É um feito inédito: uma produção realizada em colaboração com o Vaticano está a iniciar o processo de qualificação para os prémios da Academia de Hollywood. Trata-se de Green Lava, documentário de 39 minutos realizado por Lia Beltrami e Ali Aksu, que acompanha a vida de Giacomo Mattivi, um jovem italiano com distrofia muscular de Duchenne, e a forma como este enfrenta a perda do irmão, a doença e os desafios do quotidiano apoiado na família, nos amigos e na comunidade.
O filme foi exibido entre 18 e 24 de setembro no Lumiere Music Hall, em Beverly Hills, nos arredores de Los Angeles, uma passagem necessária para a sua qualificação na categoria de melhor curta-metragem documental. Segundo a revista Variety, a equipa deverá agora completar o processo de inscrição para a consideração da Academia.
A produção é da plataforma Emotions to Generate Change, em colaboração com o Vatican News, a Rádio Vaticana e os Vatican Media, organismos do Dicastério para a Comunicação da Santa Sé. O documentário, em italiano e com legendas em inglês, tinha sido apresentado em Roma em janeiro de 2025, durante o Jubileu do Mundo da Comunicação.
A história começa na cadeia montanhosa das Dolomitas, onde vive Giacomo, natural de Baselga di Piné, na província italiana de Trento. O jovem, que devido à distrofia muscular se desloca em cadeira de rodas e utiliza um ventilador, estuda sociologia, é catequista, escreve poesia e mantém uma ligação forte à música, ao cinema e à natureza.
O irmão Mattia morreu em janeiro de 2022, também vítima da mesma doença. Green Lava acompanha Giacomo no processo de lidar com essa perda, mas sobretudo na forma como continua a construir a própria vida. Entre os estudos, os amigos, a família e os projetos de inclusão promovidos pelos seus pais, o documentário procura mostrar uma realidade que não se reduz à doença.
A própria comunidade das Dolomitas ocupa um lugar central no filme. Lia Beltrami, que vive na mesma aldeia que Giacomo e a sua família, conta que quis mostrar uma comunidade que “cuida das suas famílias e das suas comunidades” e que acolhe Giacomo com naturalidade. A realizadora espera que essa experiência de proximidade e inclusão possa inspirar outras pessoas.
Também para Giacomo, a eventual chegada aos Óscares não é sobretudo uma questão de reconhecimento pessoal. “O objetivo é que a mensagem chegue ao maior número possível de pessoas”, afirmou aos média do Vaticano. Num mundo marcado, segundo o jovem, pela incerteza e pelas tensões, o filme pode ajudar a descobrir “o melhor que existe dentro de cada um de nós”.
A história de Giacomo, que chegou a ser recebido pelo Papa Francisco durante o Jubileu da Comunicação, em 2025, já tinha sido contada pelos média do Vaticano antes do filme. Em 2024, a Rádio Vaticano produziu uma série de cinco episódios sobre a sua vida, intitulada Il talento di Giacomo, centrada na relação entre deficiência, poesia, fé e criatividade.

Giacomo encontrou-se com o Papa Francisco durante o Jubileu do Mundo das Comunicações em 2025. Foto © Vatican Media
Paolo Ruffini, prefeito do Dicastério para a Comunicação, considera Green Lava “um antídoto para os nossos olhos enevoados”, recuperando uma expressão usada pelo próprio Giacomo para falar da dificuldade de ver quando as lentes dos óculos ficam embaciadas. Para Ruffini, o filme tornou-se uma viagem pela “beleza de vida e amizade”.
A colaboração do Vaticano não significa, contudo, que o filme represente oficialmente a Santa Sé na competição. Ao contrário do que acontece na categoria de melhor filme internacional, os documentários de curta-metragem não são apresentados por um Estado através de uma comissão nacional. A inscrição é feita segundo as regras próprias da Academia.
O percurso de Green Lava nos Óscares está, por isso, apenas a começar. Mas a sua presença no circuito de qualificação já constitui uma estreia: é a primeira vez que uma produção realizada com o apoio do Vaticano procura chegar aos prémios da Academia de Hollywood.










