[domingo xxi do tempo comum ― a ― 2026]
1. Quem desejar ser bom administrador dos dons de Deus
e, inclusive, dos bens públicos ao serviço das populações,
há de exercitar-se em duas expressões fundamentais da condição humana,
que, constantemente, desde o coração, acabam por transbordar da sua boca.
Digo-o em relação a todas as pessoas que exercem cargos públicos
― quem lidera e trabalha em instituições políticas, jurídicas,
militares, sociais e religiosas, ou de outra natureza ―,
mas poderá dizer-se, também, de cada um de nós,
na administração dos dons que recebeu para melhor servir a comunidade.
Por isso, quanto mais alta for a responsabilidade confiada,
tanto mais se lhe pedirá em termos de justiça e de isenção.
Quais serão essas dimensões?

[Interrogar. Escultura de Dante Alighieri a pensar. Piazza dei Signori, Verona. Fotografia © Joaquim Félix]
Creio que as saberemos identificar, tão importantes elas são.
Eis porque, se agora criássemos uma nuvem de palavras,
tais dimensões apareceriam seguramente nos lábios desta assembleia.
«Dar-se ao espanto» e «fazer perguntas» a cada instante;
com estas duas dimensões, e como corolário do seu mútuo abraço,
por certo, não faltaria a ninguém a gratidão traduzida em louvores.

[Dar-se ao espanto. Fotografia de Guido Hariri. «Incontri 50 anni di fotografie e racconti». Basilica Palladiana, Vicenza. Fotografia © Joaquim Félix]
2. É por isso que, hoje, começo a moagem da Palavra ouvida
com a breve passagem da Epístola de S. Paulo aos Romanos.
Na verdade, nos quatro versículos de que ela se compõe,
Paulo inicia com duas exclamações,
passa depois a formular três perguntas
e, por fim, remata com uma doxologia, uma ação de graças a Deus.
Admirar-se. Perguntar. Louvar.
Não serão estes os três verbos que os administradores mais amam?
Admirar-se. Perguntar. Louvar. Repito-os, para conjugá-los sempre.

[Louvar. Tocando músicas de jazz. Giardino degli Aranci, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]
3. Enchendo-se de espanto, S. Paulo exalta a profundidade
da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus (cf. Rom 11,33).
Esta sua expressão faz-me lembrar uma frase que meditei, há dias,
no Palazzo Bonaparte, em Roma, numa exposição que,
além da pintura «As três Idades da Mulher» (1905), de Gustav Klimt,
compreende obras-primas, pertencentes à Coleção Generali,
que abrangem períodos significativos da arte italiana do século XX.
Pois bem, nela, era possível meditar a frase de Umberto Saba:
«Amei as verdades que se encontram no fundo» (Il Canzoniere, 1921).
Amando, a seu modo, as realidades profundas de Deus,
também São Paulo exulta naquele assombro que o faz exclamar:
«Como são insondáveis os seus desígnios
e incompreensíveis os seus caminhos!» (Rom 11,33).

[«Como são incompreensíveis os seus caminhos!» Dolomitas, Itália. Fotografia © Joaquim Félix]
4. A admiração leva-o, de seguida, a fazer perguntas de fundo:
«Quem conheceu o pensamento do Senhor?
Quem foi o seu conselheiro?
Quem lhe deu primeiro,
para que tenha de receber retribuição?» (Rom 11,34-35).
Durante este verão, em férias ou não, teremos usufruído
de momentos favoráveis à admiração, com fenómenos cósmicos
e paisagens com pessoas, plantas, flores e animais surpreendentes.
Além disso, sendo esta uma época repleta de concertos e festividades,
teremos apreciado a alegria e a marcha dos povos,
atentos os seus desfiles, devoções e músicas, tapetes e procissões.
Enfim, imagino que, também nós,
do estado de admiração tenhamos passado a fazer perguntas profundas.
Claro que S. Paulo fez aquelas três perguntas,
porque estava admirado com a misericórdia de Deus que,
não obstante a rejeição dos judeus em relação à salvação oferecida,
jamais os deixou de fora, na fidelidade à Sua promessa.

[S. Paulo fez aquelas três perguntas, porque estava admirado com a misericórdia de Deus». Paulo ao lado de uma ave. Motivo numa das portas da Basílica de S. Paulo Fora dos Muros, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]
5. Com salutar sentido de ironia e compromisso,
estou persuadido de que vivemos carentes de uma certa poesia,
a qual, na semelhança daquela presente nas «músicas de intervenção»,
nos poderia proporcionar outro respiro e compromisso comunitário.
Para reafirmar isto, socorro-me novamente da voz de Paco Ibáñez,
já com 91 anos, que musicou e canta o poema intitulado
«A Poesia é uma arma carregada de futuro», de Gabriel Celaya,
cuja versão completa, traduzida por José Bento, passo a declamar.
6. «Quando já nada se espera de pessoalmente exaltante,
mas se palpita e se continua para cá da consciência,
ferozmente existindo, cegamente afirmando,
como um pulso que lateja nas trevas,
quando se olham de frente
os claros olhos vertiginosos da morte,
dizem-se as verdades:
as bárbaras, terríveis, amorosas crueldades.
Dizem-se os poemas
que dilatam os pulmões de quantos, asfixiados,
pedem ser, pedem ritmo,
pedem lei para o que sentem excessivo.
Com a velocidade do instinto,
com o raio do prodígio,
como mágica evidência, converte-se o real
no idêntico a si mesmo.
Poesia para o pobre, poesia necessária
como o pão de cada dia,
como o ar que exigimos treze vezes por minuto,
para ser e enquanto somos dizer um sim que glorifica.
Porque vivemos de vez em quando, porque mal nos deixam
dizer que somos quem somos,
nossos cantos não podem sem pecado ser um ornamento.
Estamos a tocar o fundo.
Maldigo a poesia concebida como um luxo
cultural pelos neutrais
que, lavando as mãos, se desinteressam e evadem.
Maldigo a poesia de quem não toma partido até manchar-se.
Faço minhas as faltas. Sinto em mim quantos sofrem
e canto ao respirar.
Canto, canto, e a cantar para além de minhas mágoas
pessoais, fico maior.
Quisera dar-vos vida, provocar novos actos,
e calculo por isso com técnica, que venço.
Sinto-me um engenheiro do verso e um operário
que com outros trabalha Espanha nos seus aços.
Assim é a minha poesia: poesia-ferramenta
e ao mesmo tempo pulsação do unânime e cego.
Assim é, arma carregada de futuro expansivo
com que te aponto ao peito.
Não é uma poesia gota a gota pensada.
Nem um belo produto. Nem um fruto perfeito.
É algo como o ar que todos respiramos
e é o canto que difunde o que dentro levamos.
São palavras que todos repetimos sentindo
como nossas, e voam. São mais que o que elas dizem.
São o mais necessário: o que possui um nome.
São gritos no céu, e, na terra, são actos.
(Tradução de José Bento, Cantos Íberos, 1955)

[«São gritos no céu, e, na terra, são actos». Jardim Místico. Convento dos Carmelitas Descalços, Veneza. Fotografia © Joaquim Félix]
7. Por diversas vezes, em homilias passadas,
centrei-me nas perguntas de fundo feitas por Jesus em Cesareia de Filipe.
Também Jesus andava admirado, sim, deveras surpreendido,
por verificar que ninguém, mesmo depois dos sinais e gestos oferecidos,
O reconhecia como o Messias.
Não porque ignorasse o que habitava no coração das pessoas,
Jesus quis saber se os seus discípulos acompanhavam a opinião pública,
e, por isso, perguntou-lhes o que d’Ele diziam.
As respostas são todas generosas, mas, ainda assim, não estão certas.
Só depois de ouvi-las é que Jesus dirige a pergunta aos seus discípulos:
«E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mt 16,15).
Cada um, a seu modo, procure responder com a vida, palavras e atos.

[«E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mt 16,15). Instante numa rua de Viana do Castelo, com tapetes de sal, durante a romaria da Senhora da Agonia. Fotografia © Joaquim Félix]
8. «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo» (Mt 16,16).
Pedro responde acertadamente, o que lhe vale um elogio da parte de Jesus,
que coloca em relevo não o seu mérito, mas a verdade revelada por Deus.
Depois que se tornou claro que Ele é o Messias,
Jesus edifica a sua Igreja sobre a pedra de Pedro; firme, mas pedra-pomes.
E, insuflado nos seus poros, confia-lhe as chaves do reino dos Céus,
com a responsabilidade de ligar e desligar a comunhão terra-céus.

[Confia-lhe as chaves do reino dos Céus. Mosaico na Basílica de S. Paulo Fora dos Muros, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]
9. Embora pudesse explorar o significado do «múnus petrino»,
prefiro centrar a nossa atenção nas qualidades de quem é habilitado
com encargos maiores, a muitos níveis,
na relação de serviço para com o povo de Deus e na sociedade civil.
De facto, o «poder das chaves» comporta grandes responsabilidades.
É algo que se verifica seja com Pedro, em termos eclesiais,
seja, como ouvimos de Isaías, com os administradores do palácio real.

[O «poder das chaves» comporta grandes responsabilidades. Fotografia © Joaquim Félix]
10. Consultando os contextos das passagens de Isaías e do Evangelho,
verificaremos que, quanto a desvios, os problemas são semelhantes.
Em relação a Pedro, se hoje é objeto de um rasgado elogio,
no próximo domingo, iremos ouvir Jesus a repreendê-lo severamente:
«Vai-te daqui, Satanás.
Tu és para mim uma ocasião de escândalo,
pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens» (Mt 16,23).
Quanto a Chebna, conforme os versículos anteriores do livro de Isaías,
ficamos a saber que a sua expulsão de administrador do palácio
se deverá ao uso de dinheiro do povo para fins privados:
a construção para si de um sumptuoso mausoléu (cf. Is 22,16).
As insígnias passaram para Eliacim, de quem se esperava
que fosse como «um pai para os habitantes de Jerusalém» (Is 22,21).
Certo é que ele, que tinha sido bem fixado
«como uma estaca em lugar firme» (Is 22,21),
depressa se tornou não um trono, mas uma desonra para a casa de seu pai.
Porquê? Porque, como à frente poderemos ler (cf. Is 22,24-25),
nele se penduraram os seus familiares, os filhos e os netos,
para viverem, digamos assim, à custa do erário público.

[Nele se penduraram os seus familiares, os filhos e os netos. Fotografia © Joaquim Félix]
11. Por conseguinte, para que os responsáveis
usem bem as chaves, nas mãos ou aos seus ombros colocadas,
é importante que meditem, com assombro, na forma como o Senhor
exerce o seu pensamento e, com poder serviçal, se torna misericordioso.
Admirar-se. Perguntar. Louvar.
Repito os verbos, para que cada um de nós, também, os conjugue bem.
E, como a S. Paulo, não nos falte o espanto nem o «sim que glorifica»:
«D’Ele, por Ele e para Ele são todas as coisas.
Glória a Deus para sempre. Amen.» (Rom 11,36).

[Admirar-se. Perguntar. Louvar. Da formiga que atravessa uma flor. Jardim Místico. Convento dos Carmelitas Descalços, Veneza. Fotografia © Joaquim Félix
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens e Teorbas da Palavra. Este texto corresponde à homilia de domingo, 23 de agosto, [domingo xxi do tempo comum ― a ― 2026], proferida na igreja de Santa Cruz, em Braga.




![De 125 Azul [Palavra] até à outra margem Joaquim Félix](https://setemargens.com/wp-content/uploads/2026/08/1-1-e1786370917105-480x270.jpg)





