Neste período que para muitos é de férias, convidamos os leitores e colaboradores do 7MARGENS a escrever sobre uma música, um livro, um disco, um filme ou uma obra de arte que tenha marcado, de forma especial, um dos seus verões.
Publicamos a seguir o décimo sexto texto e último, dessa rubrica, que intitulamos “Trago comigo”, remetendo para a ideia de alguma coisa pessoalmente significativa que cada qual guarda na sua memória.
Deixem de pegar fogo a pergaminhos e a papéis
e mostrem a vossa ciência para que se veja quem é que sabe
E, embora queimem o papel,
nunca vão queimar o que contém,
pois levo-o dentro de mim,
viaja sempre comigo quando cavalgo,
comigo dorme quando descanso,
e mais tarde vai ser enterrado no meu túmulo.
(Ibn Hazm, poeta cordovês do séc. XI, citado por Irene Vallejo)
O livro Manifesto para a Leitura, de Irene Vallejo, mais do que um manifesto é a expressão de uma gratidão a todos aqueles e aquelas que teimam em alimentar os nossos sonhos e de ousarmos visitar outros mundos sem corrermos o risco de um não regresso. Mesmo que o regresso implique algumas inquietações, voltamos sempre dessa aventura, que é a leitura, ilesos e sempre mais ricos e, quiçá, um pouco mais humanos. “Os livros são refúgios da memória, espelhos onde nos olhamos para podermos ser mais parecidos com aquilo que desejamos ser.” [1] Mas não é apenas gratidão, mas homenagem não só aos leitores e leitoras, mas a todos aqueles e aquelas que na sombra – e não são poucos – trabalham para que o livro nos chegue às mãos: escritores, tradutores, editoras, livrarias, bibliotecas… É nosso dever, se queremos cuidar do livro, cuidar de toda essa gente. Por isso é também um hino à leitura e ao objecto, o livro.
O texto que agora convosco partilho não é propriamente sobre o quanto o livro de Irene Vallejo me marcou, até porque é recente, mas pelo que ele me fez sentir o quanto eu fui privilegiado em ter encontrado pessoas que, elas sim, me marcaram profundamente. E isso não é de somenos importância. O livro é apenas um pretexto. Por isso mesmo este texto é também sobre gratidão, porque se fosse para falar de livros encolheria, por exemplo, Parole d’Homme de Roger Garaudy, Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez, Sinais de Fogo do tão esquecido Jorge de Sena ou talvez até os Maias do eterno Eça. Talvez também por isso este texto foi intencionalmente elaborado num registo mais pessoal.
Eu ainda sou daquelas pessoas, hoje quase uma raridade, que gostam de folhear um livro e sentir o seu cheiro. Sim, porque os livros, velhos ou novos, têm um cheiro característico.

“As primeiras leituras começaram com a ida mensal à aldeia da carrinha Citroen cinzenta da biblioteca itinerante da Gulbenkian” Foto: “Fundação Calouste Gulbenkian – Arquivos”
As primeiras leituras começaram com a ida mensal à aldeia da carrinha Citroen cinzenta da biblioteca itinerante da Gulbenkian (serviço criado em 1958 e definitivamente extinto em dezembro de 2002. Em 1961 circulavam pelo país, sobretudo no interior, 47 bibliotecas). Haverá muita gente que ainda terá lembranças dessas visitas e o quanto essas carrinhas com cheiro a livros fizeram pelo acesso à cultura e à leitura aos muitos com poucas ou sem oportunidades. As casas eram despidas de livros e os necessários eram os da escola. Aliás, todos os dias nos relembravam essa máxima. Os outros livros não interessavam. As histórias que ouvíamos ao anoitecer ou à lareira eram-nos contadas pelos nossos avós. Eram sobretudo histórias de vida e de bravuras locais. Não havia princesas nem príncipes. Ou talvez o encantamento de princesas mouriscas ou disfarçadas de diabinhos. Mas esses primeiros passos não foram suficientes para me enamorar pela leitura, porque talvez seja necessário aprender a ler estendendo a nossa compreensão para além das palavras. E só uma leitura solitária nos permite esse grau de compreensão. Para que o milagre aconteça talvez seja importante que alguém nos mostre essa possibilidade e o quanto ela pode ser prazerosa. Foi isso que aconteceu comigo.

“Mas esses primeiros passos não foram suficientes para me enamorar pela leitura, porque talvez seja necessário aprender a ler estendendo a nossa compreensão para além das palavras.” Foto: “Fundação Calouste Gulbenkian – Arquivos”
A minha paixão pelos livros e pela leitura chegou tardiamente e porventura de forma algo inusitada. Foi no sexto ano (actual 10º ano), através do estudo da poesia trovadoresca (Cantigas de Amigo e de Escárnio e Maldizer) e, no ano seguinte, a leitura e estudo do Amor de Perdição e dos Maias. Foi graças aos professores de português desses dois anos, um professor e uma professora, cujos nomes já não me recordo, que eu me apaixonei pelos livros e pela leitura. E houve ainda o professor Morais de filosofia durante os dois anos de liceu que nos desafiava à leitura, a pensarmos e a expressarmos através da escrita o que nos ia na alma. Foi o único professor que conheci que se dava sempre ao trabalho de elaborar dois testes que cada um escolhia segundo as suas preferências: um com questões que implicavam desenvolvimento e outro para os alunos que preferiam as respostas diretas.
E tudo isto se passou entre 1974 e 1976 no Liceu Sá da Bandeira em Santarém em pleno período revolucionário. Sobretudo pelo tempo que então se vivia estou imensamente grato às pessoas que tive a sorte de ter como professores.
Neste nosso tempo de pressa e de urgência, sem tempo para o silêncio, “deixamos de lado a educação da paciência. Os livros desligam-nos da urgência.” Quando as trevas parecem pretender ocupar o espaço colectivo e onde os riscos para todos nós aumentam o seu grau de probabilidade, é através dos livros que “descobrimos a possibilidade de estabelecer com o mundo uma relação que não seja apenas de predação, de domínio ou de utilidade.” Porque “as ideias que sustentam a nossa racionalidade precisam de tempo, silêncio e sossego para se desenvolverem.” Dito de outro modo: “num mundo narcisista e ególatra, o melhor que pode acontecer a qualquer pessoa é ser todos.”
O retrato deste nosso tempo está bem expresso na frase de Tácito, historiador romano citado por Irene Vallejo: “ A verdade consolida-se com a investigação e a demora; a falsidade, com a pressa e a incerteza.”
“Há um futuro que nos une e ele está nos livros, resta-nos a nós, amantes dos livros e das leituras, descobri-lo e dar-lhe corpo.” A leitura continuará a cuidar de nós se cuidarmos dela. O que nos salva não pode desaparecer.”
[1] Irene Vallejo, Manifesto pela Leitura, Bertrand Editora, 2026. Todas as citações que aparecem no texto são deste mesmo livro.










