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© UNRWAAshraf Amra Um menino corre pelas ruas destruídas de Gaza. Foto de arquivo
Um menino corre pelas ruas destruídas de Gaza. Foto © UNRWA/Ashraf Amra

Gaza

Pelo menos 300 crianças mortas em 300 dias de cessar-fogo, denuncia UNICEF

| 07/08/2026

Foram 300 dias de suposto cessar-fogo na Faixa de Gaza, e 300 crianças mortas: de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), uma criança morreu, em média, por dia, desde que entrou em vigor, a 10 de outubro de 2025, o acordo destinado a suspender os combates entre Israel e o Hamas. A UNICEF alertou esta quinta-feira, 6 de agosto, que a violência continua na região, enquanto a fome, a falta de cuidados de saúde e as restrições à ajuda humanitária põem em risco a vida de milhares de crianças.

“Um cessar-fogo que deixa morrer, em média, uma criança todos os dias está a falhar às crianças”, afirmou o diretor regional da UNICEF para o Médio Oriente e Norte de África, Edouard Beigbeder, citado pelo portal ONU News. Centenas de outras ficaram feridas, muitas delas com gravidade, acrescentou: “As crianças de Gaza continuam à espera do fim da violência que lhes foi prometido.”

O alerta surge num momento em que há notícias de um novo plano de paz liderado pelos Estados Unidos e depois de um aumento recente dos ataques aéreos israelitas contra alegados alvos do Hamas. Segundo a UNICEF, as famílias palestinianas estão agora confinadas a cerca de um terço do território da Faixa de Gaza, onde procuram abrigo entre edifícios destruídos, escombros e resíduos por remover.

Beigbeder acolheu favoravelmente os anúncios de possíveis passos para o fim das hostilidades e para o reforço da ajuda humanitária, mas advertiu que qualquer acordo terá de ser avaliado pelos seus efeitos concretos.

“Para as crianças de Gaza, o teste é simples: as mortes param? A ajuda chega em quantidade suficiente? Os hospitais reabrem e a água volta a correr? As crianças poderão regressar à escola em segurança em setembro?”, perguntou, para logo a seguir concluir: “As crianças já ouviram promessas antes. Desta vez, os acordos têm de se traduzir em ações.”

 

Recém-nascidos partilham incubadoras

A desnutrição aguda, as doenças, a água imprópria para consumo e os sistemas de saneamento danificados continuam a marcar a vida das crianças no enclave. Profissionais de saúde apoiados pela UNICEF relatam a chegada aos centros de mães exaustas e com fome, levando ao colo filhos gravemente subnutridos.

A escassez prolongada de alimentos e de assistência médica está também associada a um aumento dos partos prematuros e do número de recém-nascidos em estado crítico. “Não há incubadoras suficientes” e, em algumas unidades, “dois ou mesmo três bebés partilham uma única máquina”, relatou por sua vez a porta-voz da UNICEF, Louise Wateridge.

“Em Gaza, crianças com apenas alguns dias de vida já lutam para sobreviver, nascidas em hospitais que funcionam apenas parcialmente e onde faltam equipamentos e medicamentos”, afirmou. “O mundo chama-lhe cessar-fogo, mas as famílias de Gaza continuam a enterrar os seus filhos.”

O Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCHA) confirma que os ataques aéreos continuam a causar vítimas civis e danos em infraestruturas e material médico essencial. As operações militares junto da chamada “Linha Amarela” — uma linha de separação assinalada por blocos de betão colocados pelo exército israelita —, bem como ataques noutras zonas, têm provocado novas deslocações e limitado o acesso a serviços vitais.

De acordo com as autoridades de saúde de Gaza, citadas pelo OCHA, 1209 pessoas morreram e 3943 ficaram feridas desde o anúncio do cessar-fogo, a 10 de outubro de 2025.

No último fim de semana, um ataque contra um armazém médico junto ao Hospital Al-Aqsa, em Deir al-Balah, destruiu medicamentos e outros bens essenciais, incluindo material entregue pela Organização Mundial da Saúde.

 

Ajuda não chega na escala necessária

Apesar da violência e das restrições, as Nações Unidas e as organizações parceiras mantêm operações de assistência. Na última semana, foram melhorados três mil abrigos improvisados na cidade de Gaza e nove mil famílias receberam bens essenciais, entre os quais lonas, cobertores, colchões, candeeiros solares, roupa e utensílios de cozinha.

O OCHA sustenta, porém, que a ampliação da resposta depende da entrada atempada de madeira, cordas, ferramentas e mais candeeiros solares.

Já esta terça-feira, a UNICEF conseguiu fazer entrar em Gaza mais de 600 paletes com materiais recreativos, mochilas escolares e sabão, destinados a ser distribuídos antes do início do novo ano letivo. Mais de 250 mil crianças em idade pré-escolar e escolar participam entretanto em atividades de aprendizagem de verão, numa tentativa de recuperar parte do ensino perdido e de lhes devolver alguma rotina e estabilidade.

Mas, para a instituição, as medidas anunciadas só terão significado se interromperem a violência, garantirem proteção às crianças e permitirem a entrada de ajuda em grande escala. “Isto é o que o mundo escolheu tolerar”, declarou Louise Wateridge. “As mortes têm de parar.”

 

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