AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

O historiador italiano no Instituto Italiano de Cultura, em Lisboa: Francisco era “uma personagem enorme, precisamente por causa das suas contradições”. Foto © António Marujo/7MARGENS Alessandro Barbero
O historiador italiano no Instituto Italiano de Cultura, em Lisboa: Francisco era “uma personagem enorme, precisamente por causa das suas contradições”. Foto © António Marujo/7MARGENS

Alessandro Barbero, historiador 

São Francisco: ainda mais revolucionário do que pensamos e uma figura muito estranha

| 19/09/2026

 

 

São Francisco de Assis era “um emaranhado de contradições contínuas” de onde surge “uma personagem enorme”. O historiador italiano Alessandro Barbero, que esteve esta semana em Lisboa, escreveu São Francisco (edição Quetzal), onde analisa as sete “biografias” do Poverello, escritas pelos seus contemporâneos – e sobre o qual deu esta entrevista ao 7MARGENS.

Na multiplicidade de olhares que desde o início apareceram sobre o santo de Assis, Barbero destaca que todos eles o vêem como “um homem extraordinário”, com uma pregação áspera mas sedutora, que exigia sempre mais de si e dos outros frades mas que, à medida que se aproximava da morte, se resignou à frustração de não ver a Ordem nascente a ser fiel aos ideais que ele pugnava, nomeadamente à ideia da pobreza absoluta e extrema.

Numa conferência pública que deu na Universidade Católica, Barbero afirmou que o seu livro não é uma biografia em sentido estrito e que muitos dos episódios contados pelos biógrafos são referidos apenas por um – enquanto outros são contados por vários, mas de forma muito diversa – no final do livro, o autor inclui precisamente uma tabela comprativa dos diferentes episódios e das biografias onde podem ser lidos – “são biografias até certo ponto, já que não há uma preocupação cronológica”.

Confessando-se laico e não crente, Barbero manifesta simultaneamente a sua enorme admiração por Francisco de Assis, de quem, no próximo dia 3 de Outubro, se assinalam os 800 anos da morte. Falando dele com vivacidade, humor e ironia, refere, nesta entrevista, também aquilo que não é seguro dizer-se sobre o santo de Assis.

Capa da edição portuguesa do livro de Alessandro Barbero. São Francisco

Capa da edição portuguesa do livro de Alessandro Barbero.

7MARGENS – Chegados ao fim do seu livro, vemos que Francisco, afinal, dava prioridade à penitência em vez da pobreza, respeitava o clero e a hierarquia, não foi nem um precursor do diálogo inter-religioso nem um pacifista, nem sequer um crítico da ordem existente. Andámos enganados todo este tempo em relação a São Francisco?

 

ALESSANDRO BARBERO – Só há pouco tempo é que passámos a ver São Francisco como um pacifista ou um ambientalista, porque são causas que nos interessam hoje. Se formos ver os retratos de Francisco pintados pelos grandes pintores espanhóis do barroco do século XVII, eles retratam-no sentado à mesa com uma caveira à sua frente, a meditar sobre a morte – e esse era o Francisco de que gostavam e que lhes interessava. Para nós, já não é esse o que mais nos interessa.

Francisco foi, evidentemente, uma personagem gigantesca, muito complexa e também muito contraditória, a tal ponto que cada época, com um pouco de esforço, encontra nele o que quer encontrar. Nós vemos nele o pacifista. Mas ele era realmente um pacifista, porque ensinava aos seus frades que é preciso saudar as pessoas dizendo “paz e bem”. Hoje, parece-nos uma fórmula banal, mas foi ele quem a inventou. Os frades quando voltavam [junto dele] diziam: “Nós saudamos as pessoas dizendo ‘paz e bem, e tomam-nos por loucos.”

 

7M – Ele contava que tinha sido Deus que lhe disse para saudarem assim…

Exatamente. A paz importava-lhe, mas ele não critica os cruzados. Vai ter com eles, mas não os critica de todo; eles lembram-lhe os paladinos de Carlos Magno que lutavam contra os infiéis, em Roncesvalles; não os critica, mas faz outra coisa.

Francisco é ainda mais revolucionário do que pensamos, porque faz uma revolução contra todas as regras, não critica ninguém: faz a revolução da pobreza, mas não diz uma palavra contra os ricos. No entanto, faz outra coisa e é um extremista: quando diz que não se deve viver dentro de casas, mas apenas ter cabanas, é capaz de expulsar os frades, e até os doentes, assim que descobre que têm uma casa. Quando está naquele ermo onde lhe construíram uma celazinha só para ele, para rezar mais tranquilo, e depois sai da cela e um frade lhe diz: “Francisco, vens da tua cela?” “Minha? Já que disseste que é minha, não volto mais para lá.”

 

7M – É surpreendente…

Ele nunca faz o que esperamos; não está à nossa disposição para ser o revolucionário que gostaríamos que fosse; é um louco que afirma: “Deus disse-me que devo ser o maior louco que já existiu no mundo.” Não se preocupa com o facto de as coisas que faz poderem ser desconcertantes para nós.

Ou seja, nada do que ele faz corresponde às nossas expectativas, mas eu diria que é precisamente por isso que ele é uma figura tão grandiosa, tão revolucionária. Ama o ambiente, ama a natureza, ama os animais? Isso agrada-nos muito. Mas também anda sobre as pedras tentando não fazer mal às pedras e isso, enfim, não nos agrada tanto.

Francisco é uma figura muito estranha. Por isso, todas aquelas coisas que nos pareceria confortável encontrar nele, na verdade, não estão lá.

Claude François ou irmão Luc (1614-85), São Boaventura (National Gallery do Canadá). “São Boaventura é muito despreocupado e a mim não me cai muito bem, mas temos, com esforço, de reconhecer que, na verdade, ele é sincero”, diz Alessandro Barbero.

7M – Entre as sete biografias diferentes de Francisco que o livro analisa, a começar pelos seus próprios textos, percebe-se que a que mais lhe desagrada a si é a de São Boaventura; escreve que ele embalsamou um falecido, que altera e omite episódios da vida de Francisco, que propõe um Francisco mais digno de admiração do que de imitação. A Legenda Maior, de Boaventura é o texto mais distante do verdadeiro Francesco?

Na minha opinião, sim, mas não sou só eu. Eu escrevi isso, mas a ideia de embalsamar um morto a quem se quer impedir de interferir na vida é d[o frade franciscano francês Théophile] Desbonnets, que foi um grande historiador do franciscanismo.

Tento fazer um esforço para reconhecer que Boaventura está de boa-fé, que acredita verdadeiramente que não se deve imitar Francisco. Ele quase nunca fala de si mesmo, mas tem um momento de grande sinceridade em que diz: “Eu já amava Francisco quando era criança, porque estava doente e a minha mãe disse-me que tinha feito um voto a São Francisco e que ele me curou; desde então amo São Francisco.” É sincero, sem dúvida.

 

7M – Entendia que era impossível fazer igual a São Francisco…

Pensava que era impossível e, sobretudo, que a Ordem Franciscana era então algo grandioso na Igreja, uma potência enorme na Igreja, que fazia o bem à humanidade e que o fazia sem tentar seguir Francisco até ao fim.

Há um momento muito revelador em que ele diz: ‘Vejo na história de Francisco a Igreja, que começou com pescadores pobres e que agora chegou aos doutores, aos professores universitários… E o Papa já não vivia como vivia São Pedro, mas é assim que deve ser.’

Só gostaria de saber como é que Boaventura consegue estar tão em paz consigo mesmo, porque deve saber que está a transformar Francisco em relação ao verdadeiro. Está convencido de que é assim que deve ser, mas, em certos momentos, isso é impressionante, porque quando diz: “Não, Francisco nunca disse que devemos trabalhar, apenas deu alguns conselhos para quem quisesse trabalhar”, ele tinha sobre a mesa o Testamento de Francisco, onde ele dizia: “Quero que todos trabalhem.”

 

7M – Precisamente o contrário…

Boaventura é muito despreocupado e a mim não me cai muito bem, mas temos, com esforço, de reconhecer que, na verdade, ele é sincero: ‘a Ordem Franciscana não podia viver como Francisco vivia, mas não devemos insistir demasiado nisso, temos de tentar atenuar esse contraste e, quando o contraste existir, diremos que Francisco era como Cristo e quem de nós pode pensar que é como Cristo? Ele sim, nós não.’

Alessandro Barbero durante a conferência na Universidade Católica: “Quanto à pobreza, Francisco é um homem do seu tempo”. Foto © António Marujo/7MARGENS.

Alessandro Barbero durante a conferência na Universidade Católica: “Quanto à pobreza, Francisco é um homem do seu tempo”. Foto © António Marujo/7MARGENS.

7M – Escreve muitas vezes que Francisco queria, acima de tudo, dar o exemplo, em vez de fazer grandes sermões, mesmo no que diz respeito à pobreza e à austeridade extrema que ele vivia. É essa a grande ruptura que ele faz?

Quanto à pobreza, Francisco é um homem do seu tempo, em que muitos tinham redescoberto a pobreza do Evangelho; há mais pessoas que sabem ler e, como são todos crentes, quando sabem ler, interessam-se por ler o Evangelho. A Igreja sempre se preocupou em dizer: “Não devem lê-lo sozinhos, o padre existe precisamente para explicar”; e posteriormente a Igreja proibirá os fiéis de lerem sozinhos a Bíblia. No tempo de Francisco ainda não se tinha chegado a esse ponto, porque era algo novo: era a primeira vez que havia leigos que sabiam ler; eles liam o Evangelho, descobriam a pobreza e gostavam imenso disso.

 

7M – Mas quanto à pobreza…

Nesse aspecto, Francisco não é o primeiro; já tinham aparecido os valdenses, que praticavam a pobreza; o que é extraordinário em Francisco é que ele concebe a pobreza com um extremismo absoluto, concebe a pobreza também como não ter poder. Isto é algo muito importante: não se trata apenas de não possuir nada, mas também de obedecer a todos, de se sentir inferiores a todos.

Naturalmente, há uma contradição, porque Francisco é alguém que manda; é-lhe muito fácil dizer “eu quero”, e ainda no Testamento: ‘eu quero, quero, quero…’ Mas, neste aspecto, ele estava convencido de que era capaz de ser o último, e obediente; nomeia-se a si próprio um guardião, para depois lhe obedecer; e muitas vezes chama o guardião e diz-lhe: “Quero fazer isto e tu tens de me deixar fazê-lo.”

O que há de mais extraordinário em Francisco é precisamente aquilo que não corresponde à nossa ideia de revolucionário: praticar a pobreza absoluta, mas permanecer dentro da Igreja, porque foi [Deus] quem criou a Igreja; ‘o sacerdote realiza todos os dias o milagre da transubstanciação da eucaristia e nós devemos permanecer dentro da Igreja e beijar as mãos dos sacerdotes.’ Este não é o revolucionário que nos agradaria e eu acho-o admirável. A revolução está precisamente nisso: fazer a revolução, mas permanecendo dentro.

 

7M – Um homem complexo e contraditório, já disse. No debate sobre se os frades deviam ou não estudar teologia ou a Bíblia, fala-se de um bilhete que ele escreveu a Santo António, dizendo: “Gosto que ensines aos frades a sagrada teologia.” Mas às vezes contesta e noutros momentos ele admite também a necessidade de estudar…

Há muitas contradições em São Francisco, incluindo em pequenas [questões]: ele alimenta-se de vegetais crus e, se lhe dão algo de bom, deita água fria ou cinza por cima; mas também diz: “Ah, aqueles biscoitos feitos pela [amiga de Roma] Jacoba de Settesoli, como eram bons…”; ou “como me apetecia comer peixe…”

Estas são pequenas contradições; as grandes são em relação às mulheres e a outra é essa, relativa ao estudo. Mesmo aceitando o facto de que nem tudo o que nos é contado sobre Francisco é necessariamente verdade, a contradição é enorme: temos de falar com as pessoas, pregar, estar no meio das pessoas, levar a boa nova; mas temos de trabalhar mais com o exemplo do que com a palavra – e isso é o mais importante. Mas não devemos estudar para falar.

Os frades dizem [a Francisco]: “Como é que fazemos? Tu és capaz de pregar sem ter lido os livros; nós precisamos de livros.” [E ele responde:] “Não, é preciso falar como te vier à cabeça, não adianta nada ter estudado mil tratados.”

São Francisco e Santo António

Ubaldo Oppi, São Francisco aparece em Arles enquanto Santo António prega aos frades (pormenor); afresco na Capela de São Francisco (Pádua, Basilica del Santo).

7M – É aí que aparece essa curta carta a Santo António.

O bilhete a António está no cerne desta contradição. Não é certo que seja apócrifo, simplesmente não sabemos. Se fosse autêntico, reflectiria precisamente essa contradição, incluindo na formulação: “Agrada-me que ensines a teologia aos frades.” Isto é algo que se escreve depois de uma dúvida e se alguém pediu autorização: placet é precisamente quando se concede uma autorização – pediram-lhe essa permissão; e se a pediram, é porque não é assim tão óbvio que os frades pudessem estudar teologia. É preciso ouvir o que o Francisco pensa e ele diz “sim”, placet. Depois acrescenta imediatamente (não me recordo das palavras exactas): ‘mas estai atentos, não esqueçais a oração, que é o mais importante.’

Ou seja, se for autêntico, significa que, por um lado, ele admira os teólogos: ‘eles falam bem da nossa fé e, por isso, fazem algo de bom, mas é a típica coisa boa que não é nossa’ – como com os cruzados: ‘vocês lutem contra os infiéis, mas nós fazemos outra coisa.’

Isso aplica-se também à teologia. Depois chega António, que, pelo contrário, é um grande teólogo, e então Francisco diz-lhe: ‘Sim, está bem, mas tenham cuidado’. É verdadeiramente a fotografia desta contradição.

 

7M – O outro tema difícil é a relação com as mulheres, que não foi sempre a mesma ao longo da vida. Numa segunda fase, ele desconfiava muito delas. Isso devia-se à desconfiança que ele nutria em relação aos movimentos como os valdenses, de que já falou, ou os cátaros, nos quais as mulheres desempenhavam um papel importante? Ou era outra razão, mais importante?

Eu formei uma ideia: digo o que penso, mas não é seguro. Francisco passou por um momento em que, tal como os cátaros e os valdenses, desejava um movimento em que também houvesse mulheres. Não há dúvida de que foi assim, porque o início da história de Clara está intimamente ligado a Francisco.

É muito significativo que os biógrafos de Francisco não falem disso. É preciso esperar pela biografia de Clara para tomar conhecimento desta parte que nos parece enorme da vida de Francisco; ou seja, eles conhecem-se, admiram-se mutuamente, encontram-se em segredo porque Clara não quer boatos nem quer que se saiba. Depois, Francisco conclui que, de facto, Clara foi realmente tocada por Deus, que está predestinada à vida religiosa e, por isso, ajuda-a a fugir de casa, em segredo. Acolhe-a na vida religiosa e corta-lhe o cabelo, que é um gesto juridicamente válido que indica uma escolha.

Depois chega a irmã mais nova, Inês; Francisco e os frades acolhem-na também; forma-se então um grupo e Francisco arranja-lhes uma sede mas, como não dá certo, transfere-as para outro local. Por fim, oferece-lhes a igrejinha de São Damião para lá viverem. Nada disto nos é contado por nenhum biógrafo masculino de Francisco. É preciso esperar pela biografia de Clara, confirmada pelo processo de canonização de Clara, e é aí que toda esta história vem à tona.

Foi Clara a única a falar de como, no início, Francisco aceitou mulheres no seu movimento, sublinha o historiador italiano. Foto © António Marujo Alessandro Barbero

Foi Clara a única a falar de como, no início, Francisco aceitou mulheres no seu movimento, sublinha o historiador italiano. Foto © António Marujo

7M – E que nos devolve ao início…

Também para os frades esta história não era do seu agrado; se não, tê-la-iam incluído; neste ponto, faz todo o sentido o facto de Francisco, nos últimos anos da sua vida, ter escrito na Regra: “Mantenham-se afastados das mulheres”, proibindo-os de fazer o que ele próprio tinha feito; “Não acolham mulheres na vida religiosa” – mas ele tinha-o feito. E, se não fosse pela vida de Santa Clara, não saberíamos nada disso.

Francisco criou uma grande organização em contradição com os seus próprios ideais – “devemos ser os últimos, obedecer a todos”; mas, depois nomeia dirigentes e ministros que comandam e ele próprio comanda e, de qualquer forma, quer permanecer dentro da Igreja. Creio que, no início, ele não tenha pensado que haver mulheres fosse um problema: nos outros movimentos também havia. Mas depois, chega ao ponto de dizer “não devem acolher mulheres” e torna-se muito claro que os frades já não estão muito contentes por terem de assistir Clara e o seu grupo, e elas têm de insistir para que os frades cuidem delas.

Conhecendo esse mundo, imagino que Francisco, para se manter dentro da Igreja, teve de aceitar muitos compromissos. O cardeal Ugolino, que era a sua grande referência e o seu grande protector, disse claramente a Clara: “Vocês fiquem em clausura, não podem viver lá fora junto com os frades, fiquem em clausura.”

 

7M – E Francisco acabará por ceder também…

Francisco, evidentemente, deve ter percebido que ter de gerir uma ordem feminina seria uma fonte de enormes problemas, [também] com Roma. Por isso, imagino que se tenha resignado a dizer: ‘Tinham razão aqueles que sempre disseram que é melhor manter as mulheres afastadas, que para os religiosos são um problema.’

Obviamente, é mais uma vez um Francisco que não nos agrada, este que diz “mantenham-se afastados das mulheres”, o Francisco que, em certos episódios, afirma: “Creio que só há duas mulheres que reconheceria se olhasse para elas de frente, porque nunca olho para elas, quando estou com elas evito-o, e vocês também devem evitar ficar a sós com as mulheres.” Não gostamos disso, mas ele era assim, no final da sua vida.

Antes disso, não; Clara quis sempre recordá-lo como ele era antes: ‘Esteve sempre perto de nós, ajudou-nos sempre…’ Também ela o idealizava de outra forma.

 

7M – Outros paradoxos: pregar ou rezar? Boaventura sugere que Francisco insistia que deviam sobretudo pregar, mas depois faz uma lista de jejuns e retiros de oração que ele observava durante todo o ano, e então perguntamo-nos: se passava o tempo retirado, onde estão os dias para pregar?

Já recordei o Francisco dos pintores barrocos, em meditação, em solidão. Esse Francisco também existiu, é verdade. Mas aí está outra contradição: no início da sua aventura religiosa, ele queria ser eremita; depois, quando ouve ler o Evangelho que fala da pobreza, decide: primeiro, que os eremitas não são suficientemente pobres, porque têm um cajado, as botas, a bolsa e, por isso, não seria eremita; depois, quando chegam alguns companheiros que querem viver com ele, decide que isso é o que está certo, ou seja, [viver] em grupo.

Ele pensa sempre: ‘Vamos ficar no meio das pessoas, falemos com as pessoas’. Ao mesmo tempo, tem esse impulso fortíssimo de se lembrar que, afinal, é um eremita e, então, vai-se embora, para essas famosas quaresmas que faz várias vezes por ano.

Mais uma vez, Francisco não é unilateral. Talvez isto não seja uma contradição: pode ser-se eremita durante uma parte do ano e pregar noutros momentos. Mas quando os frades lhe perguntam o que devem fazer, ele diz: ‘Mantenham-se afastados.’ Mas não é isso que eles fazem, porque, pelo contrário, os frades estão no meio das pessoas; portanto, este é outro dos aspectos da contradição.

Alessandro Barbero: as referências de Francisco ao trabalho manual dos frades foram estranhamente censuradas pelos seus biógrafos, diz. Foto © António Marujo/7MARGENS.

Alessandro Barbero: as referências de Francisco ao trabalho manual dos frades foram estranhamente censuradas pelos seus biógrafos, diz. Foto © António Marujo/7MARGENS.

7M – E a questão do trabalho manual, de que ele fala no Testamento, ou de viver pedindo esmola…

Não vejo aí qualquer contradição em Francisco, a não ser nisto: ele dita o Testamento no final da sua vida e diz ‘sempre trabalhei, quero trabalhar e quero que todos trabalhem’, mas não pode ignorar que os frades já não trabalham (talvez o façam os que estão mais próximos dele, visto que ele se preocupa com isso); mas é evidente que os milhares de frades que já existiam na Europa quando Francisco morreu não trabalhavam, pediam esmola.

Mesmo os frades – estou a pensar nos autores das primeiras biografias – que estavam mais dispostos a criticar a Ordem porque esta não respeitava a vontade de Francisco ou a pobreza como ele queria, nenhum deles fala do trabalho; não há nenhum episódio que mostre Francisco a trabalhar; é impressionante como este aspecto é censurado quando ele, no Testamento, diz o que diz.

 

7M – Ou seja, ele queria mesmo que trabalhassem.

Ele ilude-se a pensar que basta dizê-lo no Testamento, mas não pode deixar de saber que os frades já não trabalham. Por isso, Francisco é também uma figura trágica, num certo sentido. Creio que é sincero quando diz: “Ainda não fizemos nada, errámos até agora, temos de recomeçar, porque o que fizemos até agora não basta.”

Alguém que morre assim… Felizmente, Deus tinha-lhe garantido que iria para o Paraíso e, por isso, pelo menos morre contente; mas por aquilo que fez na Terra não pode morrer satisfeito; afinal, ele demitiu-se da liderança da ordem: primeiro investiu enormes energias para criar esta grandiosa fraternidade mundial e depois demite-se, vai-se embora…

 

7M – Essa demissão foi a grande frustração da sua vida ou foi a promulgação da Regra Bulada?

Na realidade, os grandes debates sobre a regra ocorrem já após a sua demissão, quando ele regressa do Egipto (1220). Nesse momento ele percebeu que não queria ser presidente de uma multinacional. Naturalmente, a demissão é um facto tão significativo que não pode ser ignorado – nem mesmo Boaventura consegue evitar mencioná-lo, mas é extraordinária a forma como o faz: aborda-a num capítulo inteiramente dedicado aos exemplos da grande humildade de Francisco: ele era tão humilde que, por humildade, chegou mesmo a demitir-se da liderança da Ordem.

Eu acredito mais naqueles que dizem que Francisco, na verdade, se sentiu mal por ter tido de renunciar.

 

7M – Porque começava a ver uma grande organização multinacional…

Claro, com chefes e subchefes que, naquela altura, adoravam o poder; depois, travou a batalha pela Regra, na qual, na realidade, enfrentava dois problemas: por um lado, tinha de conseguir a aprovação de Roma – foi por isso que a primeira Regra não foi selada, foi preciso esperar pela segunda, porque em Roma ainda não estavam satisfeitos; por outro, os episódios que encontramos nas biografias de Francisco são os de conflito com os ministros que não querem que ele inclua na Regra a pobreza total do Evangelho, que lhe dizem: ‘Mas já existem tantas regras bem feitas, há a Regra de São Bento, há a Regra de Santo Agostinho, por que não usamos essas?’

É nesse episódio que ele diz: “Não venham falar-me de São Bento, de Santo Agostinho; Deus disse-me que eu devo ser o maior louco que alguma vez existiu no mundo.” É aí que se verifica precisamente o choque entre quem gostaria de normalizar São Francisco e ele, que, pelo contrário, não quer ser normalizado.

Foto 5A definição que Francisco dava de si mesmo “Um louco como nunca se viu no mundo” é muito apreciada por Barbero. Foto © António Marujo/7MARGENS Alessandro Barbero

A definição que Francisco dava de si mesmo “Um louco como nunca se viu no mundo” é muito apreciada por Barbero. Foto © António Marujo/7MARGENS

7M – Francisco queria imitar a paixão de Cristo, viver a paixão em si mesmo; castigava o próprio corpo, mas oscilando também em relação à ideia do “Irmão Corpo”, mas parece que a história dos estigmas também é pouco clara.

Sem dúvida. É realmente muito difícil falar dos estigmas porque, naturalmente, um historiador laico tenderia a dizer que essas coisas não existem. No entanto, nunca se sabe até que ponto a força da nossa mente pode influenciar também o nosso corpo e, por isso, mesmo o historiador mais laico – eu sou absolutamente laico, não sou crente –, acaba por não se atrever a afirmar nada com certezas sobre os estigmas, mas é possível destacar alguns aspetos.

É importante, por exemplo, sublinhar que, mesmo naquela época, muitos não acreditavam nisso; aliás, acreditavam menos naquela época do que agora, porque, quando se espalhou a notícia dos estigmas de Francisco, há muitos testemunhos de pessoas, inclusive dentro da Igreja, que diziam: “Não é verdade.” Já havia exemplos anteriores de pessoas que tinham inventado ter estigmas, vigaristas… Ainda muitos anos depois [da morte de Francisco], há bispos a quem têm de escrever de Roma a dizer: ‘Soubemos que falam contra os estigmas de Francisco, não devem fazê-lo, é preciso acreditar nos estigmas.’

A questão existe e, além disso, há o problema da forma como são descritos, porque, no início, fala-se de pregos de carne que saem das mãos, mas depois transformam-se em buracos. Em suma, é uma questão extremamente confusa, sem dúvida, mas é precisamente sobre isto que me atrevo menos a dizer que compreendi alguma coisa, pois a questão é realmente demasiado complexa.

 

7M – Então, quem é exactamente o seu Francisco? Um louco como nunca se viu no mundo, como ele próprio dizia e como já referiu?…

Tenho de admitir que gosto disso. A única forma de encontrar alguma coerência e ligar os diferentes Franciscos que nos foram contados – e muitos desses episódios são certamente apócrifos, mas outros são autênticos, nem tudo pode ser inventado – é o Francisco que é uma pessoa excepcional, para além de qualquer regra. É o Francisco que, já antes de se converter, estava convencido de que se tornaria famoso e que o mundo inteiro falaria dele. Só que se enganava quanto à forma: ele acreditava que se tornaria famoso como um grande cavaleiro e, em vez disso, descobre que é outra coisa: converte-se e, nessa altura, pratica tudo de forma extrema, mas também de forma imprevisível; é extrema a forma como diz: “Falaste da minha cela; já que disseste que é minha, não quero mais lá ir”. Mas, ao mesmo tempo, não critica ninguém, não critica a Igreja, permanece dentro.

Quanto mais penso nisso, mais acho que aquilo que hoje nos pode incomodar um pouco – não é o revolucionário como nós o imaginamos – é ainda mais extraordinário, precisamente por isso. Com essa capacidade de fazer tudo à sua maneira e não como os outros esperariam – incluindo ir falar com o sultão, mesmo que ele admire muito os cruzados, e [cujo encontro] não levou a nada, não serviu para nada. Mais tarde, os biógrafos esforçar-se-ão por dizer que o sultão queria converter-se, mas depois não teve coragem; no entanto, a pregação de Francisco tinha-o convertido. Não, nada disso; é um gesto. Francisco, neste aspecto, é muito moderno, dando importância ao gesto.

 

7M – É essa dimensão que aprecia nele?

É, de certa forma, um situacionista, com os gestos… ‘Comeste frango? Sim, comeste o frango porque és alguém que se contradiz, tens fraquezas; estavas doente, trouxeram-te o frango e comeste-o.’ Mas depois [disso] faz com que lhe coloquem uma corda ao pescoço e o arrastem para a praça para dizer às pessoas: ‘Olhem, vocês acreditavam que este era um santo’. E não só: faz isso, mesmo tendo já decidido renunciar ao poder e tendo de pedir a quem manda: ‘Tens de me dar permissão para fazer isto, para ir para a praça nu com a corda ao pescoço’, e perante a recusa, Francisco diz ‘quero que me dês permissão’, e ele tem de te deixar fazê-lo.

É um emaranhado de contradições contínuas, mas daí surge uma personagem enorme, precisamente por causa dessas contradições.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Uma Igreja sinodal não se fica pela consulta

Portugueses no simpósio europeu

Uma Igreja sinodal não se fica pela consulta novidade

“Uma Igreja verdadeiramente sinodal não é apenas uma Igreja que consulta, mas uma Igreja que, em comunhão, discerne caminhos e assume responsabilidades”, escrevem os quatro membros da Equipa Sinodal da Conferência Episcopal Portuguesa como balanço da sua participação no simpósio europeu que decorreu entre 14 e 17 de setembro de 2026, em Wels, cidade situada perto de Linz (Áustria).

Padre assassinado a tiro no México, bispos exigem investigação

Região marcada por violência

Padre assassinado a tiro no México, bispos exigem investigação novidade

O padre Román de la Cruz Hernández, pároco de Santa Cruz, em Huejutla, no estado mexicano de Hidalgo, foi assassinado a tiro, tendo o seu corpo sido encontrado junto a uma estrada, com ferimentos provocados por arma de fogo. A Conferência do Episcopado Mexicano (CEM) manifestou “indignação e tristeza” com o sucedido e pediu uma investigação exaustiva para esclarecer o crime.

Como matar um Dragão

[Arquipélago Jerusalém]

Como matar um Dragão novidade

Começam hoje, 18 de setembro, as eleições para a Duma russa, num país onde a guerra condiciona a vida política e onde o Kremlin procura impedir que o descontentamento se transforme em alternativa. Para situarmos estas eleições, nada melhor do que repetir uma anedota dos tempos soviéticos. [Texto de Mendo Castro Henriques].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This