O novo ano letivo começou na Terra Santa com realidades contrastantes: em Jerusalém, mais de 70 professores e funcionários de escolas cristãs ficaram sem autorizações definitivas para entrar na cidade; em Gaza, uma escola do Patriarcado Latino de Jerusalém reabriu as portas após quase três anos de interrupção, recebendo 1.005 alunos. Entre dificuldades, destruição e incerteza, a educação continua a ser apresentada pelas comunidades cristãs na região como uma forma concreta de preservar o futuro.
Em Jerusalém, o início das aulas esteve mesmo em risco devido à não renovação das autorizações de entrada de mais de 70 professores e membros do pessoal das escolas cristãs, provenientes da Cisjordânia, denunciou esta quarta-feira, 23 de setembro, a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS). As instituições chegaram a anunciar a suspensão das atividades letivas a partir de 1 de setembro, numa decisão que afetaria mais de 8.500 alunos.
Estas autorizações são necessárias devido às restrições de acesso a Jerusalém impostas aos palestinianos da Cisjordânia. Segundo o Secretariado-Geral das Instituições Educativas Cristãs de Jerusalém, citado pela Fundação AIS, a não renovação ocorreu “de forma repentina e sem aviso prévio”, comprometendo as condições para um início estável do ano escolar.
A suspensão acabou por ser levantada depois de algumas autorizações terem sido renovadas pelas autoridades israelitas. Mas, segundo a fundação pontifícia, os documentos concedidos têm durações diferentes — alguns por apenas uma semana, outros por um mês e outros até ao final do ano —, deixando ainda mais de 70 professores sem uma autorização definitiva para todo o ano letivo. George Akroush, diretor de desenvolvimento do Patriarcado Latino de Jerusalém, afirmou que as autoridades eclesiásticas continuam a pressionar para que estas autorizações sejam emitidas, admitindo a possibilidade de uma solução depois do Natal.
Para o Irmão Daoud Kassabry, diretor do Collège des Frères, a questão ultrapassa uma dificuldade administrativa. “Por trás de cada autorização não renovada, há uma pessoa, uma família e um meio de subsistência ameaçados”, alertou, sublinhando também a importância da experiência e da relação de confiança que os professores mantêm com os alunos e as famílias.
De referir que as escolas cristãs de Jerusalém recebem não apenas alunos cristãos, mas também muitos muçulmanos, e são reconhecidas como espaços de convivência e de aprendizagem do respeito mútuo. No caso do Collège des Frères, essa missão tem já uma história de 150 anos. A instabilidade das autorizações surge num contexto económico particularmente difícil para Jerusalém, marcado pelo impacto da guerra e pela quebra do turismo.
Três anos depois, uma escola reabre em Gaza

Ao todo, 1.005 alunos, desde o jardim de infância até ao ensino secundário, voltaram a atravessar as portas da escola. Foto © Patriarcado Latino de Jerusalém
Já na Faixa de Gaza, a Escola do Patriarcado Latino de Jerusalém, ligada à paróquia católica da Sagrada Família, reabriu oficialmente para o ano letivo 2026-2027 esta terça-feira, 22. Ao todo, 1.005 alunos, desde o jardim de infância até ao ensino secundário, voltaram a atravessar as portas da escola depois de quase três anos de interrupção.
O padre Gabriel Romanelli, pároco da Sagrada Família, descreveu o momento como uma experiência de “emoção indescritível”, falando das lágrimas de alegria de crianças e pais ao reencontrarem a escola. “Hoje vimos lágrimas de alegria nos olhos das crianças e dos pais ao verem os filhos na escola após três longuíssimos anos”, afirmou, citado pelo Vatican News.
Segundo dados divulgados pela UNICEF e citados pela Reuters, cerca de 98% dos edifícios escolares de Gaza foram danificados ou destruídos, enquanto cerca de 660 mil alunos ficaram privados de uma educação presencial regular. O regresso às aulas tem sido feito, em muitos casos, em tendas, espaços provisórios ou estruturas danificadas.
A escola do Patriarcado Latino conseguiu, entretanto, reconstruir as condições necessárias para receber os alunos. Foi também construído um novo edifício destinado à educação pré-escolar, com apoio de benfeitores e parceiros internacionais. O regresso envolve 77 professores e inclui, para além das disciplinas curriculares, atividades de apoio psicológico destinadas a crianças e professores que atravessaram quase três anos de violência, deslocação e interrupção escolar.
A própria paróquia da Sagrada Família acolheu centenas de pessoas deslocadas durante as fases mais intensas da guerra. Agora, o espaço assume uma função sobretudo educativa. “Esperamos que este espaço seja um lugar onde possam crescer o amor, a cura e o respeito mútuo entre os membros da comunidade”, afirmou Romanelli.
Para o cardeal Pierbattista Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém, a educação é inseparável da esperança para o futuro da população da Terra Santa. De resto, durante as suas frequentes visitas a Gaza, tem insistido na necessidade de devolver às crianças o acesso à escola. Por isso, na mensagem que acompanhou este regresso, deixou no ar a pergunta, como sendo dos principais desafios para a região, e para o mundo: “Sem oferecer educação às crianças, como pode haver esperança?”.










