Há uma pergunta que raramente formulamos, mas que talvez diga muito sobre a nossa forma de acreditar: e se o maior obstáculo à fé não for a dificuldade em acreditar em Deus, mas a facilidade com que imaginamos quem Ele deve ser?
Todos transportamos uma imagem de Deus. Não nasce apenas da leitura da Bíblia ou da tradição cristã. É moldada pela educação, pelas experiências vividas, pelas alegrias e pelas feridas. Sem nos apercebermos, vamos desenhando um Deus que faz sentido para nós: justo, mas previsível; próximo, mas tranquilizador; exigente, mas dentro dos limites que consideramos razoáveis.
O problema surge quando deixamos de distinguir entre Deus e a ideia que fazemos d’Ele.
A Bíblia é surpreendentemente lúcida a este respeito. Desde as suas primeiras páginas, mostra homens e mulheres que tentam compreender Deus e acabam, repetidamente, por descobrir que Ele não cabe nas imagens que tinham construído.
O episódio do bezerro de ouro é talvez o exemplo mais evidente (Êxodo 32). Enquanto Moisés permanece no Sinai, o povo perde a confiança. A ausência de Deus torna-se insuportável e nasce a necessidade de O tornar visível. À primeira vista, trata-se apenas de um caso clássico de idolatria. Mas talvez haja ali algo mais profundo.
O bezerro representa a tentativa de transformar o Deus livre num deus disponível. O Deus que fala quando quer num deus que pode ser consultado quando convém. O Deus que conduz a História num deus que acompanha os nossos projetos. Não era apenas uma nova divindade. Era um Deus tornado previsível.

Adoração do Bezerro de Ouro, por Nicolas Poussin (1594–1665). “O bezerro representa a tentativa de transformar o Deus livre num deus disponível.” Imagem: Domínio Público, via Wikimedia Commons
Talvez seja essa a forma mais subtil de idolatria. Não a substituição de Deus, mas a sua redução à medida das nossas expectativas.
Ao longo da Escritura, Deus resiste continuamente a esse processo. Chama Abraão para abandonar a segurança da sua terra (Génesis 12,1). Escolhe Moisés, um fugitivo, para enfrentar o maior império do seu tempo (Êxodo 3,10). Perdoa Nínive, provocando a indignação de Jonas, que preferia um Deus mais rigoroso e menos misericordioso (Jonas 4,1-2). Quando Jó exige explicações para o sofrimento, Deus não lhe oferece uma resposta simples, mas convida-o a reconhecer os limites da compreensão humana (Jó 38-41).
A impressão que fica é curiosa: sempre que alguém pensa ter Deus compreendido, Deus surpreende-o.
Nos Evangelhos acontece exatamente o mesmo. Jesus aproxima-se de quem devia evitar, toca quem era considerado impuro, elogia estrangeiros, conversa com samaritanos, senta-se à mesa com pecadores e faz da misericórdia um critério mais importante do que a reputação religiosa. Não destrói a tradição de Israel, mas desafia continuamente as interpretações que impediam de reconhecer a ação de Deus.
Nem os discípulos escaparam a esse processo. Esperavam um Messias vencedor, capaz de restaurar a independência de Israel e inaugurar um reino de poder. Encontraram, porém, alguém que falava mais de serviço do que de domínio, mais de cruz do que de triunfo.
É significativo que, já depois da ressurreição, continuem a perguntar: «Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?» (Atos 1,6). Tinham caminhado com Jesus durante anos, tinham assistido à sua morte e acreditavam na sua ressurreição. Ainda assim, continuavam a esperar um Deus que correspondesse às suas categorias políticas e religiosas.
Talvez essa pergunta continue, de outras formas, a ser também a nossa.
Gostamos de um Deus que confirme as nossas opiniões, legitime as nossas escolhas e resolva rapidamente aquilo que nos inquieta. Esperamos que intervenha segundo a lógica que consideramos justa e que recompense o bem da maneira que imaginamos. Quando isso não acontece, não raramente sentimos que Deus falhou.
Mas será Deus que falha ou será a imagem que construímos d’Ele?
O profeta Isaías exprime esta tensão numa frase que atravessou os séculos: «Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos são os meus caminhos» (Isaías 55,8). Não se trata de afastar Deus da Humanidade, mas de recordar que a Sua realidade nunca pode ser inteiramente capturada pelas nossas categorias.
A tradição cristã compreendeu isto muito cedo. Deus pode ser conhecido, mas nunca esgotado. Quanto mais O conhecemos, mais percebemos que permanece maior do que as nossas definições. A fé não elimina o mistério; aprende a habitá-lo.
Talvez seja por isso que a maturidade espiritual não consista em possuir respostas cada vez mais completas, mas em conservar a disponibilidade para ser surpreendido. A Bíblia mostra um Deus que desinstala mais do que confirma, que chama mais do que acomoda, que abre caminhos onde apenas vemos impasses.
No fundo, a questão não é se acreditamos em Deus. A questão é se estamos dispostos a deixar que Deus seja diferente da imagem que fizemos d’Ele. Porque, por vezes, o verdadeiro ídolo não é um deus de ouro. É um Deus feito à nossa imagem.
Dália Fernandes é mestre e doutoranda em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
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