Vivemos em ilhas distantes entre si: mas de todas se avista Jerusalém.
Excelentíssimo Senhor Presidente Álvaro Beijinha:
Venho por este meio, como cidadão atento ao destino da região, dirigir-lhe esta carta aberta com o coração e a razão sintonizados com o futuro do Litoral Alentejano.
Tal como uma lenda da antiguidade tardia nos conta que o corpo de São Torpes chegou sem cabeça às praias de Sines, após uma viagem atribulada pelo mar, também hoje os investimentos milionários que inundam Sines configuram um corpo robusto, cheio de potencial, mas decapitado. Um complexo portuário estratégico, uma refinaria e petroquímica em transformação, centros de dados de escala global, projetos de hidrogénio verde, de fábricas de baterias de lítio, de uma nova refinaria de antimónio e infraestruturas logísticas e de comunicação de envergadura peninsular, chegam em vagas sucessivas mas faltam a coesão, a governação regional unificada e a cabeça que dê direção, identidade e voz própria a este corpo.
O Litoral Alentejo não pode continuar a responder de forma fragmentada. Os atuais cinco concelhos – Alcácer do Sal, Grândola, Sines, Santiago do Cacém e Odemira – formam uma unidade regional natural, com enorme riqueza cultural, paisagística e económica. Com um passado e património invejáveis, merecem um futuro justo e inclusivo para populações que muito sofreram, durante décadas ou mesmo séculos. Desde a presença humana pré-histórica, passando pelas civilizações fenícia, romana, visigoda e árabe que aqui deixaram vestígios profundos, entrosados pela fé em Deus, até ao papel de Sines como porto de acolhimento do mundo, esta é uma terra de encontros. Aqui o mundo chega e é recebido – e por isso permita-me que imagine este apelo para o futuro com uma personagem como Tintin que, em espírito aventureiro e de bem-fazer, desembarca em Sines, símbolo de abertura, curiosidade e ligação global.
Esta região enfrenta problemas partilhados: dos investimentos milionários (fala-se de 26 mil milhões de euros até 2030, 10% do PIB nacional) não sabemos quanto dinheiro deixam nos contribuintes e quanta tecnologia em nossas mãos; o turismo de luxo cresce contra a sustentabilidade ambiental; há desafios da integração de trabalhadores migrados que sustentam a economia local, desde as estufas de Odemira até às infraestruturas logísticas e de comunicação de todo o Alentejo Litoral; a preservação do património natural face à pressão do desenvolvimento, e a necessidade de equilibrar crescimento económico exigem coesão social. Perante tanta infra-estrutura económica, senhor Presidente, de que infraestruturas simbólicas dispõe para dar sentido e enquadrar os movimentos destes corpos?

Emmerico Nunes, “sineense de adopção, artista de referência da primeira metade do século XX e cujo Centro promoveu grandes exposições e iniciativas de arte contemporânea.” Foto © Fundação Calouste Gulbenkian.
Tem Vossa Excelência presente como o Núcleo Cultural da Câmara Municipal de Sines com Alberto Pidwelll Tavares (Al Berto) abriu caminho para a Sines cultural? Mas porque estão em ruínas a Quinta da Santa Catarina e a Quinta de Santa Isabel, antigas casas Pidwell? Tem Vossa Excelência presente a obra da ex-Cooperativa Cultural Emmerico Nunes, sineense de adopção, artista de referência da primeira metade do século XX e cujo Centro promoveu grandes exposições e iniciativas de arte contemporânea. Mas que continuidade dá o Centro de Artes, Prémio de arquitetura, a esse caminho. Tem Vossa Excelência no Museu de Sines, transformado pela sua direção em referência nacional, e juntamente com o Arquivo Municipal, um testemunho do levantamento das raízes populares da cidade e da região. Mas, senhor Presidente, tem as escolas da região a trabalhar para que possa existir um futuro pólo universitário? Tem uma ermida restaurada de Nossa Senhora das Salvas, mas por que está em ruínas a ermida de Nossa Senhora dos Remédios? Tem investigações de história, etnologia, e arqueologia que se projetam para os concelhos de Alcácer do Sal, Grândola, Sines, Santiago do Cacém e Odemira. Mas não será que ainda faltam infraestruturas simbólicas para saber o que é esta grande região das melhores praias da Europa, que vai desde Pedro Nunes de Alcácer, à Grândola, vila morena, a Vasco da Gama e seus irmãos de Sines?
Juntos, estes cinco municípios constituem uma NUTS [Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos] viável, com identidade própria e massa crítica suficiente para se unirem. É tempo de nos erguermos como tal. Propomos que Sines lidere a reivindicação conjunta para a criação de um novo distrito, com capital rotativa, que una estes cinco concelhos. Uma “cabeça” para o corpo de São Torpes – uma governação regional mais próxima, capaz de responder com uma só voz aos desafios e oportunidades do século XXI.

O núcleo sede do Museu de Sines e Casa de Vasco da Gama, instalados nos edifícios interiores do Castelo, foram inaugurados no dia 24 de novembro de 2008. Foto © Município de Sines
Esta ambição ganha ainda maior urgência com o Fundo Soberano de Portugal, anunciado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro em junho de 2026. Este instrumento, destinado a reforçar a autonomia do Estado em setores estratégicos como a energia, infraestruturas e desenvolvimento económico, como sucede na Noruega, Irlanda e Espanha, representa uma oportunidade histórica. Que melhor destino estratégico do que investir na coesão e capacitação de uma região como a nossa – um motor energético e logístico do país – dotando-a de uma estrutura administrativa à altura da sua relevância? O senhor Presidente sabe bem que o Alentejo Litoral está repartido entre dois distritos – e duas dioceses – sem proveito para ninguém.
Senhor Presidente, Sines tem a vocação natural para liderar esta união. Apelo a que assuma o papel de catalisador: convoque os seus homólogos dos quatro concelhos vizinhos, promova um fórum regional e eleve esta reivindicação ao Governo e à Assembleia da República. O corpo chegou à costa. Falta-lhe a cabeça. Juntos, podemos colocá-la sobre os ombros e fazer desta região um exemplo de desenvolvimento integrado, culturalmente rico e economicamente resiliente.
Com a certeza de que nos guiam o espírito de São Torpes, que terá confrontado o imperador Nero, e a hospitalidade milenar de Sines, apresento os meus mais respeitosos cumprimentos.
Mendo Henriques, cidadão adotivo do Litoral Alentejano
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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