longa e sugestiva série de imagens,
que Tiago Fonseca coloca no apêndice fotográfico (pp.161-183),
aparece uma pintura da Trindade, na tipologia Trono da Graça.
Precisando melhor, ela encontra-se na Capela de S. Marcos,
em Carvalhal do Côa, Badamalos, no arciprestado do Sabugal.
De notar que tanto a apresentação da Santíssima Trindade
como a do evangelista S. Marcos, padroeiro da capela,
são duas extraordinárias pinturas murais a fresco, do século XV.
Encontravam-se escondidas por detrás de estruturas retabulares.
Embora estejam em bom estado de conservação,
ostentam algumas falhas, a de S. Marcos mais que a da Trindade.
Porque coloco em relevo esta Santíssima Trindade em fresco?
Porque, através da edição de simulação pela inteligência artificial,
foi possível aceder à versão aproximada do conjunto original.
Mesmo que seja uma reconstrução hipotética,
não deixa de ser significativo que, guardadas as distâncias críticas,
se configure como uma reconstituição com grande plausibilidade.

[Pinturas murais na capela de S. Marcos. Fotografia: DR]
5. A inteligência artificial consegue fazer proezas,
como reconstituir os frescos originais da capela de S. Marcos,
todavia, dificilmente poderá desvendar muitos mistérios,
entre eles o da Santíssima Trindade, mistério por antonomásia.
No passado dia 15 deste mês, de forma surpreendente,
o Papa Leão XIV assinou a carta encíclica Magnifica Humanitas
― dirigida aos cristãos e a todos os humanos de boa vontade ―,
sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial.
É impressionante a quantidade de artigos sobre a encíclica,
que, entretanto, surgiram na impressa mundial.
Deles deu conta Eduardo Jorge Madureira, no jornal 7MARGENS.
Mais importante que o número de artigos nos jornais do planeta
é a qualidade de reflexão que se tem produzido,
em âmbitos e setores que, por ventura, menos se esperaria.
Além de artigos, como muitos de nós terão acompanhado,
têm-se promovido abundantes debates,
inclusive com teólogos da Faculdade de Teologia da UCP.
6. Poderia pensar-se que, para se deter na inteligência artificial,
o Papa Leão XIV não precisaria de evocar a Santíssima Trindade.
Certo é que, não por acaso, a ela se refere.
Na verdade, a propósito dos fundamentos da Doutrina Social da Igreja,
o ser humano é apresentado como «imagem do Deus trinitário».
Assim ele o releva: «A Doutrina social da Igreja remete-nos
ao núcleo central da nossa fé:
o mistério do Deus vivo, revelado em Jesus Cristo
como comunhão de Pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo,
amor em relação, que se doa reciprocamente e se comunica ao mundo.
Como recorda o Concílio, o ser humano é chamado à comunhão com Deus
e “não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo”:
a sua vocação mais profunda
é entrar no movimento trinitário do amor recebido e partilhado» (MH 48).

[Entrar no movimento trinitário do amor recebido e partilhado. Fotografia © Joaquim Félix]
7. Em perfeito alinhamento com quanto ouvimos no Evangelho deste dia,
podemos ler, no número seguinte, outro destaque que o Papa faz
em termos de consequências sociais da ação da Igreja no mundo:
«Se o mistério de Deus-Amor é a fonte da Doutrina social,
o seu rosto mais concreto contemplamo-lo em Jesus Cristo, Verbo encarnado.
Fazendo-se homem, o Filho de Deus entra na nossa história e na nossa carne,
a estas trazendo o amor que O une ao Pai e ao Espírito Santo.
N’Ele “o mistério do homem […] se esclarece verdadeiramente”
porque a sua humanidade é plenamente livre, aberta aos outros,
capaz de construir relações solidárias e belas,
comprometida com o dom total de si mesmo.
Quem acredita n’Ele está envolvido na grande obra de renovação
Inaugurada pelo mistério da sua paixão, morte e ressurreição,
e coopera na edificação do Reino de Deus,
aprendendo a acolher cada mulher e homem como irmã e irmão,
filhos dum único Pai.
Deste modo, tanto o anúncio como a experiência cristã,
guiados pela ação do Espírito Santo,
tendem a gerar no mundo consequências sociais» (MH 49).

[Técnicas de restauro no intervalo do almoço. Piazza dei Cavalieri di Malta, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]
8. Sendo o ser humano imagem do Deus trinitário,
voltemos a escutar quanto nos narra S. João no Evangelho:
«Deus amou tanto o mundo
que entregou o seu Filho Unigénito,
para que todo o homem que acredita n’Ele
não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo
para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3,16-17).
Se Deus amou e ama tanto o mundo,
sendo nós imagem incarnada do seu amor,
poderemos, porventura, odiar o mundo, ou fugir dele?
Há quem pense que a Igreja, ao tratar de assuntos
como os que dizem respeito à inteligência artificial,
estará a desviar-se da sua missão evangelizadora.
Estará mesmo? Que nos parece?

[Poderemos, porventura, odiar o mundo, ou fugir dele? Antico Ghetto Ebraico, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]
9. Pugnando por uma Igreja que, como peregrina,
caminha na história da humanidade,
o Papa sente que estas temáticas não são «questões mundanas» (MH 3),
nas quais se desperdiçam energias.
Pelo contrário, ele propõe-nas como prioridades à Igreja,
a discernir segundo o amor «clemente e compassivo» (Ex 34,6) de Deus:
«Assim, ela (Igreja) coloca-se ao lado do mundo sem se lhe sobrepor,
para que em cada circunstância humana
possa germinar a promessa de justiça e paz,
que o Espírito Santo continua a suscitar no coração da humanidade» (MH 20).

[Neste tempo de desatenção e descarte, valerá a pena repoetizar a vida. Poeta de rua, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]
10. Não podendo sintetizar a imensa quantidade de temas da encíclica,
sugiro-vos a sua leitura na íntegra, se é que não a fizestes já.
Atendendo, porém, à escalada nas guerras em curso,
sobretudo entre a Rússia e a Ucrânia, e de Israel no sul do Líbano,
onde o uso de armas recorre cada vez mais à IA,
sublinho a urgência de atender a todos os reptos lançados no capítulo V,
no qual o Papa reflete sobre a cultura do poder e a civilização do amor.
Como poderemos, por exemplo, desarmar as palavras?
Paulo, na Segunda Carta aos Coríntios,
sugere-nos uma via que, tanto no seu tempo como hoje, continua válida:
«Sede alegres, trabalhai pela vossa perfeição,
animai-vos uns aos outros,
tende os mesmos sentimentos, vivei em paz» (2Cor 13,11).
Sim, não duvidemos da sabedoria que experimentamos pela paz:
o Deus do amor trinitário estará connosco no mistério da alegria.
E, bem assim, como sustentava Edgar Morin, sociólogo e filósofo,
― que acabou de nos deixar aos 104 anos de idade ―,
«o conhecimento deve conduzir-nos ao mistério das coisas».
11. Neste último dia de maio, saudemos também Maria,
que, cheia de Jesus, nos visita como à sua prima Isabel,
para, com amabilidade, nos saudar e se colocar ao nosso serviço.
Assim como o encontro das primas foi vivido
na semelhança de um encontro-de-cantares,
assim também, como me dizia um amigo esta manhã,
«neste tempo de desatenção e descarte,
valerá a pena repoetizar (a iniciação cristã, a vida e a liturgia),
explicando que Deus é não só Poeta como Poesia…
e que nós precisamos muito dos seus poemas» (Ruy Ventura).
Na alegria da paz, recordemo-nos sempre:
o mistério da Santíssima Trindade é para ser vivido com gozo,
até porque, parafraseando Miles Davis,
este como outros mistérios nunca nos passaram pela cabeça.
Talvez, quem sabe, só pela razão colocada no coração.
12. O Pai é amor; o Filho é graça; o Espírito Santo é Comunhão.
Oh Santíssima Trindade!
Em vós nos saudamos. Para vós cantamos o incessante refrão:
«Digno é o Senhor de louvor e de glória para sempre» (Dan 3,52).

[Oh Santíssima Trindade! Fotografia © Joaquim Félix]
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de domingo, 31 de maio, domingo depois do Pentecostes. Santíssima Trindade, proferida na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.










