Espero que todos(as) os(as) leitores(as) estejam bem! Gostaria de partilhar uma história que muito me impressionou e sobre a qual até escrevi para um outro jornal.
Escrevi que um certo país da América do Sul que era governado por uma ditadura, como que “forçou” alguns de seus cidadãos a fugir para outro país, também na América do Sul, e até mesmo para a Espanha. Alguns desses cidadãos são psicólogos, arquitetos, professores universitários, médicos. Mas nos países que os acolhem, eles se tornam trabalhadores “informais”, ou seja, fazem doces para vender na rua, estendem toalhas, também na rua, para colocar produtos chineses para vender. Ou são empregados de famílias, limpam casas ou empresas, ou seja, para sobreviver e poder ter um pouco de dignidade aceitam empregos muito aquém de suas capacidades e instrução, mas muito pouco há a fazer: é isso ou viver numa ditadura, onde falta tudo para o povo – menos para os governantes. Sabemos de várias delas ao longo das décadas.

“(…) porque não é fácil para uma pessoa dirigir várias horas por dia, por toda a cidade, e ainda ter energia para um mestrado numa universidade (…)” Foto © Site Eitaxi
E justamente, hoje conto que tive um encontro com uma pessoa altamente qualificada, um rapaz vindo do Haiti, que estudou Teologia e Filosofia. Era professor no seu país, mas no novo país que o acolheu é motorista – não há nada de errado com isso, mas não foi para isso que ele estudou. Como disse, não há muito o que fazer. É isso ou viver em um lugar em permanente guerra civil.
Soube, pelo seu nome, que não era do Brasil – Jean – e como fiz mestrado em francês, comecei a falar um pouco com ele no seu idioma. Perguntei-lhe se ele não gostaria de fazer um mestrado numa universidade do governo, que não cobra a matrícula nem mensalidade. E também se ele não gostaria de escrever um artigo para um jornal onde escrevo no Brasil, mas ele disse que iria pensar. Entendo perfeitamente a sua hesitação, porque não é fácil para uma pessoa dirigir várias horas por dia, por toda a cidade, e ainda ter energia para um mestrado numa universidade, precisando de muitos documentos para estrangeiros, e ainda escrever artigos para jornais. Mas ao menos agi com toda a sinceridade e de coração aberto, como uma pessoa que acredita que estender a mão aos nossos semelhantes é fundamental.
Ficou a oferta – espero que ele a considere.
Que nunca nos falte bondade no coração para, ao menos, tentar fazer o bem.
Denise Sabino é doutorada em Literaturas Estrangeiras Modernas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Mestre em cultura britânica e em cultura francesa pela Universidade de Leibniz, Hannover, Alemanha. Escritora, palestrante e cronista de vários jornais.
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