A resposta internacional aos sismos que devastaram a Venezuela continua a ganhar dimensão, com organizações ecuménicas, fundações católicas e instituições portuguesas a promoverem campanhas de solidariedade. Paralelamente, a Amnistia Internacional alerta que a ajuda humanitária só poderá ser eficaz se o Governo venezuelano garantir o respeito pelos direitos humanos, levantar restrições à liberdade de informação e permitir o trabalho das organizações.
Num comunicado divulgado na quinta-feira, 26 de junho, a organização denunciou que a catástrofe poderá agravar “uma crise de direitos humanos e uma emergência humanitária prolongadas” que afetam o país há mais de uma década.
A Amnistia afirma que continuam a ser divulgadas apenas informações limitadas sobre o número de vítimas, desaparecidos e danos materiais, defendendo que a transparência é essencial para uma resposta eficaz. Além disso, insiste na necessidade de levantar as restrições impostas à imprensa, às plataformas digitais e às organizações não-governamentais, incluindo a revogação da chamada “lei anti-ONG”, que considera um obstáculo ao trabalho humanitário. “O impacto potencial de não o fazer poderá ser medido em vidas perdidas e direitos irreparavelmente afetados”, lê-se no comunicado.
A Amnistia manifesta ainda preocupação com a situação das pessoas detidas por motivos políticos, pedindo acesso dos organismos humanitários aos centros de detenção para verificar as condições de segurança e garantir cuidados básicos.
Conselho Mundial de Igrejas e Fundação AIS solidários
Também o Conselho Mundial de Igrejas manifestou a sua proximidade ao povo venezuelano. Numa declaração assinada pelo secretário-geral, o pastor Jerry Pillay, a organização afirma acompanhar “com profunda preocupação” as notícias dos sismos.
O organismo ecuménico convida todas as Igrejas-membro e pessoas de boa vontade a rezarem pelas vítimas e apela à comunidade internacional para que responda “generosamente” às necessidades de emergência e de ajuda humanitária.
No terreno, a Igreja Católica continua a desempenhar um papel central no apoio às populações. A Fundação AIS (Ajuda à Igreja que Sofre) anunciou uma ajuda imediata de 100 mil euros para apoiar as dioceses mais afetadas [ver 7MARGENS] e lançou, através do secretariado português, a campanha SOS Venezuela.
Segundo Luis Vildoso, responsável pelos projetos da fundação para a Venezuela, além da resposta imediata é necessário começar desde já a preparar a reconstrução da missão da Igreja.
“A Igreja permanece ao lado do seu povo. Consola quem chora, acompanha as famílias que procuram os seus entes queridos e abre as suas portas a todos aqueles que precisam de refúgio”, afirma.
Um dos testemunhos recolhidos pela fundação descreve como um padre da diocese de Petare continuou a celebrar a Eucaristia na rua depois de a igreja ter sido evacuada durante o terramoto. À celebração juntaram-se moradores que fugiam dos edifícios vizinhos e doentes e profissionais de saúde retirados de um hospital próximo, transformando a liturgia num momento de esperança em plena emergência.
Outro presbítero, em La Guaira, continua a acompanhar os paroquianos apesar de ter familiares desaparecidos, incluindo uma sobrinha de três anos.
Além do apoio imediato às comunidades, a AIS pretende ajudar também na reconstrução de igrejas e edifícios pastorais destruídos ou danificados, considerados fundamentais para manter o apoio espiritual, social e humanitário às populações.
Mobilização em Portugal
Em Portugal, além da Fundação AIS, várias instituições católicas lançaram campanhas de solidariedade.
É o caso da Missão Dom Bosco – Fundo Solidário Salesiano lançou a campanha Emergência na Venezuela, destinada a financiar a distribuição de água, alimentos, medicamentos, produtos de higiene e apoio às famílias deslocadas, em articulação com as comunidades salesianas presentes no país.
Também o cardeal Américo Aguiar, bispo de Setúbal, dirigiu uma mensagem de solidariedade ao povo venezuelano, sublinhando a proximidade da tragédia devido à presença de numerosos portugueses e lusodescendentes entre os afetados e anunciando o envio de um donativo de 10 mil euros da sua diocese para apoiar as populações atingidas.
E a diocese do Funchal também se juntou à mobilização nacional, tendo anunciado que a receita do ofertório de todas as missas dos próximos dias 4 e 5 de julho será integralmente enviada para a Cáritas da Venezuela.
As diferentes iniciativas convergem na ideia de que a reconstrução exigirá um esforço prolongado da comunidade internacional. Mas, como sublinha a Amnistia Internacional, a ajuda humanitária só poderá responder plenamente às necessidades da população se for acompanhada pelo respeito dos direitos humanos, pela liberdade de informação e por condições que permitam às organizações da sociedade civil atuar sem restrições.










