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Christian Carlassare, bispo da diocese de Bentiu, Sudão do Sul. Foto DR
Christian Carlassare, bispo da diocese de Bentiu, no Sudão do Sul. Foto: Direitos reservados

Entrevista ao 7MARGENS

“O silêncio também é conivência”: bispo denuncia esquecimento do Sudão do Sul

O Sudão do Sul vive uma gravíssima situação humanitária. As notícias sobre o que se passa nesse que é o mais jovem país do mundo são, apesar disso, raríssimas, particularmente em Portugal. Isto sucede mesmo que não falte informação credível, fornecida por Organizações Não Governamentais. A organização internacional médica-humanitária Médicos Sem Fronteiras, muito recentemente, dava conta de “um aumento na intensidade, na escala e na propagação da violência” no país. Contrariando o silenciamento geral, escutámos Christian Carlassare, bispo da diocese de Bentiu, capital do estado de al-Wahda, no norte do país. “O Sudão do Sul está a viver uma situação extremamente frágil”, disse o prelado ao 7MARGENS, considerando que importa não “falar do Sudão do Sul apenas como uma tragédia humanitária: precisamos de reconhecer a capacidade da sua população de construir um futuro diferente”.

Nascido em Itália, em Schio, Vicenza, no dia 1 de Outubro de 1977, é no Sudão do Sul que este comboniano exerce o seu ministério missionário desde 2005. Ocupou diversas posições pastorais e de formação, vivendo ao lado das comunidades locais e, em 2021, o Papa Francisco nomeou-o bispo de Rumbek, tendo sido imediatamente vítima de um ataque intimidatório. Christian Carlassare assumiu, desde logo, um compromisso particular com a paz e a reconciliação, um compromisso que manteve depois de ter sido nomeado o primeiro bispo da nova diocese de Bentiu no dia 3 de Julho de 2024.

 

7MARGENS – Como descreve a situação no Sudão do Sul, muito raramente objecto de notícia nos meios de comunicação de social, designadamente em Portugal, onde, aliás, as notícias sobre África são escassas?

Christian Carlassare – O Sudão do Sul está a viver uma situação extremamente frágil, em que diferentes níveis de conflito se entrelaçam e se alimentam recIprocamente. Não se trata apenas de um confronto político entre Governo e oposição, mas de uma crise que envolve comunidades locais, recursos e economia.

A nível nacional, permanece uma forte instabilidade política, associada à dificuldade de concretizar plenamente os acordos de paz e à competição pelo poder e pelo controlo de recursos. Esta fragilidade reflecte-se no território, onde os conflitos locais pela terra, a água e o gado se somam a velhas rivalidades e lógicas de vingança. A debilidade das instituições deixa frequentemente espaço para a violência e os conflitos armados.

A tudo isto, soma-se a guerra no Sudão. O Sudão do Sul está a acolher grandes fluxos de refugiados e de pessoas que retornam ao país, enquanto sofre as consequências económicas e políticas do conflito. O petróleo também é um elemento ambivalente: é um recurso fundamental para a economia nacional, mas também fonte de competição, corrupção, militarização e tensões com as comunidades que vivem nos territórios de onde é extraído.

A população fica, assim, esmagada entre emergências diversas: conflito, deslocamentos, pobreza, fome, inundações e uma progressiva redução da ajuda internacional. Em Bentiu, há comunidades inteiras que viveram durante anos em condições precárias, enquanto milhares de pessoas foram forçadas a mudar-se e a viver em condições de grande vulnerabilidade.

Enquanto escrevo sobre esta grave crise, verifico uma extraordinária capacidade de resistência. As pessoas continuam a cultivar, a enviar os filhos à escola, a reconstruir relacionamentos e a procurar formas de reconciliação. É justamente esta capacidade de não desistir que é um dos principais sinais de esperança.

Neste contexto, a Igreja procura ser, sobretudo, uma presença solidária com as pessoas: um espaço de escuta, reconciliação e fraternidade. A paz, na verdade, não pode ser apenas um acordo assinado pelos líderes políticos. Deve tornar-se justiça, educação, protecção dos direitos, participação e confiança entre as comunidades.

O Sudão do Sul precisa certamente de ajuda, mas, sobretudo, de condições que permitam à população recuperar a sua dignidade e tornar-se protagonista do próprio futuro. É este, talvez, o desafio mais importante: transformar uma paz ainda frágil numa paz vivida diariamente pelas pessoas.

Christian Carlassare, bispo da diocese de Bentiu, Sudão do Sul. Foto DR

Nascido em Itália, em Schio, Vicenza, no dia 1 de Outubro de 1977, é no Sudão do Sul que este comboniano exerce o seu ministério missionário desde 2005. Foto: Direitos reservados

7M – Porque é que os média falam tão pouco sobre o que está a acontecer no Sudão do Sul?

Fala-se relativamente pouco sobre o que está a acontecer no Sudão do Sul, não porque a situação seja menos grave, mas porque há vários factores que tornam esta crise menos visível internacionalmente. Antes de tudo, o Sudão do Sul vive uma crise complexa e difícil de relatar. O país vive há anos uma situação de instabilidade política, conflitos armados, deslocamentos, fome e crises humanitárias. No entanto, não existe um evento único facilmente identificável, como uma guerra entre dois Estados, que consegue capturar por muito tempo a atenção pública.

Um segundo elemento é a competição pela atenção mediática. As guerras na Ucrânia e no Médio Oriente, por exemplo, têm um enorme peso geopolítico e envolvem directamente as grandes potências. Como consequência, obtêm uma cobertura muito maior. O Sudão do Sul, enquanto experimenta uma crise dramática, ocupa uma posição mais marginal na agenda política internacional e julgo que a opinião pública está cansada de conflitos que se prolongam ao longo do tempo sem solução aparente. Às vezes, o silêncio também é conivência com a agenda política e económica de grupos que querem meter a mão em certos recursos, como o petróleo.

 

7M – Que passos é necessário dar para começar a resolver a tragédia sul-sudanesa?

O Sudão do Sul precisa de mais do que apenas um novo acordo entre as elites políticas e militares. Precisa de um processo real de reconstrução do Estado e do pacto social, no qual a paz, a democracia e o desenvolvimento económico caminhem em conjunto.

O primeiro passo deve ser um acompanhamento institucional internacional liderado, em primeiro lugar, pelos próprios sul-sudaneses e apoiado pela União Africana, IGAD [a Intergovernmental Authority on Development – Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento – é um bloco comercial de oito países, sendo um deles o Sudão do Sul], pelas Nações Unidas e pela União Europeia. O objectivo deve ser ajudar a construir instituições capazes de funcionar bem e ao serviço da população. Isso significa apoiar concretamente o Parlamento, a magistratura, a comissão eleitoral, a administração local, os média independentes e as organizações da sociedade civil. Também significa criar as condições para que as futuras eleições sejam verdadeiramente livres, credíveis e inclusivas, em vez de simplesmente cumprirem um procedimento formal.

O segundo passo é um diálogo nacional genuíno, que não é apenas uma negociação entre os principais líderes políticos e militares. Deve dar voz às comunidades locais, às mulheres, aos jovens, à Igreja e outras comunidades religiosas, às organizações da sociedade civil, aos representantes de diferentes etnias, às autoridades tradicionais, às pessoas deslocadas e à diáspora. O diálogo deve abordar inclusive as questões mais difíceis: a distribuição do poder, a reforma constitucional, a descentralização, a gestão dos recursos naturais.

O terceiro passo é uma campanha nacional de desarmamento, desmobilização e reintegração, acompanhada pela reforma do exército para que seja a protecção dos civis. O desarmamento, portanto, exige que a segurança seja garantida, devendo ser acompanhado por programas para jovens, formação profissional, reinserção de ex-combatentes. A instituição judicial deve ser fortalecida para que ninguém cometa mais crimes impunemente.

O objectivo deve ser muito claro: remover progressivamente a violência da competição política. Numa democracia, o poder deve ser conquistado por meio do voto e do consenso, não através do uso de milícias.

O quarto passo diz respeito à economia. O Sudão do Sul precisa de sair gradualmente da dependência estrutural do petróleo. Isso não significa abandonar imediatamente o sector petrolífero, que permanecerá uma fonte de receita importante, mas transformá-lo de uma fonte de renda política num recurso para construir uma economia alternativa. As receitas do petróleo deveriam estar sujeitas a maior transparência e ser destinadas principalmente a investimentos na agricultura, pesca, infra-estruturas, escolas, saúde e água potável, energia, transportes e pequenas empresas. A diversificação económica não é apenas uma questão económica: é também uma questão de paz. Um jovem que encontra um emprego e uma perspectiva de vida tem menos razões para entrar numa milícia.

Finalmente, deve ser enfrentado o problema dos interesses económicos estrangeiros. Embora necessários, não devem contribuir para manter um sistema em que poucos acumulam riqueza, enquanto a maioria da população permanece na pobreza e na dependência. O capital internacional deve ser chamado a tornar-se um parceiro do desenvolvimento, não um beneficiário da fragilidade do Estado.

Christian Carlassare, bispo da diocese de Bentiu, Sudão do Sul. Foto DR

No Sudão do Sul, “a Igreja procura ser, sobretudo, uma presença solidária com as pessoas: um espaço de escuta, reconciliação e fraternidade”, diz o bispo. Foto: Direitos reservados

7M – Que contributo pode dar a opinião pública, e a portuguesa em particular, em favor do Sudão do Sul?

A opinião pública internacional pode fazer muito, sobretudo, evitando que o Sudão do Sul seja esquecido quando desaparece das páginas dos jornais. O primeiro contributo é prestar atenção. É necessário contar o que acontece no país, dar voz aos sul-sudaneses e apoiar organizações locais que trabalham pela paz, pelos direitos humanos, pela educação e pela reconciliação. Não precisamos de falar do Sudão do Sul apenas como uma tragédia humanitária: precisamos de reconhecer a capacidade da sua população de construir um futuro diferente.

O segundo contributo é pedir aos governos europeus e às instituições internacionais coerência entre política externa, ajuda e interesses económicos. A ajuda ao desenvolvimento não pode ser separada da transparência financeira, protecção dos direitos humanos e construção das instituições.

Em última análise, a comunidade internacional deve acompanhar o Sudão do Sul sem se substituir ao povo sul-sudanês. A questão fundamental é: como podemos ajudar os sul-sudaneses a construir um Estado no qual a guerra não seja o principal caminho para conquistar poder, segurança e riqueza? A resposta passa por uma escolha política concreta: promover o desarmamento a todos os níveis e garantir que o petróleo, em vez de alimentar a competição pelo poder, contribua para financiar a construção de uma economia capaz de, um dia, o dispensar.

 

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