A Junta Militar de Myanmar condenou a oito meses de prisão Benedetta Nya Moe, de 50 anos, da congregação das Irmãs da Caridade de Santa Bartolomea Capitanio e Santa Vincenza Gerosa, que apoiava deslocados internos na região leste de Demoso e nas proximidades de Loikaw, a quem prestava assistência médica. A condenação, proferida a 24 de junho por um tribunal militar, vai ao arrepio dos recentes esforços do regime para ser aceite pelos países vizinhos da ASEAN.
Embora sem conseguir superar o não reconhecimento da legalidade e dos resultados das “eleições” que organizou em janeiro deste ano, a atividade diplomática da Junta Militar conseguiu recentemente abrir algumas divisões entre os países membros da ASEAN. Os representantes governamentais de Myanmar continuam banidos de qualquer reunião daquela organização, mas Filipinas, Tailândia e Laos advogam uma reaproximação ao país. Prova disso é a visita oficial que o ex-chefe da Junta Militar, Min Aung Hlaing, na sua novíssima qualidade de Presidente de Myanmar acaba de fazer, a 3 de julho, ao Laos.
A brutalidade do golpe militar de 1 de fevereiro de 2021 que depôs o Governo apoiado pela Prémio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, originou uma autêntica guerra civil que causou mais de 100 mil mortos e um número incontável de deslocados e refugiados internos. Nos últimos meses, a divisão entre as diferentes guerrilhas de resistência e os avanços conseguidos em várias frentes pelo exército, que goza de um forte apoio militar da China, têm favorecido a afirmação externa dos militares no poder.

A freira birmanesa Irmã Ann Rose Nu Tawng ajoelha-se perante a polícia para pedir às forças de segurança que se abstenham da violência contra crianças e residentes, no meio de protestos contra o golpe em Myitkyina, Myanmar, a 8 de março. Imagem estática extraída de um vídeo. (Facebook))
Contudo, a maioria dos países da ASEAN considera que o regime ainda está longe de aceitar os cinco pontos para um processo de normalização votados pela organização em 24 de abril de 2021, pouco depois do golpe militar. Pontos que implicavam a cessação da violência, o início de um diálogo construtivo entre as partes interessadas, a aceitação de um enviado especial da ASEAN, apoio à visita de uma delegação da organização para se reunir com todas as partes envolvidas e receção de ajuda humanitária de primeira necessidade a ser distribuída por todo o país.
A notícia da prisão da freira Nya Moe vem corroborar as reservas de vários países quanto à normalização do regime de Myanmar, tanto mais que esta acontece em simultâneo com a recusa da Junta Militar em permitir que a enviada especial da ASEAN, Theresa Lazaro, se reunisse com— o episódio mais recente de uma série de negativas que têm impedido os enviados da organização de, desde novembro de 2021, ter acesso à Prémio Nobel.
Aung San Suu Kyi foi presa na sequência do golpe militar e posteriormente condenada por um tribunal militar a 33 anos de prisão. Detida durante mais de cinco anos em local secreto, a ex-Presidente eleita, de 80 anos, viu em abril deste ano a sua pena comutada para 18 anos e colocada em prisão domiciliária.
“A recusa da visita – afirmou a presidente do grupo de parlamentares da ASEAN pelos Direitos Humanos, a indonésia Mercy Chriesty Barends, – deixa claro o que o anúncio da transferência, feito em abril, ocultava: um regime em busca de cobertura diplomática sem fazer nenhuma das concessões que lhe confeririam credibilidade. Um ‘passo positivo’ que inviabiliza qualquer verificação independente não é passo algum.”
Interrogada até à condenação

Freira de Myanmar vai enfrentar tribunal militar depois de ter sido detida enquanto procurava medicamentos para pobres. Foto © News | Catholic Connect
“Pelo que soubemos, uma coluna militar intercetou-a quando transportava uma paciente deslocada para um hospital em Loikaw e prendeu-a”, disse à agência católica UCA News uma freira local que trabalhou anteriormente com Nya Moe no município de Demoso e pediu para não ser identificada. Dois moradores locais acompanhavam a freira no transporte de uma doente da vila de Zayatphyu, perto de Loikaw — a capital do Estado de Karenni, controlada pela junta militar.
“Durante a revista aos telemóveis, os soldados encontraram registos de doações recebidas e notícias relacionadas com o conflito armado no telefone da freira, o que levou à prisão de todos”, disse Ben Khoo, morador de Loikaw, à UCA News. Os três foram levados para uma base militar em Loikaw, para interrogatório.
Os dois moradores foram libertados quatro dias depois, mas a Junta continuou a manter a freira detida e sob interrogatório até ao seu julgamento por um tribunal militar. Nya Moe, de etnia Kayan, celebrou recentemente 25 anos de vida religiosa na sua congregação.
O município de Demoso esteve sob controlo das forças de resistência Karenni até agosto de 2025. Desde então, as forças da Junta reivindicam o controlo total do município, embora a região continue sendo fortemente disputada. As forças de resistência Karenni afirmam que os militares controlam apenas o centro urbano abandonado.
O Myanmar Peace Monitor afirma que os militares não detêm controlo total em nenhuma localidade da zona e que os grupos de resistência mantêm uma presença ativa nos arredores da capital, Loikaw.










