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Edgar Morin vai para o céu?

| 10/07/2026

 

O pensamento de Morin sobre o fenómeno da Salvação emerge de vários factores, pressupondo uma leitura complexa, como ele fez toda a sua vida.

Questiono-me como é que em Morin este sistema de ideias (Salvação) organiza o caos da morte, mantém a coesão social, regula a ansiedade individual e, ao mesmo tempo, se modifica ao longo da história segundo o pensamento deste sociólogo e filósofo.

Depois de explorar o medo, mitos, e rituais, Morin escreve o Capítulo V do livro O Homem e a Morte onde analisa religiões e filosofias que propõem crenças de sobrevivência da alma para o fim inevitável do corpo com a morte.

Morin conclui no seu texto que a crença da vida após a morte é uma das respostas mais poderosas e complexas para lidar com a finitude da vida, tornando-se um pilar da cultura e da moral que transforma a relação do ser humano com a sua morte e faz emergir o sentido da vida.

Para enquadrarmos e compreendermos melhor o pensamento de Morin sobre a Salvação, há que estabelecer a relação com as suas teorias e conceitos de Religar e Complexidade.

O termo religar  aponta para a raiz etimológica de religião.

Para Morin, a Salvação é a resposta humana para religar o ser humano ao que foi desfeito, para voltar a estabelecer a conexão do Homem ao Sagrado, como fonte da vida e da eternidade.

A morte é vista como passagem para a “verdadeira vida” do tempo infinito, na dualidade da finitude do corpo, em que o sofrimento ou a glória são compensados, assim aliviando a dor da morte.

Por outro lado, a Salvação, religa cada pessoa à comunidade e antepassados através da memória colectiva, promovendo a coesão social.

No pensamento de Morin, a cultura é fundamental para religar o Homem ao seu destino e actualmente precisamos de reaprender e integrar aquele conceito, como explica no livro os Sete Saberes. Precisamos de desfragmentar o conhecimento para entender o ser humano por inteiro e não apenas em disciplinas isoladas. Segundo o pensador, é imprescindível a religação à casa comum que é a totalidade do planeta.

O conceito de Complexidade, conduz-nos ao abandono de explicações lineares, reducionistas ou simplificadoras. A Salvação não como um consolo psicológico, alienação ou dogma, mas como um fenómeno plural e complexo.

Para Morin, a vida ganha sentido integrando a morte, porque esta existe como fim biológico, , em que, sem oposição, o desespero e a esperança estão ligados e proporcionam a bênção e exaltação do sentido da vida.

Na Salvação, o destino pessoal e uma certa ordem cósmica estão associados e mantêm presente o mistério de Deus, ou do cosmo, estruturando o universo para além da morte. Não como uma revelação interior, ou imposição exterior, mas como uma auto-organização que dá resposta a mitos, simbologia que se altera em sistemas culturais diferentes.

Morin faz a sua demonstração pelo jogo de incerteza que traz a morte, considerando que a Salvação é uma estratégia para lidar com essa incerteza permitindo aos seres humanos viverem com essa rotura abrupta da vida prolongando-a.

Muito além de uma análise de crenças, Morin considera que a Salvação integra o que está disperso, abraça a complexidade do real e transforma a finitude biológica numa ponte para a eternidade. A Salvação emerge como resposta colectiva, histórica, psicológica e espiritual através da profundidade humana pela religação, tornando suportável a ideia de que um dia deixaremos de ser.

Nas teologias judaica, católica e ortodoxa, existem convergências, ou pertenças do pensamento de Morin sobre a Salvação.

Para aquelas fés, Deus é o soberano da vida e da morte, não sendo esta um acaso ou destino cego, mas encontrando-se sob o domínio divino. Todas acreditam que Deus julgará o Homem e mantêm a esperança na Salvação.

Em todas, a vida eterna não é um destino individual, mas tem de ser vivida em comunidade, com ritos próprios e liturgias que religam os vivos aos mortos.

No entanto há divergências:

Para os judeus, a Salvação não é a tomada de um paraíso individual, focando-se na vida terrena pela observância da Tora e a ressurreição é colectiva no fim dos tempos para restaurar Israel. A Salvação vem pela aliança com Deus pelo cumprimento da Lei, não existindo mediador entre Deus e os humanos. A morte não é inimiga, mas uma fronteira que não anula o valor da vida

Edgar Morin

“Morin faz a sua demonstração pelo jogo de incerteza que traz a morte, considerando que a Salvação é uma estratégia para lidar com essa incerteza permitindo aos seres humanos viverem com essa rotura abrupta da vida prolongando-a.” Foto © Lisaet | Wikimedia Commons

Para os Católicos a Salvação depende de um juízo individual e só então será eterna, em que um purgatório é o lugar de expiação e purificação e o inferno a condenação definitiva. Jesus é o mediador na Salvação, numa igreja sacramental que são os canais eficazes par alcançar a graça. A morte, como consequência do pecado original, é o inimigo vencido pela Ressurreição de Cristo e uma porta para a vida eterna

Para ortodoxos a Salvação é vista através da Deosis, ou seja, pela participação na vida divina, sendo a morte vencida pela Ressurreição de Cristo com destino à comunhão plena com Deus, num processo que começa em vida, pela graça, não existindo purgatório, mas um estado intermédio de espera. A Ortodoxia enfatiza a sinergia pela cooperação entre a graça divina e a liberdade humana, de forma contínua e transformadora. A morte é enfrentada com a Ressurreição, sem o medo e a ameaça de juízo final, sem especulação sobre o inferno, mas com fé na misericórdia de Deus  e com esperança na salvação universal.

Não sei se Edgar Morin vai para o céu.

Morin considerava-se agnóstico e procurou encontrar respostas para o mistério do cosmo, do Deus criador desconhecido.

Sei que deixou o seu pensamento e investigações espalhados por todo o planeta, em milhares de publicações e conversas que marcaram o pensamento de uma época.

 

Alberto Teixeira é cristão ortodoxo

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