Os bispos católicos dos Estados Unidos querem participar mais ativamente no debate sobre os riscos e a regulação da Inteligência Artificial (IA), que consideram apresentar “perigos reais e presentes”. A Conferência Episcopal norte-americana (USCCB) criou, por isso, um grupo de trabalho dedicado à proteção da dignidade humana na era da Inteligência Artificial.
A iniciativa foi anunciada esta semana, depois de a Comissão Administrativa da USCCB ter recebido representantes de várias empresas tecnológicas e especialistas em inteligência artificial, adianta o jornal Crux. Segundo Chieko Noguchi, porta-voz da conferência episcopal, o encontro procurou discutir formas de manter a IA “ao serviço da Humanidade” e responder à necessidade urgente de enfrentar os riscos associados ao desenvolvimento da tecnologia.
Os bispos manifestaram também a intenção de contribuir para a definição de uma base moral dos sistemas de IA e para a identificação de medidas que permitam às empresas prevenir utilizações abusivas e garantir a supervisão humana da tecnologia.
O novo organismo – intitulado Bishops’ Task Force on Preserving Human Dignity in the Age of Artificial Intelligence (Grupo de Trabalho dos Bispos sobre a Preservação da Dignidade Humana na Era da Inteligência Artificial) será presidido pelo bispo Oscar Cantú, de San José, e deverá trabalhar sobre políticas e práticas capazes de proteger a dignidade humana, a liberdade religiosa, as instituições democráticas, os trabalhadores, as famílias e as populações mais vulneráveis.
Mas a ação dos bispos não se limitou ao diálogo com as empresas. Mais de uma dezena deslocou-se ao Capitólio, em Washington, para defender junto dos congressistas a criação de “barreiras de segurança” para a IA e legislação destinada a proteger as crianças no ambiente digital.
Parolin: “O futuro da Humanidade está realmente em jogo”

O cardeal Pietro Parolin fala durante o encontro iniciativa sobre sobre “Fé e razão na era da Inteligência Artificial”, no Parlamento italiano. Foto © Vatican Media
A iniciativa dos bispos norte-americanos surge no mesmo momento em que o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, apelou a uma resposta internacional coordenada perante o desenvolvimento da IA.
Num encontro sobre “Fé e razão na era da Inteligência Artificial”, realizado na última quarta-feira, 16 de setembro, no Parlamento italiano, Parolin manifestou preocupação com a possibilidade de alguns Estados procurarem avançar isoladamente na regulação da tecnologia.
“Há países que, de facto, querem avançar sozinhos”, afirmou o cardeal, defendendo, em alternativa, “a participação de todos” na definição de regras comuns capazes de governar o fenómeno. “Parece-me que o futuro da Humanidade está realmente em jogo”, acrescentou.
Para Parolin, a discussão sobre a regulação da IA deve ser conduzida por critérios éticos. Questionado sobre os recentes apelos de dirigentes da indústria tecnológica a uma maior regulação, afirmou esperar que seja “o raciocínio ético” a orientar essa reflexão. O cardeal defendeu ainda que o papel da Santa Sé é sobretudo o de apresentar princípios, cabendo depois aos Estados e às instituições envolvidas encontrar as formas concretas de cooperação.
Numa intervenção mais pessoal, Parolin assegurou também que não utiliza Inteligência Artificial para escrever as suas homilias. “A Inteligência Artificial é toda cabeça e nenhum coração. Eu tento pôr um pouco de coração nas minhas homilias”, disse aos jornalistas.
As posições dos bispos norte-americanos e do secretário de Estado do Vaticano surgem na sequência da primeira encíclica de Leão XIV, Magnifica Humanitas, publicada em maio e dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial.
No documento, o Papa defende que a IA deve permanecer subordinada à inteligência, à consciência e à liberdade humanas, lembrando que os sistemas artificiais não têm experiência, corpo, relações ou consciência moral. Leão XIV sustenta ainda que a simples regulação não basta: é necessário orientar o desenvolvimento tecnológico para o bem comum, a justiça e a proteção dos mais vulneráveis.
Já em julho, numa mensagem dirigida à AI for Good Global Summit, em Genebra, assinada por Parolin, Leão XIV tinha manifestado a disponibilidade da Igreja para dialogar com cientistas, engenheiros, responsáveis políticos e outros intervenientes, com o objetivo de procurar “novos caminhos para o bem comum e para promover uma vida digna para todos”.
Um diálogo que, claramente, já está a ser iniciado. A questão que permanece é saber até que ponto estes princípios conseguirão traduzir-se em regras concretas, num setor cuja evolução tecnológica parece avançar muito mais depressa do que a capacidade das instituições para o regular.










