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[Entre Margens]

Moçambique não é uma fábrica de cadáveres

| 29/06/2026

 

É domingo e, aos domingos, faltando cinco minutos para as doze horas e para a missa começar, o sino, pendurado numa das janelas da igreja retangular e cinzenta que se impõe à frente da minha casa, agita-se como se tivesse vida própria e solta um som estridente que se espalha pelas ruas, atravessa paredes, infiltra-se na minha casa como uma ordem antiga que não se discute.

Enquanto o sino toca, eu agito-me como uma barata tonta dentro do quarto. Olho-me no espelho e confirmo que estou um boneco bonito – afinal, não são só as mulheres que gostam de sair à rua bonitas. O sino não cessa, insiste, empurra-me. E sabendo que se ficar mais um minuto nesta hesitação chegarei atrasado à missa, digo para mim mesmo que estou como quero e saio do quarto.

Em menos de um ou dois segundos, já dei as costas à porta do apartamento. Mesmo pressionado pelo atraso, seguro-me para não a atirar contra a parede, não quero dar razão a alguns dos meus vizinhos, que olham para nós como se fôssemos feitos de violência, como se os negros e imigrantes fossem selvagens, sem contenção nem cuidado.

Quando chego à rua, o coração já não caminha: dispara. A respiração vem curta, como se tivesse corrido sem sair do lugar.

À beira da rua, numa pequena placa de mármore assente sobre um pequeno muro de blocos, em letras maiúsculas, está escrito o nome da minha rua: RUA CIDADE DE QUELIMANE. Sim. Em plena Lisboa. Longe do meu país, há uma Rua Cidade de Quelimane.

Quelimane, a cidade da minha irmã. Quelimane, a cidade do Rui Motty, do Gouveia e Melo e da Carmen Serejo. Quelimane, capital da Zambézia, terra do meu pai, dos meus antepassados. Quelimane, cidade do Gambeta, do Manuel de Araújo e do Mussa Rodrigues. Terra de gente amável, de sorriso fácil, de mãos abertas. Terra de gente trabalhadora, de gente religiosa, de gente que parece sempre guardar o mundo inteiro num gesto simples de partilha.

E foi em Quelimane que mataram um bispo. Um padre. Um homem que passou a vida inteira a trabalhar para o evangelho, para o bem comum, para a paz, para o seu, o meu, o nosso país.

É com uma bala no coração que se coroa quem faz o bem, em Moçambique?

O Papa Leão XIV nomeou D. Osório Afonso como bispo da Diocese de Quelimane a 25 de julho de 2025. Foto © Consolata. Moçambique bispo

O Papa Leão XIV nomeou Osório Afonso como bispo da Diocese de Quelimane a 25 de julho de 2025. Foto © Consolata.

O meu país, que há cinquenta anos se equilibra nos escombros do subdesenvolvimento e tenta polir uma violência que brilha mais a cada piscar de olhos, construiu uma indústria estranha. Uma indústria de morte. Uma indústria especializada em transformar pessoas em cadáveres. Fábricas invisíveis que produzem a morte de homens bons com uma velocidade industrial, como se fossem rebuçados: fabricados, embalados, distribuídos pelos mercados da nossa dor.

Num ano foi o constitucionalista Gilles Cistac; noutro, o juiz Silica. Noutro, Mahamudo Amurane, presidente do município de Nampula. Noutro, Anastácio Matavele. Noutro, o advogado e político Elvino Dias. Noutro, o cineasta e político Paulo Guambe. Ontem, foi um bispo. Dom Osório Citora Afonso, bispo de Quelimane e administrador apostólico da Beira.

Mas não é o cargo que importa. É a pessoa. E, seja quem for, seja qual for o motivo, os assassinatos não deviam caber na normalidade de um país. Sinceramente, não deviam caber na respiração de ninguém.

Quem não sabe que todos os dias se empurra alguém para morte em Ancuabe, Muidumbe. Bedene, Ressano Garcia, Zintava, Munhava ou Seis Carros?

Maria. João. Alice. Kelvin. Safira. Xiluva.

É sempre hora de desmontar esta máquina. É sempre hora de parar esta fábrica. É sempre hora de extinguir esta indústria que transforma homens e mulheres em silêncio definitivo.

 

Miguel Luís é advogado e escritor moçambicano a residir em Lisboa

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