Hagiografia é a biografia ou o estudo sobre a vida,
as virtudes e os milagres de santos e beatos,
principalmente no âmbito da Igreja Católica.
A palavra, com origem no século XVII,
vem do grego hagios (santo) e graphé (escrita).
O objetivo principal destes relatos é servir de exemplo
moral e espiritual para os fiéis.
Ouso escrever uma “hagiografia” de Santa Brígida de Kildare, bem menos conhecida do que Brígida da Suécia (século XIV). Tive a oportunidade de fazer uma peregrinação à Irlanda com um grupo de cristãos da Capela do Rato (8 a 14 de julho) – o detalhado “diário” de viagem será publicado no site da Capela e foi muito estimulante escrevê-lo. O Padre António Martins, capelão da referida capela, sabendo da minha simpatia por mulheres fortes e ousadas na Igreja, e sensível à necessidade da sua liderança, pediu-me que preparasse uma reflexão para ser partilhada com o grupo de peregrinos no dia 11 de julho, dia em que visitaríamos a abadia de Kildare fundada por Santa Brígida em 480.
Com base naquilo que pesquisei sobre a fascinante figura que é Santa Brígida creio que fará sentido tentar uma hagiografia que tenha relevância para os dias de hoje. Necessariamente terei de incorporar a minha subjetividade e modo de olhar o que vi e li sobre Santa Brígida. Assim fui levada de imediato a perguntar se Santa Brígida terá sido a primeira santa ecofeminista num tempo bem anterior ao que denominamos hoje de ecofeminismo?

Foto retirada do vídeo de apresentação do filme “Françoise d’Eaubonne, une épopée écoféministe” de
Manon Aubel (2022)
O ecofeminismo estabelece uma conexão direta entre a opressão das mulheres pelo patriarcado e a destruição da natureza pelo sistema de exploração humano.
(Françoise d’Eaubonne)
A terminologia ecofeminismo descreve uma vertente do movimento feminista (pela minha parte gosto da terminologia movimento feminista que abre perspetivas para múltiplos feminismos – não excluindo os homens sensíveis a esta problemática) – que liga o feminismo com a ecologia, e começou a emergir no início dos anos 70. O ecofeminismo questiona o modelo económico capitalista de caráter extrativista (comum no “patriarcado”) que destrói o ambiente, “ignorando a abordagem que as mulheres têm ao princípio da vida que respeita e protege o planeta”. Foi a escritora feminista Françoise d’Eaubonne no seu livro “Le feminisme ou la Mort” (1974) que iniciou este movimento “ecofeminista”. Ela diz que as mulheres em economias de subsistência produzem riqueza em parceria com a natureza. “Por isso têm sido percursoras do conhecimento holístico e ecológico dos processos da natureza”. Segundo d’Eaubonne o homem que se inclina mais facilmente para um olhar de acumulação “não consegue perceber a interdependência da natureza, ou a conexão da vida das mulheres, o trabalho e conhecimento com a criação de riqueza”. Será que podemos ligar Santa Brígida ao Ecofeminismo? Em jeito de hagiografia ouso então fazê-lo.
Brígida ou Bríd?
Brígida (Brigit, Bridget, Bridgit, Bríd)) é considerada uma “mother saint” (Naomh Bhríde, em gaélico), mãe espiritual da Irlanda, o que revela a sua importância na cultura celta. Brígida de Kildare viveu entre 451 e 525 (séculos V e VI) tendo sido bem anterior a Brígida da Suécia. Está entre os três maiores santos cristãos da Irlanda em paralelo com São Patrício (Patrick) e São Columba. São Patrício, o santo padroeiro da Irlanda (sobretudo na diáspora irlandesa), foi capturado por piratas e entrou na Irlanda como escravo, vindo da Escócia (onde nasceu por volta de 385), cristianizando toda a ilha e morrendo em 461. São Columba (521-597) estudou com algumas das figuras mais proeminentes da Igreja da Irlanda e fundou vários mosteiros no país estabelecendo-se mais tarde na Escócia. Tão invocada como S. Patrício, o dia da Festa de Santa Brígida é o 1 de fevereiro, feriado nacional na Irlanda. Este feriado dedicado a Brígida está na continuidade de uma celebração pagã celta que assinala o início da primavera: a festa da Luz. O nome Brígida (Bhríd, Bridget) para os “pagãos” representava a deusa do fogo e da luz, cujas manifestações foram a música, o artesanato e a poesia. Os celtas consideravam, de uma forma muito bela e sentida, que a poesia era a chama do conhecimento. Assim Santa Brígida, que alguns afirmam ter sido também batizada por São Patrício, é considerada a santa que estabelece a ponte entre a tradição celta (dos druidas pagãos) e o cristianismo: um exemplo de aculturação e sincretismo religioso criando, de duas ou mais crenças ou doutrinas diferentes, uma nova forma de expressão espiritual, mantendo “traços visíveis das origens”.

“Santa Brígida aparece como uma figura profundamente maternal, plena de cuidado pelos outros, pobres e doentes, incluindo os que mais sofrem em espírito.” Foto © site Catholic.net
Senhor, Deus de toda a terra,
que destes a Santa Brígida,
o dom de vos ver no irmão necessitado,
olhai por nós, chamados a ser vossos peregrinos
no labirinto das cidades.
(…)
Que a vossa graça
pacifique a nossa pressa,
purifique as nossas intenções
no meio da agitação,
e faça de cada um(uma) de nós
um ponto de luz e paz.
(de uma oração a Santa Brígida)
Santa Brígida aparece como uma figura profundamente maternal, plena de cuidado pelos outros, pobres e doentes, incluindo os que mais sofrem em espírito.
Brígida era filha de uma escrava e do rei de uma tribo celta. Nasce em Dundalk em 451 e terá morrido em 525 em Kildare. A sua história faz parte do folclore pagão celta: existiria uma deusa druida com o mesmo nome, Brigid ou Bríd, associada à cultura, proteção e ao fogo que era sinal de vida. Conta-se que Brígida foi responsável por transformar e converter o templo pagão da deusa gaélica Brigid (Bríd em gaélico) num mosteiro cristão. Por isso é considerada fundadora do monacato feminino na Irlanda.
A mãe, escrava de um chefe tribal, tinha sido batizada por São Patrício, tornando-se uma fervorosa cristã e transmitindo à sua filha esse profundo fervor. Discípula de São Patrício, portanto, Brígida acaba por se tornar monja e terá fundado vários mosteiros, o principal deles sendo o de Kildare de que o grupo de peregrinos visitou a catedral presentemente usada apenas para o culto anglicano.

Catedral de Santa Brígida, Kildare, Irlanda. No local onde Santa Brígida fundou um convento no século V, pode ver-se a catedral do século XIII [destruída nas guerras irlandesas de 1641 e profundamente restaurada em 1896] e uma torre redonda do século XII. Foto © site Irland.com
A catedral gótica é do século XIII, com magníficos vitrais representando a vida de Santa Brígida e foi construída no local onde Brígida fundou um mosteiro de origem tradicional celta no ano de 480. Claro que o mosteiro original era diferente da presente catedral: curioso ver à entrada da catedral uma reprodução em maquete, de um modelo do mosteiro celta. Construído numa ampla clareira: a lenda afirma que o bispo local prometeu a Brígida um pequeno terreno da amplitude do seu manto circular. Por “milagre” o manto de Brígida foi-se alargando, alargando…até se tornar um magnífico e amplo terreno. Do centro emerge uma simples igreja em madeira à sombra de um colossal carvalho celta, anteriormente objeto e local de culto pelos “pagãos”. Dos dois lados do campo estavam o “bairro” das monjas e o “bairro” dos monges já que o mosteiro era misto: pequenas cabanas circulares em adobe e teto de colmo. Numa zona mais isolada via-se o abrigo circular do bispo rodeado de cabanas pequenas destinadas às monjas e monges mais idosos. Não podemos esquecer que a prioresa era Santa Brígida que vivia também numa cabana maior. O amplo espaço incluía cozinhas e sala de refeições, pequenas hortas domésticas, um forno para o pão, uma área para trabalho em ferro e outros metais, um hospital e uma escola para crianças. E, claro, junto à igreja, o “scriptorium”, local onde monjas e monges copiavam manuscritos e se faziam iluminuras. De notar que o convento era semelhante a uma antiga aldeia celta bem circular. Havia também um amplo espaço para zelar pelo fogo, ao jeito da tradição dos antepassados, que era mantido aceso dia e noite. O fogo é um importantíssimo símbolo da cultura celta, adorado pelos mais antigos. No mosteiro as monjas, noite e dia, eram responsáveis por manter o fogo aceso. De salientar que Brígida nunca autorizou que fosse deitado abaixo ou danificado o imenso carvalho junto à igreja porque era também objeto de culto para os druidas. A inculturação e o sincretismo religioso existiram na Irlanda desde os primeiros séculos do cristianismo.
Ao lado da catedral existe uma imponente torre circular medieval de 33 metros de altura destinada a defesa.
Como terá Brígida alcançado tal empreendimento?

“Segundo a lenda, desde a mais tenra idade Brígida manifestava uma profunda sensibilidade aos pobres e aflitos. Aos 7 anos chegou a casa vestida com um “manto” de folhas de árvores da floresta porque havia dado a sua túnica a um pobre.”
Em cada pobre encontrei o fogo do meu Senhor
(Brígida de Kildare)
Recebei em herança o Reino:
Sempre que fizerdes isto
a um dos meus irmãos ‘pequeninos’
é a mim que o fazeis
(Mateus 25, 34)
Perguntamo-nos como é que esta filha de uma escrava chegou à construção do seu próprio mosteiro: um mosteiro semelhante a uma aldeia!
Segundo a lenda, desde a mais tenra idade Brígida manifestava uma profunda sensibilidade aos pobres e aflitos. Aos 7 anos chegou a casa vestida com um “manto” de folhas de árvores da floresta porque havia dado a sua túnica a um pobre. Era considerada uma criança afável, mas determinada e convincente. A sua generosidade foi aumentando a ponto de esvaziar o celeiro da casa paterna, fazer desaparecer o leite e a manteiga e até dar as joias a uns leprosos para que se pudessem curar.
Para Brígida Cristo aparece “identificado nos pobres”: não podemos deixar de nos lembrar do Papa Francisco que afirmava: “os pobres ensinam-nos”.
O pai “pagão” que tinha prometido Bríd a um poeta da sua corte porque era muito bela com os cabelos ruivos espalhados pelas costas, perante a insistência de Brígida e as perdas financeiras com impacto no seu bom viver, acaba por a deixar sair de casa para fundar em 480 um mosteiro em Kildare com algumas jovens seguidoras. Brígida não teria ainda 18 anos.
Revesti-vos de Cristo mediante a fé. Não há judeu nem grego;
não há escravo nem livre;
não há homem e mulher,
porque todos sois um só em Cristo Jesus
(Gálatas 3, 26-29)
Dir-se-ia que Brígida tinha uma visão que envolvia todos sem distinção: a força desta mulher celta cristã, a sua convicção de ser discípula de Cristo Jesus, a sua determinação em fundar uma comunidade que tomasse o atendimento aos pobres como prioridade, a sua luz interior, levaram a que outros a seguissem para fundar o mosteiro de Kildare. Homens e mulheres, escravos ou livres, sabiam que era sob a liderança inspirada de Brígida que iriam trabalhar para o Reino de Deus.
Assim o mosteiro era também aberto a monges desde que se submetessem à autoridade de Brígida, a abadessa. O próprio bispo residente a tal era compelido dando prioridade ao seu trabalho pastoral. Levando uma vida simultaneamente contemplativa e ativa, as monjas e os monges cuidavam dos pobres e dos doentes, bordavam e reparavam tecidos, ensinavam ofícios aos camponeses, incluindo o fabrico da cerveja: nesses tempos a água potável nem sempre era segura, e a cerveja (de baixo teor alcoólico porque feita de grãos fermentados) era uma fonte nutritiva essencial e segura de hidratação.
Mas Kildare era também um centro cultural com o trabalho no scriptorium: tanto os monges como as monjas dedicavam parte do tempo à cópia e decoração de textos sagrados: “Kildare abrigou uma célebre escola de iluminuras e trabalhos em metal, de onde emergiu o lendário e ricamente adornado Livro de Kildare (hoje perdido), usado para enaltecer as leituras litúrgicas dos Evangelhos”. Copiar livros sagrados, fazer ricas iluminuras era, tal como os outros trabalhos, uma forma contemplativa de rezar e de louvar a Deus.
Ora este mosteiro combinava uma devoção cristã primitiva enraizada nas práticas religiosas das tribos celtas quanto à sacralidade da natureza, com a rica herança do monaquismo celta. Como foi anteriormente dito funcionava como um mosteiro duplo — acolhendo monges e monjas sob a liderança de uma abadessa com a ajuda de um bispo (um deles foi São Conleth) — tornando-se “um vibrante polo de oração, arte litúrgica e proteção aos necessitados”.
Lembramos que, na tradição celta “pagã” Bríd era uma deusa guerreira e solar que conseguia transmitir “um equilíbrio perfeito entre a feminilidade e o poder sem concessões.” Em contraponto Santa Brígida foi-se tornando-se famosa pelo seu senso comum e sentido prático, mas acima de tudo pela sua santidade e verdadeiro amor a Deus – um real misticismo com os pés bem assentes na terra. Em “sororidade” com a deusa Bríd é importante verificar que Santa Brígida, na sua autoridade natural, se impunha a reis e bispos sem os afrontar diretamente. Apenas os convencia da sua visão para o convento de Kildare. A sua Abadia tornou-se um dos mais prestigiados mosteiros da Irlanda, famoso em toda a Europa cristã.
A incorporação das tradições celtas na liturgia

“Um dos traços litúrgicos mais marcantes era a manutenção de um fogo sagrado perpétuo.” Foto © Site saintbrigids.org
A rotina diária do mosteiro de Kildare integrava a celebração eucarística (assegurada pelo bispo), mas também o ofício divino, a recitação dos salmos e as vigílias noturnas. Um dos traços litúrgicos mais marcantes era a manutenção de um fogo sagrado perpétuo: “este fogo continuou a arder por séculos como um símbolo visível da luz de Cristo e da presença contínua de oração vigilante.” De notar que o fogo sagrado é uma herança da cultura celta: para os antigos celtas, “o fogo era um símbolo vivo de purificação, proteção, fertilidade e renovação espiritual.” Ele representava a presença dos deuses e “o calor da vida a desafiar a escuridão do inverno”. Assim o fogo era o elemento central dos grandes rituais do calendário celta, acendendo-se grandes fogueiras no início da primavera celebrando “a fertilidade da terra e a união sagrada”; na celebração da chegada do inverno apagavam-se todos os fogos antigos das casas e um “fogo sagrado principal” era aceso pelos druidas. Desse fogo central, as famílias levavam brasas para reacender a lareira das suas casas, garantindo proteção para os meses frios. Acreditava-se que o fumo e o calor das chamas sagradas “afastavam os espíritos nocivos, curavam doenças do gado e garantiam boas colheitas para o ciclo seguinte”. Em alguns locais “a manutenção de chamas perpétuas era confiada a sacerdotisas”. Brígida e as suas monjas, quais sacerdotisas celtas, tornaram-se as guardiãs do fogo “perpétuo” do seu mosteiro.
A igreja original, construída em madeira, estava junto a um carvalho sagrado (Cill Dara, a igreja do carvalho) que Brígida nunca autorizou que fosse destruído. O carvalho “era parte da criação” e da veneração celta pela natureza que o monaquismo veio a incorporar.
Para a comunidade de Kildare, o serviço litúrgico não se limitava ao altar. O acolhimento solene a peregrinos, doentes e pobres à porta ou dentro do mosteiro era encarado como um ato de culto vivo e imitação direta de Cristo.
Assim esta incorporação – inculturação, sincretismo religioso – do monaquismo celta com práticas ditas “pagãs” é fundamental para entendermos as raízes celtas do cristianismo.
As espirais

“A junção de três espirais é um antigo símbolo indo-europeu, também usado pelos germânicos e gregos. O número 3 era considerado sagrado pelos celtas (…)”. Foto © Site Edublin.com, reprodução: Forensic Genealogy
As espirais são uma grande marca da cultura celta. Representam o movimento da energia, as fases cíclicas e são símbolos poderosos. Podem aparecer simples, duplas ou triplas. Estão presentes em várias expressões religiosas e culturais, inclusive na cultura grega. Podem ser representadas no sentido dos ponteiros do relógio e vice-versa.
A junção de três espirais é um antigo símbolo indo-europeu, também usado pelos germânicos e gregos. O número 3 era considerado sagrado pelos celtas e a tríade está repleta de significados diferentes: o céu, o mar e a terra; o corpo, a mente e o espírito; primavera, verão e inverno; as três faces da deusa: donzela, mãe e anciã; o nascimento, a vida e a morte. Em todos eles, há a representação do movimento e do equilíbrio.
Brígida e os milagres

“Mas curiosamente afirma-se que Brígida transformou diretamente água em cerveja. Alguns destes milagres são alternadamente atribuídos a Santa Brígida ou à deusa Bríd.” Vitral de Santa Brígida na Capela de Nossa Senhora e Santa Nona (País de Gales). Foto: domínio público.
Desprendei do nosso coração
a falsa segurança da abundância,
para que o conforto dos nossos dias
não se torne cegueira
perante a dor alheia.
(de uma oração a Santa Brígida)
Brígida gostava de beber cerveja – atrás já mencionámos a razão… e esta herança Brígida recebeu-a diretamente de S. Patrício que, vindo da Escócia como escravo de piratas, e que ensinou os druidas a preparar uma bebida “leve” feita com gãos de cereais fermentados, evitando que as diferentes tribos se digladiassem com violência à força de bebidas preparadas com plantas que os tornavam violentos. O segredo desta bebida “” levou a que S. Patrício se tornasse o grande “batizador” da Irlanda. Mas curiosamente afirma-se que Brígida transformou diretamente água em cerveja. Alguns destes milagres são alternadamente atribuídos a Santa Brígida ou à deusa Bríd, nomeadamente os que se prendem com a proteção das colheitas ou dos animais, o tempo favorável à agricultura, mas também a cura de pessoas. Interessante verificarmos mais uma vez a origem celta do Cristianismo na Irlanda… não esquecendo que o local que Brígida escolheu para o seu convento com uma igreja e uma árvore sagrada no centro teria sido anteriormente um espaço de culto “pagão”.
Reza a lenda também que Brígida fez “desaparecer” uma gravidez indesejada: uma das suas monjas aparece grávida e, sabendo que a monja não queria desistir da sua vocação religiosa nem constituir família, Brígida ‘exerceu o poder da sua Fé’ colocando as mãos no ventre da monja e fazendo o feto desaparecer. Segundo o grupo Catholics for Choice “este milagre lembra-nos que, pelo menos há 1.500 anos atrás, o aborto fazia parte da vida cristã (…) demonstrando que os princípios essenciais da justiça reprodutiva (anos 90 do século passado) indicam que cada um/a tem o direito de decidir quando e como constituir família e ter filhos de forma livre”.

“A cruz de Santa Brígida, feita de juncos verdes entrelaçados e um nó celta no centro é usada todos os anos na sua Festa, 1 de fevereiro. A tradição manda colocar uma cruz à porta ou no teto de cada casa para garantir as bênçãos da Santa ao longo do ano inteiro.” Foto © Culnacreann, CC BY 3.0 | Wikimedia Commons
Apenas duas palavras sobre a célebre cruz de Santa Brígida que aparece em tantas das suas figurações. A cruz, feita de juncos verdes entrelaçados e um nó celta no centro é usada todos os anos na sua Festa, 1 de fevereiro. A tradição manda colocar uma cruz à porta ou no teto de cada casa para garantir as bênçãos da Santa ao longo do ano inteiro. No ano seguinte queima-se a cruz antiga que foi amarelecendo ao longo do ano anterior, colocando uma nova cruz. Esta cruz é considerada pelos especialistas como “um ofício do povo” exatamente porque é feita com elementos da natureza e tem um significado que lhe foi atribuído pelo povo. Reza a lenda que Brígida, ao querer acompanhar um homem não-crente na sua morte, teceu ela própria aquela cruz com o material que tinha à disposição. Também se diz que se tratou da conversão do seu pai.
Santa Brígida e Portugal

A relíquia de Santa Brígida permanece na Igreja de S. João Batista do Lumiar. Foto © Juntas – Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, | Wikimedia Commons
Os mosteiros de Brígida foram sendo fundados por toda a Europa. Conta-se que, no tempo das Cruzadas, uma relíquia do seu crânio ia ser levada para a Terra Santa por três cavaleiros irlandeses. De passagem por Lisboa foram mortos numa refrega nos campos do Lumiar. A relíquia de Santa Brígida permaneceu entre nós e, mais tarde, no século XIII, foi erigida a Igreja manuelina de S. João Batista do Lumiar que alberga a relíquia e os túmulos dos cavaleiros irlandeses. É muito venerada pelos irlandeses quando visitam Portugal. Também se afirma que o embaixador de Espanha em Portugal em finais do século XVI mandou colocar uma outra relíquia de Santa Brígida na Igreja de S. Roque.
Uma santa ecofeminista que conviveu com sombras e escuridão

Pormenor do vitral no corredor atrás do coro, representando Santa Brígida segurando a sua lâmpada. Catedral de Kildare, Irlanda. Foto © Andreas F. Borchert | Wikimedia Commons
Que o manto da paz de Deus cubra
aqueles que estão perturbados e ansiosos.
Santa Brígida, eras uma mulher de paz.
Levaste harmonia aonde havia conflito.
Trouxeste luz às trevas.
Trouxeste esperança para os abatidos.
Que o manto da tua paz cubra
aqueles que estão perturbados e ansiosos,
e que a paz seja firmemente
enraizada em nossos corações
e no nosso mundo.
Inspira-nos a agir com justiça e a reverenciar
tudo o que Deus fez.
Santa Brígida, eras a voz dos feridos e cansados.
Intercede para que Deus nos dê as forças
de que tanto precisamos.
E para que possamos crescer a cada dia
numa maior integridade,
na mente, no corpo e no espírito.
(oração tradicional a Santa Brígida
pedindo-lhe que conceda paz àqueles que sofrem de ansiedade)
Esta oração diz muito do que Brígida representava para os crentes. Não era apenas a santa dos mais pobres e desfavorecidos mas também a santa que vela pelos tormentos da alma: a devoção a Santa Brígida seria portanto, uma forma de cristianizar a figura feminina gaélica que era associada à cura e proteção. Além da sua visão mística tecida de um sólido sentido prático, diz também a tradição que Brígida vivia ciclicamente tempos de grande desolação espiritual. Quando estava mais velha e doente, passava por crises de angústia e sentimentos de incapacidade e impotência. Entende-se que uma alma inquieta como foi desde os sete anos de idade, com o passar dos anos, além da paixão pelas “obras de Deus”, pudesse viver uma grande perturbação, solidão e angústia e talvez crises de Fé. Daí que a lindíssima oração citada acima faça todo o sentido: Que o manto da tua paz cubra aqueles que estão perturbados e ansiosos.
Teologia Ecofeminista

Pintura de Gayle Sinclaire: mulheres a contemplar uma lua cheia repleta de significado espiritual. Foto © Galeria Wah-Sa, Winnipeg, Canadá.
A vertente teológica surge do encontro entre a teologia feminista, a teologia da libertação e o pensamento ecológico. O seu principal objetivo é analisar criticamente como os sistemas de dominação patriarcal e capitalista “operam de forma semelhante sobre o corpo das mulheres e sobre os ecossistemas”. Na generalidade afirma que o homem “não consegue perceber a interdependência da natureza, ou a conexão da vida das mulheres, o trabalho e conhecimento com a criação de riqueza.” A teologia ecofeminista diz que as mulheres em economias de subsistência produzem “a riqueza em parceria com a natureza e têm sido especialistas no seu próprio direito sobre o conhecimento holístico e ecológico dos processos da natureza.” Sem esquecer a sua ligação ao Sagrado.
Como podem o ecofeminismo e a teologia ecofeminista coadunar-se com sombras e escuridão? Ouso dizer, na minha interpretação hagiográfica que, se Brígida (Bríd), a deusa-santa dos celtas e nossa, olhasse para o que fizemos ao planeta, tão visível ao longo deste verão de fogos e inundações, de guerra e destruição, de negacionismo e xenofobia, teria um grande sobressalto espiritual semelhante às suas “noites escuras”, ela que era a guardiã da Luz.
Segundo a tradição Santa Brígida irradiava cumplicidades: ajudava a aumentar a coragem (sobretudo nas mulheres); guiava no propósito de vida e busca de orientação (“salvação interior”); dava proteção; garantia Calor (nos relacionamentos, corpo, meio ambiente).
a terra está cheia das Tuas criaturas
(Salmo 104)
Pela minha parte irei incluir Santa Brígida na minha “ladainha” das santas e santos pedindo-lhe pela integridade da Criação em todas as suas vertentes: ela, a guardadora do fogo sagrado com as suas monjas, a protetora das árvores e plantas, de pássaros e animais, de pessoas, especialmente das mais desfavorecidas, com especial relevância para as mulheres, aquela que se lembrou de transformar, por suas próprias mãos, um molhe de vimes numa cruz celta que pacifica, cuida e protege… trazendo vida nova.
Santa Brígida de Kildare, ora por nós! Que o teu manto “nos cubra” e salve!
Referências
- D’Eaubonne, Françoise (1974). Le Feminisme ou la Mort. Paris: editora Pierre Horay.
- Ó Ríordáin, J. J. (2017) Brigid of Ireland: The saint and the goddess. Limerick: CSsR.
- O’Farrell, Maggie (2026). Terra. Lisboa: Relógio d’Água.
- Reverte, J. (2014). Canta Irlanda: Un viaje por la isla esmeralda. Barcelona: Penguin Random House (DeBolsillo).
- Simms, G.O. (1986). The Book of Kells. Dublin: Trinity College.
- Vários sítios na internet, usando palavras-chave sobre Santa Brígida.
Uma Nota final: o meu agradecimento especial à Cecília Vaz Pinto e à Maria José Passanha que muito me ajudaram na pesquisa sobre Santa Brígida.
Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior aposentada e integra o Movimento do Graal (t.m.vasconcelos49@gmail.com)










