Até Dezembro decorre o ano jubilar de São João da Cruz, celebrando o terceiro centenário da canonização e os 100 anos da sua proclamação como Doutor da Igreja Católica.
O jubileu tem como lema “A esperança alcança tanto quanto espera” e propõe itinerários de renovação espiritual e mística. A propósito do ano jubilar, o 7MARGENS propõe mensalmente, aos dias 13/14 (assinalando o dia da sua morte, a 14 de Dezembro de 1591), um conjunto de textos do padre carmelita e teólogo Armindo Vaz.
Já admirámos como S. João da Cruz, com ligeiras modificações, convertia um poema de amor humano numa elevação para o divino. O melhor é sentir na oficina o pulsar do poeta, que, entre tantas, trabalhou uma poesia pastoril, legada pela tradição popular anónima. Um manuscrito da Biblioteca Nacional de Paris conserva uma cópia:
| «Un pastorcillo solo está penado, ajeno [alheio] de placer y de contento, y en su pastora firme el pensamiento y el pecho del amor muy lastimado. No llora por pensar que está olvidado, que ningún miedo tiene del olvido, mas porque el corazón tiene rendido y el pecho del amor muy lastimado. Mas dice el pastorcillo: – Desdichado!, qué haré cuando venga el mal de ausencia, pues tengo el corazón en la presencia y el pecho del amor muy lastimado? Imagínase ya estar apartado de su bella pastora en tierra ajena, y quédase tendido en el arena, y el pecho del amor muy lastimado.» |
| El pastorcico, de João da Cruz, íntegro:
«Un pastorcico solo está penado, |

O paralelismo salta à vista. João da Cruz só mudou algumas palavras do poema inicial. Mas ajuntou a última estrofe, que carrega de sentido divino todo o poema, ao ser relido do início (da capo), levando a ler em clave de amor a Encarnação («em terra alheia»), a vida e a morte de Jesus pela pastora, a Humanidade, aceite por própria iniciativa e de graça («se deixa maltratar») e não para reagir em jeito de emergência a um acidente ou para corrigir uma avaria humana acontecida nas origens. O resultado – como nas coplas – é um prodígio. Ninguém nota a soldadura da última estrofe na forja do poeta. Todos notam o amor melancólico, dramático e doce do Pastor divino, elevado e suspenso na árvore da cruz.
À medida que vamos compreendendo que a João da Cruz não importava a arte mas o mistério e Deus, o prodígio da sua obra parece mais denso. O poema pastoril, levemente retocado pela pena do carmelita, suscita um sentimento ascendente: faz voar a alma do humano para o divino.
Armindo Vaz é frade da Ordem dos Carmelitas Descalços, biblista e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica; publicou, entre outros, Em vez de «história de Adão e Eva»: O Sentido último da vida projectado nas origens (Edições Carmelo) e Criação Divina sem pecado humano (Paulinas Editora). Este texto foi inicialmente publicado no Boletim de Espiritualidade dos Carmelitas e é aqui reproduzido por acordo do seu autor e dos responsáveis do Boletim.










